Alentejo enfrenta desafio do investimento, emprego e atração de residentes

A Região do Alentejo está hoje focada na revitalização demográfica e na mitigação dos efeitos do envelhecimento e dos riscos ambientais. A gestão da água assume um papel crucial.

“Atualmente, um dos principais desafios que se colocam ao Alentejo é a mitigação do problema demográfico, a atração de investimento e emprego e, simultaneamente, de residentes”, afirma, ao Jornal Económico, Roberto Pereira Grilo, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo.

Apesar de considerar que não se trata de um desafio exclusivo da região, com base nos diversos estudos que têm vindo a ser feitos sobre as questões demográficas no Alentejo, este responsável assegura que assume um papel central para a CCDR, que tem dedicado tempo e atenção na definição de estratégias de resolução. “O país e a Europa estão confrontados com este problema mas a Região está ainda mais confrontada com o problema demográfico”, reforça.

Quanto ao desafio do investimento e emprego, que se estende à atração de residentes, realça que nos leva à questão da organização do próprio território e da importância da organização da vida coletiva, nomeadamente ao nível dos serviços públicos, para que possa existir uma resposta efetiva a esta nova transição demográfica de decrescimento.

Com o dossiê da água no centro das atenções, Roberto Grilo aponta ainda a dimensão deste desafio na medida em que engloba tanto a vertente das alterações climáticas e das dinâmicas do regadio, como a transformação agrícola/agroalimentar. Visando assegurar níveis de sustentabilidade e conseguir mitigar os riscos ambientais, a região tem também de vencer o desafio da eficiência da gestão do recurso água, evidenciando-se ainda as preocupações latentes com a seca, erosão dos solos ou a perda da biodiversidade.

Sublinhando a existência de diferentes ritmos dentro do Alentejo, “levando a que muitos considerem existir ‘vários Alentejos’”, o responsável dá ainda nota da relevância da questão da coesão territorial, ligada ao regadio e sequeiro, com diferenças concretas que, apesar dos esforços, continuam a verificar-se, assim como da chamada “nova agricultura”. Uma área que assegura estar a ser estudada detalhadamente e que será alvo de uma proposta direcionada ao Governo, e na qual se evidencia o peso crescente dos migrantes a trabalhar na agricultura, para os quais pretendem encontrar “condições condignas e criar condições de fixação”, ressalva.

A curto e médio prazo, a região terá ainda de lidar com desafios que se prendem com a conjugação de investimentos públicos de alcance estratégico regional, como é o caso da ferrovia entre Sines e Espanha, com investimentos que reforcem a participação noutros territórios, nomeadamente o Alto e o Baixo Alentejo.

Outros objetivos são a melhoria das condições de mobilidade para mitigar os efeitos da baixa densidade e da reduzida massa crítica demográfica que daí resulta; o potenciar do Sistema Regional de Transferência de Tecnologia e do Parque de Ciência e Tecnologia, que se traduz num espaço de incubação e disseminação deste sistema regional; e apostar nas novas competências enquanto paradigma produtivo (digitalização) que se estende ao desafio da formação e qualificação.

Por fim, não se deve esquecer a mobilidade sustentável, articulando o sistema urbano com um sistema de transportes eficientes visando atingir outros patamares de coesão, sobretudo, social; e ainda, a integração entre o desenvolvimento urbano, a ruralidade e a excelência ambiental “que é uma marca ímpar da Região Alentejo”, sublinha.

Região em números

A análise da conjuntura regional, elaborada pela CCDR Alentejo, divulgada no Boletim Trimestral “Alentejo Hoje – Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional, de junho passado, mostra-nos, desde logo, que o Alentejo é a região mais desertificada do país, representando mais de um terço do território nacional e apenas 7% da população portuguesa. É também a região mais envelhecida, em que 25% da população tem 65 e mais anos (enquanto a média nacional é de 21,4%).

A região tem uma taxa de emprego no 1º trimestre de 2018 (51,7%) que continua a ser inferior ao valor médio nacional (54,3%). Porém, regionalmente, tem vindo a registar valores de tendência crescente, acompanhando a evolução da população empregada. Esta tem vindo também a aumentar, apesar de um ligeiro decréscimo face ao trimestre anterior, com um recuo de 0,2%, verificando-se que este indicador, face ao período homólogo de 2017, cresceu 3,2%.

Por outro lado, os números reunidos pela CCDR mostram que as importações e exportações continuam a ser relevantes para a região. No primeiro trimestre deste ano, as exportações de bens, face ao trimestre anterior, manifestaram um ligeiro acréscimo de 0,1%, apesar de face ao período homólogo se ter verificado uma descida 9,5%. A diminuição do valor das exportações foi mais significativa no que concerne ao comércio extracomunitário (neste caso, registou uma quebra de 24,8%), dado que para o espaço europeu houve um acréscimo de 1,6% no trimestre (apesar do recuo de 5,1% face ao período homólogo). As exportações continuam a incidir essencialmente sobre produtos minerais, plástico e borracha e produtos de Indústrias químicas, enquanto as importações incidem sobre material de transporte, máquinas e aparelhos e plástico e borracha.

As importações de bens registaram um decréscimo de 11,2% face ao período homólogo e de 5,3% face ao trimestre anterior. Esta variação negativa deveu-se essencialmente ao comércio intracomunitário, já que as importações extracomunitárias registaram variações positivas, quer face ao trimestre, subindo 11,4%, quer face ao período homólogo, onde cresceu 9,2%.

Planear chegada a 2030

Em resposta ao desafio lançado ao Conselho Regional pelo primeiro-ministro, António Costa, a CCDR elaborou o “Contributo Regional do Alentejo para a Estratégia Portugal 2030”, o qual, frisa, “ocorre num período de transformação acentuada do território do Alentejo, fruto de renovadas dinâmicas de investimento no plano económico-produtivo, mas também de evolução em matéria de alterações climáticas e de desertificação física e social que atinge várias sub-regiões”.

No horizonte 2030, a Região e os diversos stakeholders (públicos, associativos e privados) estão confrontados com os desafios estratégicos já elencados, sendo que ainda se evidenciam as mais recentes tendências, designadamente, o investimento público na infraestruturação de polos de I&DT em áreas de especialização regional (TIC, Tecnologias do Ambiente, do Solo e da Água, Biotecnologias e sistemas culturais mediterrânicos, e Ciências do Património); a estruturação do cluster da Aeronáutica, Espaço e Defesa com componentes produtivas (aeronaves tripuladas e não tripuladas – drones e peças acessórias) e de formação de vários segmentos profissionais com procura crescente; e ainda de investimentos na energia fotovoltaica.

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