António Guterres pede aos governos para não apoiarem indústrias de combustíveis fósseis

“Ou podemos investir nas tecnologias do futuro, energia renovável, soluções baseadas na natureza, transporte sustentável e tecnologias verdes”, acrescentou o secretário-geral da ONU, dizendo que apenas este último é o caminho “racional”.

Rafael Marchante/Reuters

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu esta quinta-feira que os governos não desperdicem os fundos de estímulo económico a apoiar indústrias de combustíveis fósseis que contribuem para o aquecimento global.

Falando durante uma conferência virtual mundial sobre alterações climáticas, patrocinada pela ONU, Guterres disse que os países devem fazer “uma escolha entre dois caminhos”, no momento em que mobilizam biliões de dólares do dinheiro dos contribuintes para a recuperação económica após a pandemia do novo coronavírus.

“Podemos deitar fora dinheiro com os combustíveis fósseis do passado. Esse é o caminho para mais poluição”, começou por dizer Guterres.

“Ou podemos investir nas tecnologias do futuro, energia renovável, soluções baseadas na natureza, transporte sustentável e tecnologias verdes”, acrescentou o secretário-geral da ONU, dizendo que apenas este último é o caminho “racional”.

Guterres lembrou que grandes investidores já estão a retirar o seu dinheiro de indústrias altamente poluentes, especialmente de carvão.

“Sem os subsídios do contribuinte, essas são empresas falidas”, explicou Guterres, alegando que construir novas fábricas de energia renovável já é mais barato do que continuar a investir nas fábricas movidas a carvão existentes no mundo.

Vários países, incluindo a Alemanha, concordaram recentemente em descontinuar o uso de carvão para produzir eletricidade, por causa das grandes quantidades de dióxido de carbono produzidas.

Nos Estados Unidos, várias fábricas termoelétricas que recorriam a carvão foram fechadas, desde 2010, e nenhuma das empresas de energia do país está a construir novas, apesar do apoio declarado do Presidente dos EUA, Donald Trump, à indústria do carvão.

O apelo de Guterres aos governos para que parem de subsidiar empresas de combustíveis fósseis tem tido eco nas palavras do ator e ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, que ajudou a organizar esta conferência mundial.

“Quando ouvimos dizer que o Governo planeia gastar dinheiro de estímulo económico no resgate de combustíveis fósseis, devemos perguntar-nos: se os investidores não estão a apoiar essas empresas em declínio, porque o deveriam fazer os contribuintes?”, explicou Schwarzenegger, na sua intervenção por vídeo, a partir de Los Angeles.

“Os governos devem perceber o que o dinheiro inteligente sabe instintivamente: não se deve investir no passado”, concluiu Schwarzenegger.

Desde que deixou o seu cargo de governador, em 2011, o ator austríaco-americano tem-se dedicado a causas ambientais e é um opositor do Presidente Trump, nas questões climáticas.

Na reunião, foi também possível ouvir um apelo da ativista climática do Uganda Vanessa Nakate que referiu a necessidade de preservar a floresta tropical do Congo.

“Usem a vossa voz para falar sobre a floresta tropical do Congo, porque milhões de pessoas dependem fortemente da sua existência”, pediu Nakate.

Jane Goodall, uma ativista ambiental pioneira, citou a pandemia de covid-19 como um alerta para o que pode acontecer quando os humanos tratam o meio ambiente com indiferença.

“Em grande medida, fomos nós que a criámos (a pandemia), com o nosso desrespeito pela natureza e pelos animais”, acrescentou Goodall, dizendo que está na hora de desenvolver uma nova economia verde.

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