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América Latina: ‘Fenómeno’ Milei e nova estratégia de segurança dos EUA alavancam direita radical

O caso mais recente do Chile não deixa dúvidas: o sucesso de Javier Milei na Argentina e a atenção que os Estados Unidos prometem dar ao sub-continente à luz a sua nova estratégia de defesa servem de ignição à extrema-direita. O Brasil tem eleições em outubro de 2026.
16 Dezembro 2025, 07h00

Um presidente da direita radical conseguiu, ao cabo da terceira tentativa, substituir um presidente de esquerda. Aconteceu no Chile – país que aparentava ter um problema de memória com propostas pró-ditatoriais – e, segundo os analistas, não é por acaso. O ‘fenómeno’ Javier Milei – presidente da Argentina que acaba de ter excelentes resultados nas eleições parlamentares – está a funcionar em pleno, ao contrário do que sucedeu há uns anos com o brasileiro Jair Bolsonaro, que aparentava ser capaz de produzir um fenómeno semelhante, mas acabou por sucumbir às propostas de esquerda de Inácio Lula da Silva.

A esta influência de Javier Milei – vinda de um dos países mais importantes da América do Sul a par com o Brasil – junta-se agora a estratégia de defesa e segurança dos Estados Unidos, recentemente dada a conhecer por Donald Trump, e que promete a ‘repescagem’ sob um novo articulado ideológico da velha doutrina Monroe, que confere (mesmo que unilateralmente) aos Estados Unidos a prerrogativa de interferir na política da América do Sul.

Neste quadro, surge mais uma vez o exemplo argentino: Milei conseguiu obter de Trump vantagens muito amplas para os produtos argentinos no contexto de um acordo comercial firmado em outubro, conseguindo assim passar ao lado da imposição de tarifas que a administração da Casa Branca espalhou por todo o mundo. A Argentina é dos poucos países que pode alardear ser um parceiro comercial privilegiado dos Estados Unidos. A isso soma-se ainda a possibilidade de os Estados Unidos concederem um empréstimo direto à Argentina para ‘segurar’ o peso, a moeda local, em níveis convenientes para as duas partes.

Do outro lado, está a pressão que o mesmo Donald Trump tem feito sentir à Venezuela – com o exército norte-americano a achar-se no direito de interferir militarmente num tema que, em princípio, seria da exclusiva responsabilidade do governo venezuelano.

Nada disto passará despercebido ao eleitorado sul-americano, que tem bastas razões para temer as interferências diretas dos Estados Unidos no seu território – que se contam por dezenas. Mais uma vez, o Chile é especialmente sensível ao tema, dado não haver qualquer dúvida que o golpe de Estado perpetrado por Augusto Pinochet no dia 11 de setembro de 1973 contra o esquerdista Salvador Allende, democraticamente eleito presidente, foi gentilmente patrocinado pelos EUA.

Nem todos os analistas estavam a contar com uma tão brusca mudança de regime no Chile. Mas aconteceu. José Antonio Kast venceu as eleições presidenciais do Chile, realizadas este domingo, explorando o medo dos eleitores em relação ao aumento da criminalidade e da imigração. Kast obteve 58% dos votos na segunda volta, derrotando a candidata de esquerda apoiada pelo governo, Jeannette Jara, que conquistou 42%.

Ao longo de sua longa carreira política, Kast tem-se revelado um político da direita de linha-dura: propôs a construção de muros na fronteira, o envio de militares para áreas com altos índices de criminalidade e a deportação de todos os imigrantes que estão no país ilegalmente. No discurso de vitória em frente à sede do Partido Republicano, Kast prometeu uma “mudança real”. “Sem segurança, não há paz. Sem paz, não há democracia, e sem democracia não há liberdade, e o Chile voltará a ser um país livre de crimes, ansiedade e medo”, disse.

A sua vitória representa o mais recente triunfo da direita sul-americana, que está a ressurgir na América Latina, com Daniel Noboa no Equador, Nayib Bukele em El Salvador e Javier Milei na Argentina. E em outubro passado, a eleição do centrista Rodrigo Paz pôs fim a quase duas décadas de regime socialista na Bolívia. Com a vitória de Kast, a direita passará a governar seis (os referidos mais o Peru) dos 12 países da América do Sul – o que manterá o equilíbrio ideológico no continente, já que o Uruguai ‘guinou’ a para a esquerda com a vitória de Yamandú Orsi no início do ano.

Foi a terceira candidatura de Kast à presidência e a sua segunda presença numa segunda: em 2021, perdeu para o esquerdista Gabriel Boric. Considerado por muitos chilenos como extremista, Kast atraiu eleitores cada vez mais preocupados com a criminalidade e a imigração – e colocou um fim naquilo que foi o regresso das forças herdeiras de Salvador Allende – o presidente assassinado em 11 de setembro de 1973 no palácio presidencial às mãos de Augusto Pinochet – que viria a tomar o poder, instalando um dos regimes repressivos mais bárbaros de toda a América Latina. ‘Make Chile Great Again’ foi uma das frases usadas por Kast na sua campanha.

A sua vitória, que aconteceu mesmo em regiões do Chile que tradicionalmente votam em candidatos de esquerda, terá sido impulsionada pela rejeição dos eleitores a Jara, que, como membro do Partido Comunista, era vista por muitos como extremista.

 

De olhos postos no Brasil

Daqui a menos de um ano, em 4 de outubro de 2026, os brasileiros irão às urnas escolher o próximo presidente da República, assim como governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais na primeira volta das eleições. A possível segunda volta será em 25 de outubro. O atual presidente, Lula da Silva, já disse que está disponível para voltar a apresentar a sua candidatura aos brasileiros, tendo assegurado que, apesar da idade, mantém todos os ‘skills’ necessários para cumprir mais um mandato.

Mas os críticos têm apontado que a sua terceira prestação como presidente tem sido bem menos positiva do ponto de vista interno, o que poderá fazer com que um opositor com provas dadas tenha uma palavra a dizer no desfecho final. E o nome, é cada vez mais consensual: a maioria dos parlamentares do Congresso Nacional aposta no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas – caso o ex-presidente Jair Bolsonaro permaneça inelegível, como provavelmente acontecerá. Todas as sondagens indicam que Tarcísio de Freitas é o único capaz de poder ter a esperança de derrotar Lula da Silva. Uma das últimas, publicada pelo ‘Estadão’, indicava que 56,1% dos deputados e 55,6% dos senadores apontam Tarcísio como o candidato mais viável para unir a direita. Em segundo lugar surgia o governador do Paraná, Ratinho Jr., com 15% e 11,1, respetivamente. A sondagem indicava ainda que Michelle Bolsonaro (mulher de Jair) surgia em terceiro lugar, com 11,2% e 7,4%. Seja como for, será um ato eleitoral que vai merecer muita atenção – até porque o Brasil continua a ser a mais importante economia do sub-continente.


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