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Anna Maria Maiolino: Mãos na terra, espírito nómada

Como sobreviver à perda, ao exílio? Anna Maria Maiolino desfia essa resistência há mais de seis décadas. Nunca deixou de inventar e de reinventar-se, sem esperar pelo sucesso. Traz a Lisboa a sua “Terra Poética”, que celebra o barro como matéria primordial. Em 2024, Veneza distinguiu-a com o Leão de Ouro. Dedicou o prémio à arte brasileira, à qual diz pertencer.
© Lorenzo Palmieri
21 Março 2026, 11h07

A geografia habita-nos? Molda-nos? O verbo é tudo menos inocente. “Nasci à beira do Mediterrâneo, na Calábria, em tempos de guerra. Em maio completo 84 anos, mas carrego em mim a vivência de três séculos. Sou filha de uma mãe que hoje teria 126 anos e de um pai que chegaria aos 131. Por isso afirmo que, embora artista contemporânea, trago incorporadas a memória, a cultura e o espírito dos que vieram antes de mim.”

O exílio corre no sangue de Anna Maria Maiolino. Aos 12 anos, a família partiu de Itália rumo à Venezuela, para fugir da fome e da guerra. Nova partida. Caracas fica para trás e a família muda-se para o Rio de Janeiro. Tinha 18 anos. Desde que se conhece que Anna Maria queria ser artista. Mas começou por praticar a escuta. “Sou a última de dez filhos. Minha primeira escola foi a mesa de jantar, onde treze pessoas se reuniam diariamente. A mesa foi minha escola e minha universidade. Ali aprendi sobre a vida, a arte e o mundo: o saber transmitido pela fala dos adultos, a convivência, a escuta. Foi naquela mesa que compreendi e incorporei na alma o TODO e as PARTES”. Assim, em maiúsculas. Porquê? “O todo era a panela com o alimento preparado por minha mãe; as partes eram para nós, seus filhos.” O alimento enquanto metáfora, a ideia de partilha, estão imbuídos na sua arte. Até hoje. Ela que sempre soube que seria artista quando ainda não metia as mãos na terra.

A comoção do barro

Conversámos por escrito, à velocidade do éter a que chamamos email. A artista brasileira ultimava as suas novas instalações de “Terra Modelada” e as obras “Do Barro à Escultura”, realizadas in situ no espaço do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, que poderão ser vistas a partir de 25 de março. “Terra Poética”, assim se intitula a exposição. E regressamos à metáfora. “A metáfora do alimento, do todo e das partes, serve como analogia para os meus trabalhos em barro, que serão apresentados no MAAT. Neles, move-me um sentimento próximo da nostalgia, algo que vivi e que desejo reencontrar.” O que a moveu foi a busca “em direção à totalidade.” E o que procura a artista no barro, essa matéria moldável e orgânica? O infinito. “Permanecer em um trabalho em aberto e voltar a ele seria, talvez, uma tentativa de escapar à fragmentação inquietante da modernidade e da pós-modernidade”. E prossegue. “Podemos estabelecer uma analogia entre esses trabalhos, os ritos primitivos de nossos ancestrais e as brincadeiras infantis que, à primeira vista, parecem desprovidas de sentido. No entanto, em sua base, em seus significantes, esses trabalhos são compostos de signos. Neles, a relação entre as partes que compõem a obra prevalece por meio das ações do fazer.”

A ditadura militar acabará por ditar uma nova partida. Uma bolsa de estudos levou-a até aos Estados Unidos. Em Nova Iorque, cidade que fez sua entre 1968 e 1971, estudou no Pratt Graphic Center e começou a explorar outros suportes, como fotografia e filmes. “Minha obra é composta pelos reflexos do meu viver, e alguns trabalhos são produtos da minha memória. Vivi e conheci vários países, fui alimentada pelas culturas desses lugares. Minha vida, feita de mudanças, fez nascer em mim um sentimento de andarilha: sempre pronta para os câmbios e para as novas experiências.”

