[weglot_switcher]

À espera do ‘tariff day’, von der Leyen promete “fazer-lhe frente” com a mesma violência

O plano global de Trump sobre as novas tarifas é uma incógnita até hoje. A União Europeia promete direitos aduaneiros recíprocos e retaliatórios. Mas outros países, eventualmente com economias mais ágeis, prometem encontrar alternativas ao comércio com os Estados Unidos.
Kevin Lamarque/REUTERS
2 Abril 2025, 07h00

A União Europeia dispõe de “muitas cartas” – as metáforas com cartas ficaram repentinamente na moda – que podem ser utilizadas para negociar, dissuadir e, se necessário, “fazer recuar” o plano de Donald Trump de impor tarifas a todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos. Ursula von der Leyen antecipava assim o que se espera esta quarta-feira, que o presidente norte-americano apelidou de ‘liberation day’ – o ‘tariff day’ para alguns – durante o qual Trump prometeu lançar novas tarifas sobre os seus parceiros comerciais.

Trump, cuja iniciativa sem precedentes antagonizou aliados de longa data – refere toda a comunicação social – agitou os mercados bolsistas (Wall Street incluído), lançou o ouro (ativo de refúgio para tempos de crise ou guerra) para máximos nunca antes vistos e levantou de novo o espectro da recessão, da inflação e de um novo aumento das taxas de juro (ou, pelo menos, a suspensão do seu recuo). Trump avisou que as ‘suas’ tarifas visariam “todos os países” e que só posteriormente se iria “ver o que acontece” – abrindo as portas a negociações caso a caso, como já sucedeu com o Canadá e o México há cerca de um mês atrás. Isto, deixou entender, para servir os países que se mostrem “amigos” dos Estados Unidos – sendo que o presidente não especificou como se entra no perímetro dessa amizade. Mas talvez haja uma nota que permita perceber quais são os critérios da Casa Branca: a Argentina, diz o seu presidente, Javier Milei, está prestes a conseguir assinar com os Estados Unidos um tratado de livre comércio que, disse ainda, não deverá colidir com os interesses do Mercosul.

Para o bloco dos 27, as tarifas recíprocas surgem na sequência de direitos de 25% sobre as exportações de aço, alumínio e automóveis. A Comissão Europeia apresentou medidas de retaliação, mas adiou a sua introdução para meados de abril. Refira-se que esta ‘troca’ de tarifas alfandegárias pode afetar o crescimento da União e fazer subir a inflação – e com certeza a dos Estados Unidos, salientam muitos analistas norte-americanos, nomeadamente a ‘insuspeita’ Goldman Sachs – colocando o Banco Central Europeu no interior do perímetro da resposta dos 27. Embora o âmbito e a escala exatos permaneçam incertos, intensificou-se a especulação de que a Casa Branca poderia impor tarifas de até 25% sobre os produtos europeus. Estes direitos seriam aplicados com base nas taxas existentes já aplicadas a automóveis e peças, que aumentaram o custo das exportações relacionadas com veículos em 50%.

O que se espera de Bruxelas

Com as novas tarifas sobre automóveis, aço e alumínio já aplicadas ou a entrar em vigor esta quarta-feira, a Comissão Europeia deverá consultar os Estados-membros sobre uma lista de produtos norte-americanos que estão sujeitos a tarifas suspensas desde 2018, na sequência de uma disputa comercial entre a UE e a primeira administração Trump sobre as tarifas de aço e alumínio. O anterior presidente norte-americano, Joe Biden, negociou com os europeus a sua suspensão – mas curiosamente não a sua supressão. Bruxelas já o disse oficialmente: tem em vista “outro tipo de medidas sobre os serviços ou sobre a ferramenta anticoerção”. Recorde-se que, em 2023, os Estados Unidos registaram um excedente comercial de serviços de 109 mil milhões de euros com a União. Em 2024, a União Europeia exportou 382 mil milhões de euros de mercadorias para os Estados Unidos, dos quais 46,3 mil milhões foram provenientes de veículos, incluindo automóveis, motociclos e peças. Com os EUA a representar cerca de 10% do total das exportações da UE, o bloco está especialmente exposto às fricções comerciais transatlânticas.

Por outro lado, o instrumento anticoerção, adotado pela UE em 2023, mas nunca utilizado, é visto por alguns especialistas citados pela agência Euronews como uma “opção nuclear” na política comercial. Permite a Bruxelas impor medidas sobre os direitos de propriedade intelectual ou, por exemplo, restringir o licenciamento contra um país terceiro, acrescentando uma ferramenta poderosa ao arsenal do bloco em disputas comerciais globais.

O Comissário europeu para o Comércio, Maros Sefcovic, já reuniu em Washington com o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, o representante para o Comércio, Jamieson Greer, e o principal conselheiro económico da Casa Branca, Kevin Hassett, mas, segundo a Comissão Europeia, as conversações tiveram resultados dececionantes.

