A violência verbal de Trump, as cartas-bomba e o ataque à sinagoga. Relação causa/efeito?

Recrudescimento da violência politicamente motivada intensificou o debate em torno da retórica do presidente dos EUA. “A linguagem polarizadora, xenófoba, racista e anti-semita de Trump aciona pessoas loucas”, salienta Hélène Landemore, professora de Ciência Política na Universidade de Yale.

Entre os dias 22 e 29 de outubro foram intercetadas 13 cartas-bomba nos Estados Unidos da América (EUA), remetidas para adversários políticos ou críticos assumidos do presidente Donald Trump, nomeadamente o investidor George Soros, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, o ex-presidente Barack Obama, o ex-procurador-geral Eric Holder, o ex-vice-presidente Joe Biden, o ator Robert De Niro ou a sede da estação televisiva CNN. As autoridades federais prenderam entretanto o alegado autor dos atentados, Cesar Sayoc Jr., apoiante de Trump.

Sayoc Jr. foi filmado em comícios do presidente e terá montado os engenhos explosivos no interior de uma carrinha repleta de propaganda pró-Trump, informação sobre os referidos alvos, teorias da conspiração, etc. Publicara uma série de mensagens violentas nas redes sociais, incitando o ódio contra os liberais, imigrantes e outros “inimigos”.

No dia 27 de outubro, um homem armado com uma espingarda semi-automática atacou uma sinagoga em Pittsburgh, Pensilvânia, EUA, provocando 11 vítimas mortais (entre as quais Rose Malinger, aos 97 anos de idade, sobrevivente do Holocausto nazista) e seis feridos. Detido pelas autoridades, o alegado autor do ataque, Robert Bowers, publicara uma série de mensagens anti-semitas (e outras formas de discurso de ódio, da xenofobia ao racismo) nas redes sociais. Bowers é descrito pela imprensa norte-americana como um nacionalista de extrema-direita, anti-semita e anti-imigração.

Estes dois acontecimentos intensificaram o debate em torno da violência mais ou menos explícita no discurso político de Trump. Vários comentadores e membros do Partido Democrata alertaram para o “ambiente político tóxico” gerado pela retórica do presidente dos EUA. No que respeita ao caso das cartas-bomba, há mesmo quem sugira uma relação direta causa/efeito, na medida em que Sayoc Jr. tentou atingir adversários políticos de Trump.

 

“A linguagem de um presidente faz a diferença”

Na perspetiva de Hélène Landemore, professora de Ciência Política na Universidade de Yale, Connecticut, EUA, “é difícil demonstrar essa relação causal com absoluta certeza. Provavelmente trata-se de uma entre muitas razões numa complexa cadeia causal que inclui doenças mentais e uma série de fatores socio-económicos”. Em declarações ao Jornal Económico (Prisma), Landemore considera, por outro lado, que “não há dúvida de que o discurso político violento de Donald Trump, com referências explícitas (‘eu poderia disparar sobre alguém na 5ª Avenida’, ‘prendam-na’, ‘atirem-nos ao chão’, etc.), desempenhou um papel crucial. Há pessoas loucas em todas as sociedades, mas apenas são acionadas em determinados contextos, quando se sentem validadas e autorizadas. A linguagem polarizadora, xenófoba, racista e anti-semita de Trump aciona pessoas loucas”.

Em relação ao ataque à sinagoga de Pittsburgh, Landemore pensa que “o fenómeno é o mesmo. Quando denuncia os ‘globalistas’ e declara ser um ‘nacionalista’ como Trump fez recentemente, sem qualquer perceção aparente sobre as conotações históricas dessas palavras, está implícita e ativamente a compactuar com atos anti-semitas. No dia seguinte ao massacre na sinagoga, Trump referiu que uma melhor razão para cancelar um comício político em Indianapolis – no qual acabou por comparecer, apesar de tudo – seria ter um ‘dia de mau cabelo’. O que é que ele está a sinalizar quando diz que o seu cabelo tem mais importância do que as vidas de judeus? Mais uma vez, Trump pode não ser a causa imediata desde atroz assassinato em massa, mas a sua linguagem e atitude geral são as causas indiretas”.

Landemore sugere que “outra forma de pensar nisto é imaginar um mundo ligeiramente diferente, contrafactual, no qual Trump seria apenas incompetente e mentalmente perturbado, mas não utilizava linguagem violenta. Nesse mundo contrafactual, acho que estes terroristas brancos não teriam sido ativados da maneira como foram. A linguagem de um presidente faz a diferença, altera o equilíbrio”.

 

“O discurso de ódio é basicamente protegido pela Constituição”

Concorda que algumas mensagens do presidente Trump não estão muito distantes do discurso de ódio, ou incitamento à violência, ou pelo menos uma perigosa hostilidade dirigida a vários adversários políticos que trata como “inimigos”? “Sim, concordo”, responde Landemore. “Alguns colegas meus argumentam que Trump utiliza diretamente o manual do fascismo, pelo que não está apenas a aproximar-se do discurso de ódio, ele está mesmo a utilizar discurso de ódio e a incitar as pessoas à violência”.

“Ao nível da retórica, pelo menos, acredito que este é o diagnóstico correto. Ainda não estamos no patamar de Jair Bolsonaro, um verdadeiro fascista, mas Trump poderá estar a testar os limites do povo americano e a robustez das instituições democráticas. Até que ponto é que ele pode distorcer e corromper as normas democráticas sem consequências? Ele atacou mulheres, negros, judeus, pessoas transgénero, imigrantes, estrangeiros… Separou crianças imigrantes dos seus pais e colocou-as em prisões. Como é que isso não é uma maneira de normalizar a inutilidade de pessoas que não são puros americanos brancos?”

O incitamento ao ódio e à violência não deveria ser banido do discurso político? “Isso seria óptimo, mas não se pode legislar facilmente no sentido de resolver o problema, especialmente num país como os EUA que é extremamente liberal nessa matéria, onde o discurso de ódio é basicamente protegido pela Constituição”, salienta Landemore.

“Em geral, a definição exata do discurso de ódio e respetiva abrangência são uma controvérsia infindável. É por isso que plataformas de ‘media’ como o Facebook e o Twitter têm tantas dificuldades em controlar o que está a ser dito nas suas páginas. Outro problema é que se se começa a censurar a linguagem das pessoas, isso pode ter efeitos nocivos. Por exemplo, diminuir a já frágil confiança nas instituições sociais e políticas, como os meios de comunicação social, e alimentar um crescente ressentimento. O mais urgente é conter as causas mais profundas de toda esta violência política. Acho que há razões socio-económicas por trás do ódio que, se forem abordadas, poderiam acabar por recuperar alguma civilidade e confiança. Mas é um esforço de longo prazo e, neste momento, não vejo nada a refrear a tendência”, conclui.

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