A sua abertura à possibilidade, que conjuga sempre no plural, tem servido de base para realizar diversas séries de trabalhos ao longo de 67 anos de produção. Para Anna Maria Maiolino, trocar uma técnica por outra significa “ampliar as possibilidades do discurso da obra.” Descobriu o barro em 1989, quando começou a criar objetos escultóricos com molde. “O encontro com a argila provocou em mim uma comoção. Ao colocar as mãos na massa húmida da terra, o barro, a matéria primordial, imediatamente toda uma cosmovisão se fez presente.”

Não espanta que, ao longo do seu percurso exploratório, tenha incorporado meios diversos na sua prática artística — desenho, escultura, gravura, vídeo, instalação, performance e poesia –, numa busca constante por novas formas de expressão. O corpo, a linguagem, o desejo e a subjetividade são tratados como territórios de experimentação, onde o pessoal se funde com o político e o íntimo se abre ao coletivo. “Minha vontade de experiências com movimentos empíricos me faz produzir estas séries de trabalhos, baseados na observação da vida cotidiana – como o preparo do alimento –, fora de qualquer comprovação científica e que permanecem como comprovação de realidade dessas experiências.”

O exercício da liberdade

Rotular Anna Maria Maiolino é querer espartilhar a sua criação artística. Sim, fez parte da nova vaga brasileira onde efervesciam artistas como Lygia Pape e Lygia Clark, e esse nome maior da Arte Concreta brasileira que é Hélio Oiticica, seu amigo e um tónico que sempre a estimulou. Mas escolheu deixar-se guiar pela dualidade. Amor e ódio, vida e morte, alegria e tragédia… Anna Maria nunca ignorou a fragilidade e o pulsar da vida. Sempre influenciaram a sua obra. As suas instalações de barro, diz ao JE, “são perecíveis e frágeis, falam tanto da vida como da morte. São criações mas voltarão à terra, ao pó.”

A arte é a prática da liberdade e do questionamento. A artista concorda. E o que importa questionar hoje, queremos saber. “Questionamento é caracterizado pela formulação de perguntas. Sempre será importante perguntar e se perguntar, especialmente neste momento em que vivemos em um contexto novo, cada vez mais complicado de entender, além da grande violência que nos cerca com guerras declaradas. Vivemos mudanças profundas na vida cotidiana e na política, com a presença crescente da extrema-direita em vários países.”

E as artes? “Também as artes estão se transformando, influenciadas pelo mercado, pelo sistema de galerias e pelas feiras de arte. Apesar disso, ainda acredito que a obra de arte conserva o paradigma da liberdade. O artista, assim como qualquer ser humano, não possui, individualmente, a capacidade de alterar as situações adversas que a humanidade enfrenta, mas considero que resistir é um dever político de cada um de nós. Os artistas sempre poderão fazer uso do ‘exercício da liberdade’, como lembrava o crítico brasileiro Mário Pedrosa, para resistir e contestar.”

Não podíamos deixar de perguntar pelo Leão de Ouro com que a Bienal de Arte de Veneza distinguiu, em 2024, o conjunto da sua obra, e que também amplia a visibilidade dos artistas brasileiros, sublinhamos. Confessa que esse reconhecimento lhe trouxe uma sensação de missão cumprida e lhe serve de estímulo para continuar. Mas contrapõe: “Sou uma artista que deve profundamente à arte brasileira. Iniciei meus estudos de arte aos 16 anos, em Caracas, e cheguei ao Rio de Janeiro aos 18. Desde então, me reconheço como uma artista brasileira.” A generosidade importa. “O Brasil possui uma arte pulsante, em constante transformação e que transforma também aqueles que a vivem. No momento em que recebi o Leão de Ouro, dediquei o prémio à arte brasileira: a arte à qual pertenço e que me ofereceu suportes fundamentais ao longo de toda a minha trajetória.”


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