Anthony Fauci sobre os ataques da Casa Branca: “Esforços para me descredibilizar só prejudicam o presidente”

Apesar dos ataques e da tentativa de descredibilização do especialista, Anthony Fauci garante que não vai abandonar o cargo por estar em causa uma pandemia que já afetou milhões de norte-americanos.

Anthony Fauci, diretor do Instituto de Doenças Infecciosas, e Donald Trump | Stefani Reynolds/Bloomberg

As tensões entre a administração de Donald Trump e o imonulogista da task force contra a Covid-19 da Casa Branca não parecem ser suficientes para Anthony Fauci abandonar o cargo.

Numa entrevista ao jornal “The Atlantic“, o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecto-contagiosas dos EUA considera que as opiniões de Donald Trump que descartam as recomendações do especialista acabam, em última instância, por prejudicar o presidente.

Tensões entre imunologista e Trump aumentam numa altura em que a pandemia se agrava nos EUA

Recentemente, os oficiais da Casa Branca divulgaram um conjunto de declarações feitas pelo especialista no inicio da pandemia — altura em que era escassa a informação sobre o vírus — que incluíam frases como “o vírus não é uma ameaça para os EUA”, dita em janeiro, que “os assintomáticos não poderiam contaminar outras pessoas” e que “o uso de máscaras não trazia benefícios”, dita em março, que pareciam ter o objetivo de descredibilizar o imunologista. Ao jornal, Fauci considerou a jogada como “bizarra”.

“Em última análise, fazer isso acaba por prejudicar o presidente”, disse Fauci. “Quando a equipa divulga algo assim e toda a comunidade científica e de imprensa contraria, isso acaba por prejudicar o presidente”.

O responsável descreveu os ataques da Casa Branca como “absurdos” e “contraproducentes”, apelando a que o país se concentre na resposta à pandemia. “Quando olhamos para os números, é óbvio que deveríamos estar a fazer melhor. Por isso, temos de parar com estas parvoíces, recomeçar, e controlar a situação”, afirmou.

“Não consigo perceber, nem nos meus sonhos mais loucos, o porquê deles quererem fazer isso”, disse Fauci ao “The Atlantic”, em referência ao documento da Casa Branca. “Acho que agora percebem que não foi prudente, porque apenas refletia negativamente sobre eles”, considerou.

O mais recente ataque aconteceu esta quarta-feira, quando o conselheiro da Casa Branca para o comércio, Peter Navarro, publicou um artigo de opinião no “USA Today” em que afirma que Fauci está “errado em relação a tudo”. Acusa Fauci de ter desvalorizado a Covid-19 em janeiro, pouco depois de o vírus ter sido detectado em Wuhan, e de ter aconselhado Trump a não suspender os voos provenientes da China. O conselheiro também já criticou o imunologista por não reconhecer a eficácia da hidroxicloroquina, um fármaco contra a malária e algumas doenças auto-imunes, desaconselhado para o tratamento da Covid-19, e que foi promovido por Donald Trump e continua a sê-lo por Jair Bolsonaro, apesar de tal não ter sido provado cientificamente.

Sobre isso, Fauci comenta: “Não sei explicar o Peter Navarro. Está num mundo completamente sozinho”.

No fim-de-semana passado, foi a vez de Dan Scavino, gestor das redes sociais do Presidente norte-americano, atacar Fauci ao partilhar um cartoon a ridicularizar o imunologista, fazendo um trocadilho com a palavra torneira (faucet, em inglês), com referências ao encerramento das escolas, ao confinamento e ao fim do campeonato de futebol americano.

Apesar dos conflitos, Anthony Fauci garante que não se quer demitir por estar em causa uma pandemia que já provocou perto de 600 mil morte e 14 milhões de infetados no mundo.

“Não, não acho que o problema seja grande o suficiente para pensar nesse tipo de coisas. Eu só quero fazer o meu trabalho”, sublinhou. “Sou bom a fazer isso. Acho que posso contribuir para a causa e vou continuar a fazê-lo”, garantiu.

Na sequência destes episódios, e com o país incapaz de travar a disseminação do vírus, a Casa Branca tentou passar a mensagem de que não há qualquer conflito com Anthony Fauci, afastando-se da posição de Peter Navarro.

“Estamos todos na mesma equipa, incluindo o Dr. Fauci”, afirmou Donald Trump aos jornalistas na quarta-feira, referindo que o conselheiro para o comércio “não devia” ter escrito o texto.

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