Nos últimos dias, instalou‑se um fenómeno inesperado e potencialmente devastador para a execução dos projetos do PRR – Descarbonização da Indústria. O preço do lítio, matéria‑prima central para sistemas de armazenamento de energia (ESS), disparou de forma abrupta, atingindo valores que colocam em causa a própria arquitetura financeira destes investimentos. Os futuros do carbonato de lítio chegaram recentemente aos 95.200 yuan por tonelada, aproximando-se do limite máximo diário. Em paralelo, vários fabricantes internacionais anunciaram aumentos imediatos na ordem dos 15% no preço das baterias, pressionando de forma dramática a cadeia de fornecimento.

Este choque súbito tem consequências diretas e profundamente preocupantes. Os beneficiários dos projetos são agora obrigados a reavaliar investimentos já aprovados, confrontados com um cenário em que manter o orçamento significa, inevitavelmente, reduzir a dimensão das soluções previstas. E essa redução traduz-se numa verdade desconfortável: as metas de descarbonização contratualizadas deixam de ser alcançáveis. Menos capacidade instalada implica menor redução de emissões, menor taxa de autoconsumo e um impacto público muito inferior ao previsto.

A urgência é real. O PRR definiu agosto de 2026 como horizonte de execução, o que significa que não há margem para atrasos, reformulações profundas ou um novo ciclo de validação técnica. Este choque de preços cria um risco sistémico que não afeta apenas projetos isolados, mas toda a estratégia de industrialização verde que o país procura acelerar.

Perante esta situação, é fundamental que o Estado, através do IAPMEI, do Banco Português de Fomento e das estruturas de governação do PRR, avalie e comunique, rapidamente, medidas extraordinárias que evitem a inviabilidade dos investimentos. Essas medidas podem passar por uma atualização excecional dos orçamentos elegíveis, um ajustamento proporcional das metas contratualizadas ou instrumentos transitórios dsoce apoio financeiro que absorvam a volatilidade.

A descarbonização industrial não pode ficar refém de um choque especulativo ou geopolítico. Sem resposta célere e articulada, arriscamos transformar um dos programas mais estruturantes do PRR numa oportunidade perdida, não por falha das empresas, mas por um súbito desmoronar das premissas de mercado que sustentavam os projetos.

O relógio está a contar. E, desta vez, mais depressa do que nunca.