A instabilidade geopolítica relativamente à Gronelândia, que tem gerado tensão entre norte-americanos e europeus, foi o mais recente catalisador que justifica os novos máximos do ouro. Ao nível de futuros a matéria-prima superou a barreira dos cinco mil dólares, na quinta-feira. O metal teve também a melhor semana desde 2008, como assinala o Financial Times, com uma subida de 8%. As perspetivas apontam para a continuação desta valorização. Macroeconomia, política monetária, são algumas das alavancas para a continuação do disparo deste metal. Previsões já apontam para preços acima dos sete mil dólares.
O ouro no espaço de um ano [últimos 12 meses] está a registar um valorização de 80%. Esta subida fez com que a matéria-prima atingisse um novo máximo na quinta-feira quando os futuros deste metal chegaram a transacionar a 5.017 dólares.
O banco suíço UBS salientou, na sexta-feira, o papel que o ouro tem assumido como um hedge (protecção) de um portfólio. “Com a recente subida para novos recordes históricos, o ouro acumula uma valorização de cerca de 14,5% este ano, somando-se à subida de 65% do ano passado. Neste último episódio, o ouro funcionou como um melhor contrapeso à pressão sobre as ações do que as obrigações, considerando a composição das carteiras. Para além da Gronelândia, os persistentes pontos de tensão geopolítica (como o Irão, Gaza ou a Ucrânia) e as incertezas internas em torno das decisões judiciais nos Estados Unidos e das eleições intercalares podem novamente impulsionar subidas periódicas dos preços. A procura é ainda sustentada pelas preocupações com a independência da Reserva Federal norte-americana (Fed) e por uma mudança global em direção a moedas menos fiduciárias. Prevemos que as compras de ouro por parte dos bancos centrais aumentem para 950 toneladas métricas em 2026, juntamente com a procura constante por parte dos investidores”, referiu a instituição bancária.
O UBS diz ainda que as condições macroeconómicas continuam favoráveis ao ouro. “Acreditamos que a fragilidade do mercado de trabalho permitirá à Fed reduzir novamente as taxas de juro, já este trimestre”, diz a instituição bancária. “Ao mesmo tempo, a inflação tem-se mostrado um pouco mais persistente do que o esperado e mantém-se acima das metas do banco central. Isto significa que os rendimentos reais provavelmente cairão ainda mais à medida que a política monetária se flexibiliza. A natureza não rentável do ouro torna-se mais atrativa num ambiente de taxas de juro baixas, especialmente com o aumento das preocupações fiscais e dos níveis de endividamento dos Estados Unidos. A persistente incerteza política e o potencial de fragilidade económica podem levar a novas ações do banco central, proporcionando impulsos adicionais para os preços do ouro”, acrescenta o banco suíço.
Tendo em conta estes factores o UBS salienta que o argumento a favor do ouro “continua a ser convincente” pelo que o banco suíço mantém este ativo nas suas carteiras. “Para os investidores com afinidade por esta classe de ativos, consideramos apropriada uma alocação de um dígito médio em ouro dentro de um portefólio diversificado em dólares”, reforça a instituição suíça.
“Com o nosso objetivo de preço-base para o ouro de cinco mil dólares, estamos cada vez mais focados no nosso cenário de risco de alta de 5.400 dólares. De uma forma mais ampla, acreditamos que as commodities, ou matérias-primas, (incluindo os metais industriais e preciosos) podem desempenhar um papel maior no desempenho do portefólio em 2026. Ao mesmo tempo, mantemos uma visão positiva sobre as ações globais, sustentada por tendências saudáveis de crescimento e lucros, e vemos este recente período de volatilidade como uma oportunidade para construir uma exposição diversificada”, salientou, na sexta-feira, o UBS.
Mas já existem projeções para que o valor do ouro continue a subir. A estrategista para a área de commodities (matérias-primas) do ICBC Standard Bank, Julia Du, citada pela CNBC, prevê que o preço do ouro possa atingir os 7.150 dólares.
Já a responsável pela área de metais da MKS PAMP, Nicky Shiels, prevê que o ouro possa chegar aos 5.400 dólares este ano. “O ano passado foi histórico, um evento que ocorre uma vez a cada cem anos no mercado dos metais preciosos, em que a prata praticamente duplicou de valor. O ouro subiu 60%, pelo que não veremos uma repetição destes ganhos, mas 5.400 dólares representam uma subida sólida de 30% em relação ao ano anterior. Este é um movimento secular. Não se trata de um pico de alta repentina no mercado de matérias-primas”, adiantou Nicky Shiels, citada pela CNBC.
As intenções norte-americanas relativas à Gronelândia, e a instabilidade em volta deste tema, fazem com que os investidores vejam no ouro um porto de abrigo.
O Presidente norte-americano por diversas vezes já manifestou a sua intenção de adquirir a Gronelândia, que está sob a jurisdição da Dinamarca. O governante norte-americano tem invocado motivos de “segurança nacional” para justificar a tomada da Gronelândia.
Tal tem causado tensão entre norte-americanos e europeus. Donald Trump ameaçou, a 17 de janeiro, aplicar uma tarifa de 10%, com início a 1 de fevereiro, à Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países, Baixos e Finlândia, até que se chegue a um acordo para que os Estados Unidos adquiram a Gronelândia. Este valor subiria para 25% a 1 de junho. Recorde-se que estas tarifas seriam um acréscimo à tarifa de 15%.
Esta foi a resposta norte-americana à movimentação de tropas de vários países europeus depois dos norte-americanos terem mostrado intenção de adquirir a Gronelândia.
Contudo os ânimos relativamente à Gronelândia acabaram por serenar na semana passada quando Donald Trump afirmou que estava excluída a hipótese de intervenção militar na Gronelândia, e afastou também o cenário de avançar com tarifas a várias nações europeias, fazendo reavivar o TACO (Trump Always Chickens Out), um termo utilizado para os recuos de Trump depois de anunciar uma ameaça.
Após um encontro com o responsável pela NATO, Mark Rutte, em Davos, no âmbito do Fórum Económico Mundial, Donald Trump confirmou que tinha sido alcançado um “quadro de um futuro acordo em relação à Gronelândia”.
O UBS adiantou na sexta-feira que a resiliência do ouro foi evidente esta semana [referindo-se à semana que acabou de terminar], mesmo com os mercados a “voltarem a adotar um comportamento de apetite ao risco após a redução das tensões geopolíticas”, em alusão ao recuo norte-americano relativamente à tomada de posse da Gronelândia e à aplicação de tarifas a vários países europeus.
O banco suíço adiantou também que o recuo norte-americano “ajudou a acalmar os investidores e desencadeou uma subida generalizada” dos ativos de risco.
Contud0, assinala o UBS, esta acalmia nas intenções norte-americanas, relativas à Gronelândia, “não contiveram” a subida dos preços do ouro, a que se juntou também a fraqueza do dólar.
A captura do Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, foi outro evento que também tem justificado a continuação da subida do preço do ouro. “Estamos a entrar num mundo onde existe uma forte procura para garantir metais críticos, e matérias-primas críticas nesta década”, disse Nicky Shiels, citada pela CNBC.
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