Não há nada como as horas críticas de um desastre natural para avaliar a dualidade do ser humano. Com a passagem da tempestade Kristin, que deixou a região centro devastada, sem comunicações e luz, casas e locais de trabalho destruídos, assistimos ao melhor.
Uma esmagadora onda de solidariedade que disponibilizou materiais e bens essenciais de todos os cantos do país. Pessoas que acorreram nos dias seguintes à tempestade para ajudar a limpar e reconstruir vidas destruídas e dar conforto a pessoas desamparadas.
Mas também vimos o pior: houve roubos nos momentos de maior vulnerabilidade, houve ministros sem noção e que não souberam estar à altura do momento, deixando as populações entregues a si próprias, houve negacionistas de alterações climáticas que ainda recusam aceitar como estes eventos climáticos são cada vez mais frequentes e intensos.
Pasme-se, até temos um partido na Assembleia da República, que, no atual contexto climático desafiante que o país atravessa, tentou revogar parte da legislação da Lei de Bases do Clima. Diz a IL que pretendia expurgar a lei da “sua carga ideológica”.
Normalmente, os partidos que mais acusam os outros de ideologia recusam-se a reconhecer a própria. A acusação raramente vem acompanhada de seriedade. Funciona acima de tudo como uma armadilha retórica em que é mais fácil rotular tudo de “ideologia”.
A Lei de Bases do Clima foi aprovada em 2021, com o propósito de estabelecer objetivos e medidas para mitigar o impacto das emergências climáticas e preparar o país para os riscos associados a uma maior frequência e intensidade de fenómenos meteorológicos extremos.
Quatro anos depois, os passos têm sido tímidos e não tem havido vontade política de concretizar a lei, enquanto os negacionistas continuam a viver numa bolha alucinada e a recusar a realidade no terreno. A realidade de populações isoladas devido a cheias e inundações, de rios a galgar margens, estradas cortadas, destruição em larga escala, caos em todo o território devido a falta de prevenção.
São pessoas para quem a desumanização passa por lucidez e a justiça é um exagero, para quem o sistema já está suficientemente bem, ou até bem demais. O sofrimento e a perda são estatísticos, a dor é abstrata e lutar por dignidade é equiparado a militância fervorosa. Infelizmente, estes são os tempos em que vivemos: o pior e o melhor lado a lado, mas lutemos para que o melhor fale mais alto.



