Dizia-me um amigo que viveu os tempos e que assumiu responsabilidades governativas no pós-revolução que durante muitos anos só duas personalidades em Portugal tinham contactos e credibilidade no exterior para serem ouvidos com atenção: Mário Soares e Francisco Pinto Balsemão.

Tinham dimensão. Eram estadistas, tinham visão e procuravam ver sempre o que aí vinha, as oportunidades e as ameaças. Eram também obstinados em defender aquilo em que acreditavam e fizeram-no até ao fim, sem desistir, nem quando os tempos se mostravam adversos.

Pinto Balsemão será mais recordado pelo papel que teve nos media, na promoção da comunicação social e na construção de um grupo relevante, mas devemos-lhe muito mais do que isso: uma influência determinante social e política.

Foi ele que negociou a mais importante revisão constitucional depois da revolução, com Mário Soares, pondo fim à tutela militar, reforçou as instituições democráticas e fez aprovar o primeiro Código Penal em democracia.

Concretizou as negociações que levariam Portugal à Comunidade Económica Europeia, já por Soares. Foi um paladino da liberdade de imprensa e do direito a informar e a ser informado. Também lhe devemos boa parte do enquadramento em que o setor dos media desenvolve atividade.

Foi sempre ativo. Com erros, também, claro, que só erra quem faz, e com as suas particularidades, que todos temos e isso torna-nos humanos. Nunca saiu de cena, nunca abdicou de ter um papel na sociedade, incluindo na política. E a falta que isso faz, termos senadores com experiência, mundo e visão. Não sei se o mundo, mas o país seria diferente, talvez um pouco pior do que teria sido sem ele.