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A Cerdeira é uma aldeia feita de xisto, ambição e muita criatividade

A aldeia da Cerdeira, no concelho da Lousã, é um caso de sucesso de revitalização através da cultura e das artes. Aberta ao mundo, atrai visitantes e artistas de várias geografias, que ali criam um mundo melhor. O conceito vai expandir-se pela mão do reputado arquiteto japonês Kengo Kuma, mas, antes disso, é tempo de celebrar a criatividade e a inovação em volta de um forno muito especial.
29 Agosto 2025, 16h10

 

Os incêndios que afetaram a cordilheira central do país – Lousã, Açor, Estrela e Gardunha – ainda estão na memória de muitos de nós. Não deram tréguas neste agosto escaldante, num contraste absoluto com a tranquilidade que se tem feito sentir na aldeia de xisto da Cerdeira, que se desenvolve quase na vertical de uma encosta, no coração do concelho da Lousã.

É aqui o epicentro do projeto Cerdeira – Home for Creativity, que no fim de semana de 30 e 31 de agosto, celebra um número redondo: foi há 10 anos que o seu icónico forno japonês Sasukenei, criado pelo mestre ceramista japonês Sensei Masakazu Kusakabe, foi ali instalado. E celebra também o facto de se manter intocada pelo fogo. Pormenor nada despiciendo, mas sem laivos de egoísmo. Citando a equipa do projeto, “celebrar é também um ato de união — uma forma de dizer que continuaremos a trabalhar juntos para devolver à Serra da Lousã a sua força e beleza.”

Partindo do forno – o primeiro e único do género na Península Ibérica –, cuja “tecnologia inovadora tornou a cerâmica de lenha mais segura e sustentável”, para chegar ao papel que este tem tido na proteção do ecossistema florestal. Missão que o projeto Cerdeira – Home for Creativity leva muito a sério e que encara como “um marco de resistência, esperança e compromisso com a reconstrução e a vitalidade de toda uma comunidade.”

Esta aldeia com mais de três séculos de história, escrita por quem aqui viveu, feita de silêncio quando os seus habitantes a foram abandonando em busca de uma vida menos dura, e que renasceu após a sua recuperação através de técnicas tradicionais e sustentáveis, passou a acolher residências artísticas, visitantes e interessados em participar neste movimento que se quer sustentável e em equilíbrio com o território.

Vamos então às celebrações deste 10.º aniversário, que terão como ponto alto uma cozedura comemorativa comunitária, que contará com a presença de artistas nacionais e internacionais envolvidos na construção do forno ou que colaboraram com a Cerdeira ao longo dos anos. Xana Monteiro e Carlos Lima, Vasco Baltazar, Kerstin Thomas, Renato Costa e Silva, Ana Gomes, Sandra Casaca, Matthew Blakely, Sean Silva e Iliana Menaia, são alguns dos nomes confirmados.

A iniciativa teve início a 27 e culminará com a abertura do forno no dia 31 de agosto, num momento aberto a toda a comunidade e visitantes, que prevê também uma visita guiada à exposição de cerâmica “10 anos do Sasukenei”, assim como uma palestra sobre árvores Bonsai seguida de visita guiada à exposição da coleção privada Bonsaiteca. Será ainda servido um bolo de aniversário com chás especiais promovido pela Chá Camélia.

Um projeto com os olhos no futuro

Refira-se ainda que esta celebração coincide com “um novo e ambicioso capítulo para a Cerdeira: a expansão do projeto, que pretende afirmar-se como um hub criativo de referência mundial”, realça a organização em comunicado. A expansão será feita em parceria com o reputado arquiteto japonês Kengo Kuma – “reconhecido globalmente pela sua abordagem sensível ao contexto cultural” e que é mais conhecido dos portugueses pelo projeto que desenvolveu no Centro de Arte Moderna (CAM) da Gulbenkian. E como se vai materializar? Através da revitalização de três aldeias abandonadas na Serra da Lousã.

“A Cerdeira provou como uma pequena aldeia pode transformar-se num farol de criatividade e sustentabilidade,” refere Catarina Serra, Diretora Geral do projeto. “Ao celebrarmos os 10 anos do nosso forno – símbolo de intercâmbio cultural e inovação – faz todo o sentido olhar em frente e reforçar a nossa ambição.”

A Cerdeira – Home for Creativity atrai visitantes de todo o mundo. Artistas, designers e amantes da natureza reúnem-se aqui para aprender e partilhar experiências trabalhando a cerâmica, a madeira, a cestaria e outras artes tradicionais. Ou apenas para desligar do frenesi do quotidiano – as casas de xisto foram recuperadas a pensar no conforto de quem lhes dá alma enquanto “vizinho de passagem”. E a “passagem” pode ser por vários dias para carregar energias.

A apenas 37 Km de Coimbra, num território que convida à conexão com a natureza, o objetivo é “reforçar a reputação da Cerdeira como um verdadeiro refúgio criativo, oferecendo uma alternativa com propósito, autenticidade e um ritmo de vida mais humano”, frisa o comunicado.

Pode render-se ao dolce far niente, à observação de veados, BTT, canoagem ou caminhadas aquáticas, para dar apenas alguns exemplos de atividades ao ar livre. Ou explorar a sua veia artística na Cerdeira Arts & Crafts School, que promove desde workshops e cursos de 1 a 10 dias até experiências criativas de 2,5 horas, inspirados em técnicas tradicionais, mas sem necessidade de experiência prévia. Mais. A estadia em residências artísticas está aberta a artistas de todos os campos académicos de todas as profissões. Pode consultar aqui toda a informação que precisa para desenhar a sua residência artística. E aqui para explorar os roteiros que a Cerdeira – Home for Criativity desenhou de raiz.


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