Vozes livres

Ana Gomes, Álvaro Santos Pereira e Paulo de Morais: é de portugueses assim, independentes e com pensamento próprio, que o país precisa.

Os últimos tempos têm-me feito seguir as intervenções de Ana Gomes, Álvaro Santos Pereira e Paulo de Morais. São três pessoas, de diferentes famílias políticas, que dizem coisas importantes, corajosas ou simplesmente oportunas. Habituei-me a segui-los, sobretudo nas redes sociais, porque deles espero sempre algo de novo, fora do pensamento dominante, da cultura instalada. Não preciso de estar de acordo com o que digam, basta-me reconhecer a independência, a coragem e a preocupação da cidadania.

Em sentido contrário, já raramente consumo o chamado pessoal político.

Da sede do partido à Assembleia da República, passando por arruadas de campanha eleitoral e os intermináveis frente a frente na televisão por cabo, tenho por adquirido que a generalidade dos agentes políticos não correm o risco de passar os limites da agenda oficial criada por eles próprios em estreita colaboração interpartidária e com o apoio de sindicatos e demais centrais de interesses. Sei da existência de honrosas exceções (comecei por citar três), e tenho por adquirido que constituem um rebanho indispensável ao funcionamento da Democracia – é certo, mas perdi a paciência para o circo, na generalidade  pouco criativo, amansado pelos respetivos diretórios.

Agoniei-me de vez com a certeza da própria Assembleia da República não ser capaz da devida exigência para com os deputados da pequena falcatrua dos quilómetros e outras regalias adulteradas. É aí que se percebe que o exagero socialista da proteção da família, dos amigos, dos escândalos sem fim de um partido que tomou conta do Estado, também seria possível com gente de outra cor. Infelizmente. Estamos perante um mal de país pequeno, no qual abunda a ‘cunha’ e se suspira pelo ‘favorzinho’.

A política tornou-se um best of do pior do mundo empresarial, cultural, comunicacional e outros. É um bom retrato da sociedade portuguesa no seu todo. Prova que a nossa Democracia enterrou a ditadura mas não se livrou dos exércitos de colaboracionistas sempre atentos e venerandos, “muito obrigado”.

Num país assim, devemos dar mérito a pessoas capazes de irem contra a corrente, de se afirmarem como independentes, de falarem pela sua cabeça e de acordo com os seus valores.

Repare-se: se não fosse Álvaro Santos Pereira, porventura os cinco anos de aniversário da resolução do BES não teriam merecido o comunicado da PGR a reconhecer como está atrasada a investigação ao caso. “Cinco anos volvidos após ter sido desvendada a maior fraude e pirâmide financeira da nossa história, ninguém foi preso ou sequer julgado. Perante isto, como é que a nossa Justiça pretende permanecer credível aos olhos dos cidadãos? Por que é que os partidos não fizeram mais?”, perguntou o ex-ministro da Economia, que voltou a dar sugestões interessantes para a abordagem aos grandes processos, tal como no Parlamento, há meses, deixou ficar uma boa agenda para o combate  à corrupção.

Ana Gomes, por exemplo, tem-se destacado pela denúncia da circulação de dinheiro sujo e da necessidade das sociedades terem acesso a toda a informação. E Paulo de Morais tem-se dado ao trabalho de monitorizar a forma como os interesses se transformam sem nunca esquecerem os capatazes que os servem.

É de portugueses assim que o país precisa para criar uma cultura de exigência indispensável ao fortalecimento da Democracia. Populistas são os outros, os que vão na manada.

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