A vida de Tony Miranda em França começou longe dos holofotes das passerelles. Foram dias de sacrifício e resiliência, marcados pelo trabalho na construção civil e até no lixo. Uma realidade muito dura, mas que nunca lhe furtou os sonhos de uma carreira no mundo da moda. O importante, como ele próprio diz, “é estar hoje aqui, com vontade de continuar e ser aquilo que aprendi”.
Nascido em Torrados, uma aldeia do concelho de Felgueiras, ofereceu-se para aprendiz na Maison Joseph Camps, um mestre da alta-costura francesa. Por este ateliê, nos anos 60, passaram jovens criadores que se tornariam mais tarde referências europeias e mundiais, tais como Henry Hurbain ou Benuchi, que trabalharam com Tony Miranda na mesma mesa de corte. “Uma peça de alta-costura é como uma jóia feita à mão: podemos ter um tecido que é um diamante, mas se não o soubermos lapidar estragamo-lo.
Uma casa de botão tem quatrocentos pontos feitos à mão. A gola de um casaco de homem é cosida à mão, com pontos muito pequenos, precisos e iguais, sempre constantes e invisíveis. Aos olhos de um leigo, pode parecer igual a uma gola cosida à máquina, mas o resultado é completamente diferente: a gola cosida à mão pode amarrotar-se, comprimir-se, que volta sempre ao sítio, nunca se vira, não sai do lugar. Esse minucioso e tão preciso trabalho dá-lhe simultaneamente uma maleabilidade e uma estrutura extraordinárias, que a mantêm sempre no sítio”, explica ao Jornal Económico (JE).
Em 1967 surgiu-lhe a primeira grande oportunidade para dar o salto na carreira: entra na casa Ted Lapidus e, ao fim de dois anos, ascende ao cargo de diretor da área criativa e de modelismo. Nos dez anos seguintes foi o responsável pela griffe Lapidus. “Aqui fiquei a conhecer os meandros do fascinante mundo da alta-costura francesa. Era extraordinariamente exigente: um costureiro tinha de apresentar obrigatoriamente duas coleções por ano, com pelo menos 70 modelos diferentes, todos únicos e originais: peças simples, para usar de manhã, peças para cocktail e peças para grandes festas. Apesar de ser preciso apresentar 70 modelos, nunca fiz coleções com menos de cem”, afiança Tony Miranda.
Corria o ano de 1979 quando decidiu emancipar-se e abrir o seu próprio ateliê de alta-costura na 61 bis, Avenue Suffren, uma das zonas mais elegantes de Paris. “Como tinha algumas economias, podia esperar uns tempos até a casa se implantar e os clientes chegarem. A verdade é que o tempo passava e esses clientes não apareciam. Estava a ficar desesperado. Fazia tudo para recuperar alguns bons clientes: telefonava, mas as secretárias não me conhecia; mandava cartas que, vim a descobrir depois, iam para o lixo. A situação financeira tornou-se delicada. Fazia algumas vendas fictícias para provar a existência dos funcionários e de outras despesas, mas estava a chegar ao meu limite. Comecei a pensar seriamente em fechar”, recorda.
Deu a volta ao negócio e, mais tarde, abriu a boutique Tony Miranda no nº5 da emblemática rue Cambon, onde Coco Chanel abriu o seu primeiro ateliê, em 1910. Foi então que o costureiro português começou a ampliar a sua base de clientes, com destaque para figuras ilustres da política, finanças, aristocracia, sociedade e espetáculo que se vestiam no seu ateliê. Pelas suas mãos passaram nomes como o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi, Jacques Brel, Charles Aznavour ou Brigitte Bardot.
O sucesso ao longo da década de 80 fê-lo desejar voltar a ter a sua base em Portugal, continuando a visitar e a vestir os clientes que tem espalhados pelo mundo, sobretudo na Europa, Médio Oriente e África. Em 1989 abre uma casa de alta-costura em pleno centro histórico de Guimarães, mantendo, contudo, uma forte atividade em Paris. Este regresso corresponde, aliás, a uma vontade de desenvolver uma escola no país para afirmar o nome de Portugal no universo da alta-costura internacional. “Os meus clientes não gostam de ostentar marcas e logótipos. Não precisam disso”, explica. “São pessoas que reconhecem que o verdadeiro luxo está na qualidade da confeção e dos materiais”, diz.
Depois dos inúmeros desfiles realizados em Madrid, Paris, Luanda e Las Vegas, Tony Miranda centraliza o seu atendimento em Lisboa, na Avenida da Liberdade, no prédio que adquire no final dos anos 90 e que batiza com o seu nome. “Ao contrário do que acontecia na altura, hoje não são apenas os bons clientes que sustentam uma grande marca, mas sim toda a gama de acessórios, malas, cintos, sapatos, perfumes, cosmética, de entre outros que rodeiam este universo de lifestyle de moda.”
