Agravamento das desigualdades sociais e fraco investimento são principais entraves no rumo à sustentabilidade

O presidente do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e antiga presidente da Liga para a Protecção da Natureza apontaram estes dois factores como elementos essenciais no rumo à descarbonização e sustentabilidade durante o webinar #4OurFuture, organizado pela BasN e do qual o Jornal Económico foi ‘media partner’.

O presidente do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), considera que o combate às alterações climáticas e ao aquecimento global terá que ser feito em colaboração entre os países mais ricos e os mais pobres.

“Temos um mundo que funciona a duas velocidades”, começou por afirmar. “20% vive em países da OCDE, que têm economias mais avançadas, e depois temos tudo o resto”, referiu Filipe Duarte Santos. “Mas há uma coisa em comum: que são os níveis de aquecimento”, frisou o responsável, esta quinta-feira, durante o painel “Desafios e Soluções para um Planeta em Risco” do webinar #4 Our Future que serviu para assinalar o Dia da Terra. O evento digital foi organizado pela ONG Business as Nature (BasN) e a associação de gestão de resíduos (Electrão) e no qual o Jornal Económico foi media partner. 

O especialista explicou que embora entre os países da OCDE, os níveis de emissões não estejam a crescer a um ritmo tão acelerado, tal como se prevê no Acordo de Paris, de 2015, nos países com menores rendimentos os níveis de emissões “estão a crescer a um ritmo onde a temperatura vai para lá dos 4ºC até ao final do século”.

Para que se contrarie esta tendência, as principais economias mundiais devem “ajudar os países que não tenham essas possibilidades em matéria de transição energética”, algo que “não será tarefa fácil”, admitiu Filipe Duarte Santos uma vez que ainda existe uma percepção generalizada de que não é possível apostar na transição energética e neutralidade carbónica e registar um crescimento económico.

“A União Europeia é exemplar nesta matéria”, continuou o dirigente da CNADS. “Entre 1990 e 2019, conseguiu reduzir 24% das emissões e registar um crescimento económico de 60%. Mostrámos ao mundo que é possível conciliar as duas coisas”.

Por cá, embora Filipe Duarte Santos reconheça que há um caminho a percorrer, já muito foi feito “pois somos dos países que tem uma maior percentagem de consumo de energia renovável” e que tem apostado fortemente na energia fotovoltaica, eólica e no hidrogénio verde.

Energias renováveis voltaram a dominar Portugal em 2020. Consumo de eletricidade em mínimos de 2005

Porém, de forma geral, para a antiga presidente da Liga para a Protecção da Natureza e coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, “o investimento tem sido frágil e inconsistente” e “os esforços não têm a expressão que deveriam ter” uma vez que, no fim, “são as áreas protegidas que sofrem essas consequências”.

Helena Freitas considera que, atualmente, existem “enormes pressões” sobre os sistemas naturais, nomeadamente, as áreas costeiras.

“Preocupa-me o que vai acontecer na península de Setúbal e as costas alentejanas e algarvias”, partilhou durante a sua intervenção no debate. “E a pressão sobre as bacias é hidrográficas igualmente grande. Não estamos a cuidar dos rios e das águas”, alertou.

Para a responsável, o Plano de Recuperação e Resiliência, que prevê investimentos na área da mobilidade, sustentabilidade, transição energética, preservação da biodiversidade, protecção e recuperação de áreas florestais e ainda, na economia do mar, é uma oportunidade para “convergir várias narrativas”, dado que este investimento público terá “capacidade para atrair investimentos privados”.

Pobreza poderá dificultar cumprimento das ambições sustentáveis

Certo de que a pandemia levantou um véu sobre as vulnerabilidades existentes na sociedade e agravou as desigualdades sociais e económicas no país e no mundo, Filipe Duarte Santos considera que a componente social é essencial no rumo à sustentabilidade.

“Se não tivermos como um dos objetivos reduzir as desigualdades, que estão a crescer, será muito difícil atingirmos os objetivos comuns da sustentabilidade”, explicou na sua intervenção final, acrescentando que um dos problemas da sustentabilidade, que se prendem à componente ambiental, é que “as pessoas estão mais preocupadas com a sua própria sobrevivência”. E para o dirigente da CNADS, em Portugal esse é o cenário atual e que deve ser tido em conta nas próximas eleições autárquicas.

“Há um aspecto que me preocupa em Portugal: estamos a deslizar em termos da componente económica da sustentabilidade”, continuou, acrescentando que se esse deslize se agravar “para uma situação desfavorável no conjunto dos países europeus”, a sustentabilidade vai deixar de estar no topo das prioridades do país.

“Quanto mais pobreza houver, mais difícil será defendermos os valores ambientais e a sustentabilidade”, argumentou.  “Essa devia ser a tónica e os eleitores devia deviam escrutinar quais são os valores dos candidatos que defendem em teoria e na prática”, concluiu.

 

 

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