Uma equipa da Universidade de Coimbra desenvolveu uma tecnologia capaz de limpar a água suja da tinturaria têxtil e reutilizar o corante. Já testada em ambiente industrial vai avançar para protótipo em 2027 com a ATB. No futuro, pode gerar poupanças de meio milhão de euros às PME do setor.
Os frascos de vidro enchidos com água suja do tingimento de malhas chegaram à hora combinada ao laboratório do departamento de engenharia química da Universidade de Coimbra. O sol batia as nove horas. Os investigadores com as suas luvas azuis pegaram-lhes como se estes contivessem uma bebida sagrada. Cada gota daquele líquido vale “ouro”. Pela primeira vez, as amostras para testar a promissora tecnologia portuguesa Dyeloop saíam diretamente de uma fábrica. Da ATB, Acabamentos Têxteis de Barcelos. Não são um produto de imitação feito em tubos de ensaio. São reais. A empresa têxtil levara até à universidade água proveniente do seu processo de produção para testar uma nova tecnologia com potencial para revolucionar a indústria da moda. A alquimia estava prestes a acontecer.

Desde 2023 que a ideia portuguesa de que é possível limpar a água colorida pelo tingimento da produção têxtil e ainda reaproveitar o corante, anda a fervilhar pela academia. Jorge Pereira, professor associado do Departamento de engenharia química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e investigador do CERES, é o coordenador do projeto, e explica que este tem estado a ser desenvolvido apenas em laboratório e que com a parceria firmada com a ATB finalmente foi testado com a indústria.
A expectativa pairava no ar. Chegara o dia da primeira prova dos nove. Teriam de limpar a água poluída pelo tingimento vindo de uma fábrica verdadeira e ainda recuperar os corantes para que estes pudessem ser novamente reutilizados num novo processo de coloração de malhas, algodão ou lã.
A Dyeloop, que ainda não existe fora do laboratório, não desiludiu. “O teste funcionou. A solução é viável”, explica orgulhoso Luís Cristino, especialista em sustentabilidade e economia circular no setor têxtil. Assistir ao vivo ao “milagre” da água escura a ser purificada e os corantes concentrados a serem recuperados é um momento que merece ser assinalado. Para o comum leigo, a palavra que vem à mente numa ocasião como esta é “eureka”, apesar de ninguém a ter pronunciado.
Na opinião de Luís Cristino, esta descoberta pode catapultar o setor têxtil nacional para as bocas do mundo. Afinal esta abordagem circular prevê uma redução superior a 50% nos custos associados ao tingimento têxtil, além dos benefícios ambientais.
Jorge Pereira explica que, em média, uma PME pode gastar entre 60 e 80 cêntimos por metro cúbico no tratamento da água. “Uma empresa média gasta entre 20 e 30 mil euros por mês em tratamentos. Feitas as contas, isso representa cerca de 200 a 300 mil euros por ano. Sem falar nos custos do tingimento, em que o sal pode chegar às 100 toneladas por mês, representando cerca de 15 a 20 mil euros. Depois, há ainda que comprar o corante e outros produtos”, afirma, acrescentando que esta nova tecnologia pode proporcionar poupanças na ordem do meio milhão de euros.
A ideia nasceu num projeto conjunto com parceiros na Índia, mas não avançou como previsto. Porém, a equipa portuguesa, resiliente, prosseguiu. A tecnologia foi aperfeiçoada, galardoada em concursos de empreendedorismo e registada como patente em 2024. No entanto, uma inovação destas só ganha verdadeiro significado quando sai do ambiente académico. Foi aqui que Luís Cristino fez a diferença. Com mais de duas décadas de experiência na área da tinturaria foi ele quem sentou à mesma mesa investigadores e empresas, possibilitando que a Dyeloop fosse testada com efluentes reais. Desta aproximação nasceu a parceria da Universidade de Coimbra com a ATB e foi com um aperto de mão e a assinatura de um protocolo, a 25 de fevereiro deste ano, que a tecnologia deixou finalmente de ser apenas teoria, passando à fase de acordo para a instalação e teste de protótipo industrial. Ao abrigo deste acordo, a ATB será a primeira empresa a acolher o protótipo e a realizar os ensaios iniciais de avaliação da tecnologia em ambiente industrial.
O protótipo só será construído em 2027, graças ao financiamento de 1,4 milhões de euros da Fundação Calouste Gulbenkian. “Este apoio financeiro foi fundamental para que este projeto pudesse sair do laboratório”, afirma Jorge Pereira, permitindo desde o início de 2025 a otimização da tecnologia, o seu dimensionamento, o desenvolvimento e a construção do protótipo à escala industrial, bem como a contratação de mais investigadores. O projeto conta ainda com o apoio da INOVC+ — Ecossistema de Inovação da Região Centro — nomeadamente no que se refere à dinamização e valorização do potencial inovador e comercial da tecnologia.
Esta inovação surge num contexto preocupante. Estima-se que cerca de 280 mil toneladas de corantes têxteis são libertados todos os anos para efluentes industriais e massas de água em todo o mundo, tornando o setor da moda um dos principais responsáveis pela poluição hídrica. Ainda assim, os investigadores acreditam que a solução não passa apenas por tratar a água, mas por evitar o desperdício de resíduos desde o início, transformando o que antes era um problema ambiental num recurso reutilizável.
“A cor retirada da água é apenas preta, mas 75% da tinta consumida a nível mundial é desta cor”, diz Luís Cristino, explicando ainda que a infraestrutura será instalada junto a um sistema de tratamento de águas residuais. “Olhamos para a água como uma matéria-prima que pode ser reciclada em processos fechados, aumentando o seu valor económico e ambiental”, avança Jorge Pereira. O cientista defende a importância de desenvolver tecnologia portuguesa que possa ser testada na indústria e que contribua para a inovação no tecido empresarial português. “Acreditamos que o futuro da indústria têxtil é circular.”
Instalação e teste protótipo industrial
A tecnologia está patenteada e a próxima fase consiste em transferi-la para o ambiente industrial. O acordo de colaboração foi assinado no dia 25 de fevereiro de 2026 entre a Universidade de Coimbra e a ATB, Acabamentos têxteis de Barcelos, com a finalidade de instalar o primeiro protótipo industrial da tecnologia Dyeloop na sua fábrica, em 2027.
Esta será a primeira empresa a realizar os ensaios iniciais de avaliação da adequalibilidade desta tecnologia ao contexto industrial. Para validar o processo industrial precisam apenas de 500 litros de água. De destacar que esta é uma solução inovadora e única no mundo com potencial para transformar o paradigma da indústria têxtil