A política está-lhe no sangue. Quem é Ursula von der Leyen, a nova presidente da Comissão?

Economista e também, estranhamente, licenciada em Medicina, a até agora ministra da Defesa da Alemanha parece ter pouca disposição para deixar de pensar pela sua própria cabeça.

Os 28 países da União Europeia concordaram em que a atual ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, seja a presidente da Comissão Europeia. Considerada muito próxima da chanceler Angela Merkel, era vista como um dos nomes possíveis para lhe suceder no cargo de presidente da CDU – e, por inerência, ascendia à condição de candidata a chanceler na próxima legislatura.

Economista como formação de base, Ursula von der Leyen é tida como uma das políticas de linha dura da CDU – da fação mais conservadora, o que lhe tem grangeado sobejas ‘pegas’ com o SPD, que pode ter ficado bem pouco feliz com esta ascenção à qualidade de presidente da Comissão Europeia.

A política está-lhe no sangue – ou, pelo menos, no ambiente familiar: Ursula von der Leyen é filha de Ernst Albrecht, antigo primeiro-ministro do estado da Baixa Saxónia (1976 a 1990), mas foi mesmo a economia que a motivou. Completou estudos em 1978 na prestigiada London School of Economics – considerada por muitos ‘a’ escola de economia da Europa, e de onde saíram muitos políticos de diversas nacionalidades.

Caso raro, acabou por também se licenciar em Medicina, mas pouco depois aceitaria viajar até à Universidade de Stanford, Califórnia, onde, entre 1992 e 1996, deu aulas na Stanford Graduate School of Business.

De regresso à Alemanha, debutou na política em março de 2003,ao ser eleita membro do parlamento estadual de Baixa Saxónia, tendo chegado a fazer parte do executivo local nas áreas dos assuntos sociais e da saúde.

Ali assumiria destaque suficiente para subir no interior do partido e, logo em dezembro de 2004, tornou-se membro do Conselho Federal da CDU, o órgão de cúpula do partido. O caminho estava traçado: mais tarde ou mais cedo chegaria a ministra, ninguém tinha dúvida.

Isso mesmo aconteceu em Novembro de 2005: Ursula von der Leyen foi empossado como ministra da Família, Idosos, Mulheres e Juventude pela chanceler Angela Merkel, logo no seu primeiro gabinete. Após as eleições federais de 2009, manteve-se como ministra da Família (no segundo gabinete de Angela Merkel), mas por pouco tempo: acabaria por substituir Franz Josef Jung, em de novembro de 2009, no Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social onde esteve até ao final da legislatura, em 2013.

Quer isto dizer que passou naquele Ministério parte substancial da crise que assolou a Europa a partir de 2009 – e que fez destacar, para muitos pelas piores razões, um seu ‘colega’, Wolfgang Schäuble, o ‘pai’ da austeridade que dizimou as dívidas soberanas dos países do sul da Europa. Ao longo desses anos de fogo, Ursula von der Leyen assumiu uma postura definitivamente pró-europeísta, tendo mesmo chegado a afirmar que o agregado da União deveria evoluir para se transformar nos Estados Unidos da Europa.

Se os partidos do Parlamento Europeu mais à direita se lembrarem disto, por certo terão muitos motivos para, a partir de agora, se fazerem uma verdadeira barragem política, que não será politicamente fácil para a nova presidente da Comissão.

Depois das eleições federais em 22 de Setembro de 2013, Ursula von der Leyen foi escolhida pela chanceler Angela Merkel como a primeira mulher na história da Alemanha para chefiar o Ministério da Defesa e por inerência as Forcas Armadas alemãs. Os mais conservadores, como seria de esperar, não ficaram propriamente felizes com a nomeação. Manteve o cargo depois das eleições do ano passado, não havendo melhor evidência de que manteve em pleno a confiança política de Merkel.

Uma das decisões mais contestadas de Ursula von der Leyen foi tomada em 2015, na Conferência de Segurança de Munique, onde disse que não aceitava transferir armamento alemão para a Ucrânia, que na altura já estava envolvida em crescentes confrontos bélicos com a Rússia. Na altura, a então ministra de Defesa disse que a Rússia não era comparável com o Daesh e que o lugar da Alemanha nessa matéria seria à mesa das negociações e não no campo de batalha.

A decisão não terá agradado de todo aos parceiros da NATO – área onde aparentemente Ursula von der Leyen nunca foi uma ‘alinhada’: esforçou-se sempre por manter aberta a porta do diálogo com o governo turco de Recep Erdogan, mesmo numa altura em que, apesar de membro, a NATO pareceu ter baixado o seu nível de confiança na Turquia.

Aparenta ser, por isso, uma personalidade bastante livre e que gosta de imprimir o seu cunho pessoal nos lugares por onde passa. Se assim se revelar à frente da Comissão Europeia, pode vir a ganhar guerras sem fim com vários Estados-membros – mas também pode, pela ‘teimosia’ manter aquilo em que acredita.

Ler mais
Relacionadas

Ursula Von der Leyen sucede a Juncker como Presidente da Comissão Europeia

Ministra da Defesa alemã escolhida para a Comissão Europeia. Christine Lagarde foi eleita para a presidência do Banco Central Europeu.

“Sinto-me honrada”. Lagarde vai ser a primeira mulher a liderar o BCE

O nome da diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI) foi o mais consensual entre os 28 chefes de Estado e de governo europeus na cimeira extraordinária que decorre em Bruxelas.
Recomendadas

Rede social Snapchat vai deixar de promover mensagens de Donald Trump

A empresa da rede social Snapchat, popular entre os jovens, acusou o Presidente dos EUA de incitar à “violência racial”, anunciando que deixará de promover as mensagens da conta de Donald Trump.

Boris Johnson deixa recado a Trump: “Racismo não tem lugar nas nossas sociedades”

O racismo “não tem lugar nas nossas sociedades”, afirmou esta quarta-feira o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, numa “mensagem” dirigida ao Presidente norte-americano, Donald Trump, na sequência da morte do afro-americano George Floyd, que desencadeou uma onda de indignação global.

António Guterres: “É imperativo que o mundo seja reconstruído e redesenhado”

O secretário geral da ONU defendeu, na apresentação do próximo Fórum Económico Mundial, o reequilíbrio do investimento em ciência e tecnologia.
Comentários