“Gostava de ajudar, mas não faço as regras” ou “não faço melhor porque não me deixam”. O discurso da culpabilização é a marca de quem diz querer fazer, sem querer realmente fazer. E tem crescido, pelo menos, na minha experiência com empresas, instituições de solidariedade e no Governo: é cada vez mais difícil tomar decisões e encontrar decisores. Afeta as lideranças do setor público, do setor privado e do terceiro setor.
Há frases que parecem ter nascido com o mundo: “Gostava de dar essa informação, mas não assumo a responsabilidade”; “percebo, mas o sistema não permite submeter sem isto”; “sem mudar a Constituição, não dá”. Coisas simples como abrir uma conta num banco tornam-se em momentos de conversão ao ativismo contra todos, menos o banco que só cumpre ordens. E falando de bancos, veja-se o caso recente do Banco Português de Fomento, que só precisou de mudar de liderança.
O sistema de culpa é simples: sai das minhas mãos para aterrar nas do outro. Preferencialmente, até de forma circular, para manter a roda a rodar. Nesta ineficiência da não decisão, encontramos na impessoalidade das regras o culpado perfeito: a burocracia.
Transformámos a burocracia no leviatã da modernidade, atrás de quem se escondem todos os que estão contra aquele que nada pode. Até nisto não falha o sistema: culpar a infeliz circunstância de remar sozinho é, em si mesmo, um ato de culpabilização de todos os que não remam. É mesmo o argumento principal do paralisado: “não posso nada contra o sistema instalado”. E o sistema alimenta-se a si mesmo, porque quanto mais responsabilizamos o outro, mais quietos ficamos, não vá descobrir-se que o outro somos nós.
Um dia dirão que este foi o nosso Golias, a impedir-nos de dobrar o cabo das tormentas. O que é triste, porque é só uma tormenta, e parece que já dá cabo de nós. Mitologia moderna.
Para inimigos antigos mas renovados, um herói não menos moderno: o desburocrata. Quem nunca vestiu esse papel? Portador da magia da simplificação que trará decisões que surpreendem todos, incluindo o próprio.
Nisto, o desburocrata é igual à vítima das culpas: identifica obstáculos, não aponta caminhos. E por muito que lhe queira usar o título, não será um herói, estatuto que se atribui por praticar atos, não por criticar factos.
Os nossos heróis são aqueles que contribuem para organizações que funcionam a dois tempos: o passado em que se encontram e o futuro que constroem. As organizações que compreendem isto não dramatizam falhas, porque em falha já está todo o seu contexto, na medida em que o transformam em passado. É pressuposto haver obstáculos. É suposto vencê-los.
As que fazem o inverso, transformando a razão de agir em razão de omitir, são clubes de leitura especializados em novelas. O que será fantástico para entretenimento, mas muito pouco útil para decisões sérias.
A culpa não é da burocracia porque não há culpa. Há este passado em que nos encontramos e há a obrigação de produzir um futuro melhor.