Além do atendimento privado, que lhe ocupa o essencial do tempo de trabalho, Tony Miranda foi tendo ao longo da última década várias intervenções na sociedade. Em 2005, por exemplo, desenha e lança sob o tema “Prevenir é Vida”, uma t-shirt com um desenho da sua autoria para a campanha do cancro da mama. E, pouco depois, lança em 2007 uma coleção a que chamou “Tony Miranda Home Couture” destinada a tornar as casas mais sofisticadas – e na qual desenvolveu acessórios de decoração, tendo sido pioneiro na introdução de artigos aromatizados.
Em 2008, a convite do Museu Nacional do Traje, elaborou uma exposição sobre o tema “Paixão”, onde passou em revista o seu percurso na moda, “Sou muito exigente comigo próprio: às vezes estou dias e dias a trabalhar e vai tudo para o lixo. Salvo seja! Mas, de repente, há uma ideia que vinga e a partir daí desenvolvo toda uma coleção. É um fio que se puxa e atrás do qual vem tudo o resto, como se uma peça chamasse outra peça e mais outra, abrindo-se uma caixa de surpresas. Tenho ideias em qualquer lado e aponto-as nos papéis que tenho à mão. Os meus bolsos estão muitas vezes cheios de pequenos pedaços de folhas com esquissos e desenhos; inconscientemente, desenho em todo o lado”, conta ao JE.
O espírito empreendedor levou também o costureiro a estabelecer diversas parcerias com universidades, no sentido de inovar ao nível das matérias-primas. Depois de um estudo sobre a cortiça, lançou em 2009 uma linha de acessórios que vai desde malas e sapatos de homem, até chapéus ou adereços de escritório. A colecção “TM Cork” foi apresentada nos Estados Unidos e passou ser comercializada no mercado norte-americano e no Japão. “A um costureiro não bastam a criatividade e os tecidos espetaculares. Necessita de muita técnica e perfeição. Há que saber utilizar materiais difíceis de manusear, o que só é possível com muita prática e interesse continuado”, sublinha.
Imobiliário
Paralelamente à carreira internacional na moda, deu início à aposta estratégica no setor imobiliário. O primeiro investimento em Portugal foi feito no final dos anos 80, quando ainda vivia em Paris. A compra do prédio na Avenida da Liberdade, em Lisboa, custou na altura 650 mil contos (o equivalente hoje a 3,25 milhões de euros, sem ajustes de inflação ou correção financeira). Era um prédio em ruínas, do qual só foi conservada a fachada, que esteve em obras ao longo dos anos 90. “As obras começaram e foi uma luta com muitos problemas, entre os quais a falência de dois empreiteiros que tinha contratado. Depois de muitas empreitadas diretas, ultrapassando muitos obstáculos, as obras acabaram finalmente. Seguiu-se a decoração, a escolha e desenho de todos os móveis, dos pormenores e acessórios da loja – tudo foi pensado ao milímetro”, lembra.
Abriu no ano 2000 e, para além da sua residência em Lisboa, alojou desde o início os salões de atendimento privado do criador: um piso para mulheres, um piso para homens. Há cerca de uma década que a boutique do rés-do-chão está alugada à Prada, que ali instalou a loja da marca Miu Miu em Lisboa.
Também na capital portuguesa, abriu depois da pandemia de covid-19 o TM Luxury Apartments, uma unidade de turismo de moda. Fica nas traseiras do Edifício Tony Miranda na Avenida da Liberdade e partilha com ele um vasto jardim no interior do quarteirão: será nesse jardim, aliás, que irá desfilar a nova coleção, “Herança Couture”, a 11 de setembro. Esta unidade tem 30 apartamentos, entre os 40 e os 200 metros quadrados, todos decorados com motivos ligados à moda, desde fotografias de desfiles a peças e adereços de homem e mulher. No Bloco B do complexo há um apartamento que tem um terraço particular. O conjunto dispõe de estacionamento subterrâneo para 33 lugares de garagem. Há cerca de cinco anos, quando o empreendimento estava no início, um banco avaliou o investimento inicial em 20 milhões de euros.
Em Guimarães, Tony Miranda tem vários investimentos turísticos em prédios seus na zona histórica da cidade: uma guesthouse com nove apartamentos, em cujo prédio funciona também um restaurante e um salão de cabeleireiro (ambos concessionados); um prédio de cinco andares com sete apartamentos de Alojamento Local e outro prédio, na Rua da Rainha, onde funcionam oito apartamentos de Alojamento Local. Além disso, o empresário tem ainda uma quinta nos arredores da cidade, em Silvares, com 35 hectares. “Acho que se só se pode verdadeiramente dizer que se é costureiro quando se sabe fazer tudo na costura. Posso desenhar um modelo espetacular, mas se não dominar o corte, a técnica, se não souber criar uma tela, a peça pode não se parecer com o desenho, e os objetivos não serem atingidos”.
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