De acordo com as estimativas citadas pela presidente do BCE, a francesa Christine Lagarde, uma tarifa de 25% imposta pelos EUA pode reduzir o PIB da Zona Euro em 0,5 pontos percentuais e fazer subir a inflação numa margem semelhante no primeiro ano – partindo do princípio de que a União retaliaria com a mesma força. O BCE tem pela frente uma escolha difícil: deve apoiar o crescimento flexibilizando a política monetária ou precaver-se contra o choque inflacionista das novas tarifas? Os empresários estão à espera de uma resposta, até porque o mercado não está a funcionar da forma que anteciparam: várias fontes disseram ao JE que a previsível apreciação do dólar em relação ao euro acabaria por ajudar os exportadores para os Estados Unidos a pagar o aumento das taxas. Ora, essa apreciação não está a acontecer de forma clara, o que lança dúvidas junto dos empresários sobre o que os espera no futuro imediato.

O que se espera de Washington

Entretanto, e segundo adianta a imprensa norte-americana, a Casa Branca está a elaborar planos para impor tarifas de 20% sobre a maioria dos produtos importados para os Estados Unidos. Trump disse, recorde-se, que as novas tarifas atingirão todas as nações que impõem impostos sobre produtos dos Estados Unidos – o que se aplicará também a qualquer país que tenha tratado os americanos “injustamente”.

Trump deve revelar o seu plano num evento no Rose Garden a meio desta tarde, mas é possível que a ‘carga’ sobre os países ‘mal-comportados’ seja abandonada em favor de uma abordagem mais ‘democrática’: os tais 20% sobre todos os países, ou quase. A administração diz que os novos impostos poderiam levar a cerca de seis biliões de dólares em receitas para os cofres públicos.

Um assessor da Casa Branca citado pela imprensa disse que qualquer notícia que surja sobre a matéria antes do evento onde Trump apresentará o plano é “mera especulação”.

O que esperar da Ásia

Tal como a União Europeia, o Canadá também prometeu responder com tarifas próprias. “Não prejudicaremos os produtores e trabalhadores canadianos em relação aos trabalhadores norte-americanos”, disse o novo primeiro-ministro Mark Carney. Várias empresas norte-americanas têm dito que o movimento ‘Compre produtos canadianos’ já está dificultando a chegada dos seus produtos às prateleiras dos vizinhos do norte. E outros países também ameaçaram tomar contramedidas.

Mas há quem prefira testar uma alternativa: substituir as vendas para os Estados Unidos por vendas para países que não se encontrem em guerra tarifária. É isso mesmo que a improvável tripla China-Japão-Coreia do Sul quer fazer.

No passado domingo, os três países encontraram-se ao nível de ministérios para tentarem encontrar uma alternativa às tarifas impostas pelos Estados Unidos. Os três ministros do Comércio dos países – dois deles aliados costumeiramente incondicionais dos Estados Unidos – concordaram em “cooperar estreitamente para encontrarem uma plataforma de negociações abrangentes e de alto nível” sobre um acordo de livre comércio entre a Coreia do Sul, Japão e China.

“É necessário fortalecer a implementação da RCEP, da qual todos os três países participaram, e criar uma estrutura para expandir a cooperação comercial entre os três países por meio das negociações do ALC Coreia-China-Japão”, disse o ministro do Comércio da Coreia do Sul, Ahn Duk-geun. O ministro referia-se à Parceria Económica Regional Abrangente (RCEP), um tratado de livre comércio proposto na região Ásia-Pacífico entre os dez Estados-membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietname, e cinco dos parceiros da Área de Livre Comércio (ALC) da ASEAN – Austrália, China, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul. A Índia, que também é parceira da ALC da ASEAN, optou por retirar-se das negociações do RCEP em novembro de 2019. As negociações do RCEP foram formalmente lançadas em novembro de 2012, na Cúpula da ASEAN, no Camboja.

Seul, Pequim e Tóquio são importantes parceiros comerciais dos Estados Unidos, embora tenham tido conflitos entre si sobre questões como disputas territoriais e a liberação de águas residuais do complexo nuclear destruído de Fukushima pelo Japão. As dificuldades de entendimento entre os três – que resultaram do poder cada vez mais vincado da China na região e da oposição de Trump a um acordo entre os asiáticos ao longo de todo o seu primeiro mandato – fizeram com que não houvesse progressos substanciais: abordado em 2012, um acordo trilateral de livre comércio nunca passou do capítulo das intenções. Mas o RCEP, que entrou em vigor em 2022 como estrutura comercial entre 15 países da Ásia-Pacífico, visa reduzir as barreiras comerciais.

A nova investida da Casa Branca sobre o comércio mundial pode ser aquilo que faltava para as intenções iniciais acabarem por cumprir-se. A próxima reunião ministerial dos três países realizar-se-á no Japão, segundo fonte da organização. E se este grupo de ‘lesados das tarifas Trump’ for passível de aumentar, o acordo pode também ser apelativo para países como o Vietname, a Indonésia e até a Índia.

Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.