Alemanha: SPD avança com proposta de coligação para Verdes e liberais

Numa altura em que os social-democratas continuam a liderar a contagem dos votos, começa a desenhar-se o futuro dos germânicos. Entretanto, as ondas de choque das eleições mais atípicas de sempre vão-se fazendo sentir em todo o lado.

Olaf Scholz, ministro das Finanças alemão

O SPD de Olaf Scholz fez saber esta segunda-feira que é sua intenção formar uma “coligação social-ecológica-liberal” – ou seja, entre o SPD, Verdes e FDP (liberais), o que, na sua opinião, será a forma mais clara de corresponder à noite eleitoral de domingo passado. De fora ficará assim, em princípio, a CDU de Angela Merkel, que teve um dia eleitoral para esquecer e que, ao perder mais de nove pontos percentuais em relação às eleições de 2017, levou a que Scholz fizesse a leitura de que os germânicos estão cansados da CDU/CSU.

“Os eleitores foram muito claros”, disse Olaf Scholz, na manhã desta segunda-feira, para frisar que o seu partido, os Verdes e o FDP obtiveram um número significativo de novos votantes, enquanto a CDU se movimentou no sentido contrário. “E é por isso que temos como mandato entregue pelos cidadãos deste país”.

Os Verdes e o FPD (que estão neste momento, respetivamente, nos 14,8% e nos 11,5%), concordaram em manter conversações exploratórias entre si antes de entrarem nas negociações propriamente ditas, tal como tinha adiantado o líder dos liberais, Christian Lindner, para grande espanto dos analistas – que tenderam a considerar a proposta um pouco bizarra.

Scholz disse ainda estar convencido de que o país terá um novo governo o mais tardar “pelo Natal”, o que quer dizer não só que Merkel continuará a ser, na prática, chanceler por mais algumas semanas e, por outro, que não há qualquer pressa dos envolvidos em encontrar uma solução que não seja profundamente pensada e debatida.

Resta saber-se, nesta possível tríplice ‘entente’, que lugares ficarão disponíveis para quem. É costume o segundo partido ficar ou com a pasta das Finanças (como sucedeu com a coligação que governou o país últimos quatro anos) ou alternativamente com os Negócios Estrangeiros – mas tudo isso será debatido apenas, em princípio, daqui por várias semanas.

O clima mais distendido desta segunda-feira não esconde, por outro lado, que as ondas de choque destas eleições a vários níveis atípica estão a fazer mossa em várias formações partidárias. Desde logo na CDU, onde o derrotado Armin Laschet está debaixo de fogo serrado: os seus correligionários têm sido pouco piedosos com aquele que Merkel escolheu (ou permitiu que fosse escolhido) como seu herdeiro, com especial destaque para o líder da CSU, Markus Soder. Neste contexto, pouco admirados deveriam ficar os analistas, se Laschet acabasse por sair do topo do grupo que controla a CDU.

Um pouco mais à direita, a AfD também está a passar por uma crise interna. O partido neo-nazi manteve uma votação estável – mas a perspetiva dos seus líderes, ou pelo menos de alguns, era a da possibilidade de um forte crescimento – dadas as debilidades dos partidos ao centro do espectro político.

Enquanto a dupla de líderes, Alice Weidel e Tino Chrupalla, se mostra globalmente satisfeita com os resultados das eleições (10,3%), outro líder do topo, Jorg Meuthen, foi muito crítico daquilo que a AfD (não) conseguiu e foi particularmente duro com Chrupalla. Meuthen disse que os maus resultados não devem ser encobertos, à “velha maneira do partido”.

Nos Verdes, o dia não foi fácil para Annalena Baerbock, que, apesar de ter conseguido conduzir o partido até à órbita da governação, não teve arte suficiente para segurar a posição privilegiada (de liderança das sondagens) que chegou a ter. Uma parte do partido parece estar convencida que Baerbock não esteve bem nos debates televisivos com os restantes candidatos de topo – fosse por impreparação ou por dificuldade em expor a sua preparação.

Na esquerda do Die Linke – que para já não chegou aos 5% mas mesmo assim vai entrar no Bindestag – também se fazem contas. A dupla Dietmar Bartsch e Janine Wissler consegui perder quase metade do eleitorado que votou no partido em 2017 e não conseguiu aproveitar uma conjuntura que, vê-se agora (mas talvez fosse difícil de antecipar), poderia ser favorável à sua presença numa possível coligação de esquerda.

Entre várias outras, merece a pena ficar dito que o parlamento alemão cumpre a bizarria de não ser sempre do mesmo tamanho. O que acabou funções na noite de domingo tinha 709 lugares, mas aquele que foi votado nesse mesmo dia poderá ter 735! Mas mesmo este número é variável: na noite de domingo, a estação televisiva ARD considerava os 730 lugares como o número mais provável, mas a ZDF avançava os 740.

Mandatos pendentes e de compensação podem fazer crescer o parlamento – e se há vários anos que se fala da necessidade de reformar um quadro legislativo que parece fazer pouco sentido, o certo é que, na legislação anterior isso não foi possível, principalmente pela oposição da CDU.

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