Acionista da Groundforce diz que “resposta de Pedro Nuno Santos foi insultuosa” e que ministro quer “nacionalizar” a empresa

Alfredo Casimiro criticou duramente a resposta dada pelo ministro das Infraestruturas à sua proposta para desbloquear a situação financeira na Groundforce. Os salários de 2.400 trabalhadores da empresa relativos a fevereiro continuam por pagar. Pedro Nuno Santos quer “nacionalizar a Groundforce e entregá-la daqui a uns tempos a outro privado”, acusa o empresário.

Rafael Marchante/Reuters

O acionista maioritário da Groundforce fez duras críticas à resposta dada pelo ministro das Infraestruturas à sua proposta para tentar desbloquear a situação financeira para a empresa de gestão de bagagem.

“A resposta que recebi do senhor ministro das Infraestruturas e da Habituação, Pedro Nuno Santos, à proposta que fiz para viabilizar a Groundforce é insultuosa, uma chantagem e um ultimato inaceitável”, disse hoje Alfredo Casimiro em comunicado.

A Groundforce é detida em 50,1% pela Pasogal, de Alfredo Casimiro, com o grupo TAP a deter 49,9%, com a companhia aérea a ser detida em 72% pelo Estado português.

O presidente do conselho de administração da Groundforce afirmou esta quinta-feira: “O senhor ministro ignorou a minha proposta, e voltou a apresentar a sua primeira proposta, mas agora ainda mais agressiva. Responsabilizo, por isso, o senhor ministro das Infraestruturas e da Habitação por não conseguirmos desbloquear esta situação e pagar rapidamente, como eu queria, os salários dos 2.400 trabalhadores. O senhor ministro sabe que a proposta que fez não pode ser aceite numa negociação de boa-fé”.

“Para ser claro: o senhor ministro propõe que eu possa perder as minhas ações na Groundforce se o Estado se atrasar na concessão do aval. Isto é inadmissível: quem tem a caneta é ele e quem decide senta-se com ele no Conselho de Ministros. Não sou eu, porque se fosse não estávamos à espera há sete meses”, acrescenta.

Alfredo Casimiro enviou uma carta ao ministério das Infraestruturas na quarta-feira com uma proposta: aceita dar como garantia as suas ações (50,1% da Groundforce) em troca de um empréstimo, mas só se puder pagar este valor quando receber outro empréstimo de 30 milhões de euros que está a ser negociado com um sindicato bancário.

“Ofereci toda a minha posição acionista na Groundforce, como garantia de que a Groundforce pagará à TAP todos os adiantamentos necessários para podermos pagar os salários dos trabalhadores e as obrigações mínimas para um normal funcionamento da empresa enquanto não recebemos um empréstimo bancário com aval do Estado, já negociado, de 30 milhões de euros das anunciadas linhas de Covid”, afirmou.

Além de acionista minoritário da Groundforce, a TAP é também o maior cliente da empresa (70% da atividade). Ao entregar como garantia as suas ações, num prazo de repagamento apertado, Alfredo Casimiro arrisca-se a perder a sua posição para o seu parceiro na empresa, que é controlado maioritariamente pelo Estado.

Enquanto o impasse não é ultrapassado, a empresa continua numa situação financeira frágil, e os 2.400 trabalhadores ainda não receberam os seus salários de fevereiro. Os trabalhadores têm realizado várias ações de protesto esta semana, e para amanhã está marcada uma manifestação à porta do ministro das Infraestruturas em Lisboa a partir das 11h30.

Inicialmente, o conselho de administração da TAP determinou a data de 15 de março para pagar este empréstimo, mas no valor de dois milhões de euros. Depois, uma segunda proposta foi feita no sentido de adiar o pagamento para 31 de março.

Tal como já tinha dito hoje ao Jornal Económico, Alfredo Casimiro voltou a alertar que o ministro das Infraestruturas quer nacionalizar a empresa de gestão de bagagens nos aeroportos nacionais. “Colocando-me sob chantagem, o senhor ministro sabe que não será a Groundforce a pagar o salário dos trabalhadores da empresa, e que terá de ser o Estado, eventualmente através de uma nacionalização, a pagar esta conta e todas as outras que certamente virão. É o que quer o senhor ministro Pedro Nuno Santos: nacionalizar a Groundforce e entregá-la daqui a uns tempos a outro privado. Estão a aproveitar-se da pandemia para fazer um roubo, tal como os que ocorreram a 11 de Março de 1975”.

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Alfredo Casimiro aceita entregar as suas ações (50,1%) da Groundforce como garantia para obter um empréstimo por parte do seu maior cliente e acionista minoritário, a TAP, para resolver a situação imediata da empresa. Mas já propôs à tutela de Pedro Nuno Santos que possa pagar este empréstimo quando a empresa receber um empréstimo no valor de 30 milhões de euros que está a ser negociado com um sindicato bancário.

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A Pasogal detém 50,1% da Grounforce, com o grupo TAP a deter 49,9%. Para pagar os salários de fevereiro, a TAP propôs um adiantamento de 2,05 milhões de euros para pagar salários e dívidas a fornecedores, mas exigindo em troca uma penhora da participação da Pasogal. Acionista privado rejeita e diz que proposta é “ilegal”, tendo já apresentado uma alternativa de garantia, mas não recebeu ainda resposta da TAP.
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