António Costa e o seu PS

O PS deve olhar, por respeito ao futuro, com igual atenção tanto para as imediações do ‘costismo’ como para os espaços nos quais se movem vozes mais livres e descomprometidas.

1. António Costa está para lavar e durar no PS não apenas porque ainda não tem alternativa para a sua carreira pessoal e política.

O secretário-geral vai manter-se no cargo por muitos anos e por vontade própria, mas também porque ele é o polo aglutinador da estratégia de poder do partido.

Sem António Costa, não sei se os muitos candidatos a sucessores já pensaram nisso, dificilmente o PS estaria como está nas sondagens e esteve em todas as últimas eleições no país: à frente e a ganhar. Sem ele como primeiro-ministro não haveria Poder, cargos e mordomias para distribuir – porque esses descendem dos votos e no PS não se vê quem pudesse, pelo menos de dentro do ‘costismo’, continuar a assegurar a atual confortável posição eleitoral do partido.

Há, evidentemente, um PS com António Costa e haveria, haverá um dia, inevitavelmente, outro sem ele. Não reconhecer isto, que tem muito a ver com o personalidade popular do personagem e a sua sagacidade política, é cegueira.

2. É por isso que a celebração deste fim de semana em Portimão é pouco interessante.

A maioria dos militantes do PS sabe quem é a fonte que assegura o Poder, quem é o homem capaz de manter um governo a níveis de aceitação que parecem anormais, por imunes a nomeações polémicas (é um eufemismo), a ministros incompetentes (é outro), a inquéritos que não saem (é um facto), a escândalos vários dentro da família política (muitos outros factos).

3. O congresso do PS vai limitar-se ao óbvio. Vai continuar a eleger Carlos César como presidente (outro sinal do poder de Costa, como também o é Ferro Rodrigues à frente da Assembleia da República), a ratificar os resultados das últimas diretas (em que o militante Daniel Adrião, com os seus 6% de votos, mais uma vez foi chamado a evitar o plebiscito), a tentar convocar o interesse para as eleições autárquicas (em que o partido pretende continuar a manter a rede que suporta o funcionamento da máquina do Estado) e a eleger para os diversos órgãos partidários os nomes adequados à época.

No momento em que o Plano de Recuperação e Resiliência começa a ser executado – e muitas notícias ele certamente trará no futuro, porque Portugal não muda de um momento para o outro e o PS também não é o único culpado disso – este não poderia deixar de ser um tempo de acalmia.

4. No que à sucessão diz respeito, quando ela um dia chegar, tenho dúvidas de que seja feita em torno dos operacionais do poder instalado, estejam eles mais à direita ou à esquerda, sejam mais ou menos simpáticos, homens ou mulheres.

O que ensina a experiência é que mesmo as lideranças fortes raramente são capazes de designar sucessores, ou quando o conseguem normalmente é por pouco tempo.

A democracia tem uma dinâmica própria. Nela, a lógica da política tende a esgotar-se em cada um dos seus intérpretes. Quando um líder abandona, costuma ruir parte do castelo e haver lugar a reorganizações, ao apelo da novidade.

É por isso que o PS, por respeito ao futuro, deve olhar com igual atenção tanto para as imediações do ‘costismo’, onde se aquartelam os mais ou menos fiéis, como para espaços menos colonizados, nos quais se movem vozes mais livres e descomprometidas. António José Seguro, Sérgio Sousa Pinto, Francisco Assis, ou não vão passar pelo congresso ou surgirão lá com a brevidade dos cometas. Mas não é por isso que não terão um dia, no futuro, uma palavra a dizer quando a hora do render da guarda inevitavelmente chegar.

Os partidos não se fazem só dos que vivem a dizer que sim. Felizmente.

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