A Conferência de Segurança de Munique, uma das mais importantes organizações mundiais sobre geopolítica ocidental, convidou parlamentares do partido de extrema-direita da Alternative für Deutschland (AfD) para participar na reunião anual sobre defesa que decorrerá em fevereiro de 2026, acatando assim um conselho que na reunião anterior tinha sido formulado por JD Vance, vice-presidente dos Estados Unidos.
O partido extremista tinha sido excluído da conferência nos últimos dois anos, facto que não agradou a Vance, que em Itália estabeleceu contactos diretos com o partido alemão, gerando acusações de que estava a influenciar a política interna do país. JD Vance, criticou duramente a exclusão da AfD no encontro deste ano, acusando a Alemanha de sufocar a liberdade de expressão ao marginalizar o partido anti-imigrantes e pró-Kremlin.
Um porta-voz da organização recusou-se a explicar a nova política, dizendo apenas, citado pelo jornal ‘The Guardian’, que o evento, realizado na capital bávara desde 1963, é organizado por uma “fundação privada e independente” e “sem obrigação para com ninguém “. “Foi decidido convidar membros do parlamento de todos os partidos representados no Bundestag”, em particular membros das comissões de relações exteriores e defesa, disse o porta-voz. “O mesmo princípio se aplicava antes de 2024.” Pelo menos dez deputados da AfD estão presentes no Comité de Relações Exteriores e outros nove no Comité de Defesa. Questionado se a crítica de Vance teve papel na decisão, o porta-voz disse: “A organização decide de forma independente sobre convites para os seus eventos.”
Vale a pena recordar que Vance causou escândalo político ao encontrar-se, à margem da conferência, com a co-líder do AfD, Alice Weidel, poucos dias antes das eleições gerais da Alemanha em fevereiro, depois de recusar um encontro com o então chanceler, o social-democrata Olaf Scholz. A intervenção de Vance na conferência causou ainda mais polémica – dado que foi a primeira vez que ficou claro que a administração Trump tem um roteiro para apoiar os partidos de extrema-direita europeus, na tentativa de dizimar décadas de construção federativa. Na altura, a maioria dos dirigentes políticos europeus optou por contemporizar, afirmando que a leitura segundo a qual a Europa deixava de ser uma prioridade para os Estados Unidos era um exagero. Os meses seguintes viriam provar – com as tarifas, com a NATO e finalmente com a Nova Estratégia de Segurança – que, se havia algum exagero, era no sentido contrário: a destruição dos laços entre os Estados Unidos e a Europa por parte da administração Trump é ainda mais profunda que aquilo que a intervenção de Vance permitia observar.
A Conferência de Berlim reúne chefes de Estado e de governo, ministros das Relações Exteriores e da Defesa e altos dirigentes militares de todo o mundo para um fim de semana de discursos públicos e consultas privadas. A anterior política de não convidar a AfD foi adotada pelo então presidente, Christoph Heusgen, conselheiro de longa data da ex-chanceler Angela Merkel. Desde então, o evento escolheu um novo líder, o ex-chefe da NATO Jens Stoltenberg. Mas, enquanto Stoltenberg é ainda ministro das finanças norueguês, Wolfgang Ischinger, ex-embaixador alemão nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha e líder de longa data da organização, assumiu o comando, tendo acabado com a ‘cerca sanitária’ em torno da AfD.
A mudança de posição da Conferência ocorre em meio a um debate acalorado na Alemanha sobre como conter a AfD – que já é principal partido da oposição no parlamento. Em 2026 haverá cinco eleições regionais em toda a Alemanha, e a AfD tem forte vantagem nas sondagens em duas delas.
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