Apesar da ira de Trump, Sintra não foi palco de ‘guerra cambial’ entre Europa e EUA

Primeiro dia do Fórum do Banco Central Europeu (BCE), em Sintra, ficou marcado pela troca de palavras entre Donald Trump e Mario Draghi. “Não visámos as taxas de câmbio”, disse o presidente do BCE, em resposta à crítica do presidente norte-americano sobre o impacto de possíveis cortes adicionais da taxa de juros na zona euro.

No primeiro dia de trabalhos do Fórum BCE, Sintra transformou-se num ringue de combate entre dois titãs da economia mundial. Representando as cores europeias, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, no seu último “assalto”, admitiu possíveis estímulos adicionais à economia da zona euro, que levaram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump a ripostar no Twitter.

Mario Draghi, que deixa a presidência do BCE em outubro, realçou que o banco central tem à sua disposição um arsenal de instrumentos pronto a ser utilizado caso a conjuntura económica assim o exija. “Na ausência de melhorias, isto é, se as condições que ameaçam o regresso a um nível de inflação sustentado persistirem, serão necessários estímulos adicionais”, adiantou o italiano.

Um dos principais objetivos do BCE, enquanto estabilizador da economia da zona euro, consiste em controlar a taxa da inflação, que continua aquém da meta, estabelecida abaixo, mas próxima dos 2%,. Por isso, segundo anunciou Draghi,  “nas próximas semanas, o Conselho de Governadores irá deliberar sobre como é que os instrumentos podem ser adaptados proporcionalmente à gravidade do risco da estabilidade dos preços”.

Entre os instrumentos anunciados pelo ainda presidente do BCE estão política monetária caracterizada por “mais cortes nas taxas de juro”, assim como” medidas que permitam efeitos colaterais”.

Foram assim lançadas as regras do jogo para a economia da zona euro, mas Trump não gostou.

“Mario Draghi anunciou a possibilidade de estímulos adicionais, o que fez com que o Euro desvalorizasse imediatamente face ao Dólar”, escreveu Trump no Twitter. “Isso faz com que eles [os europeus] consigam competir mais facilmente contra os EUA”.

Desferido o ataque – diga-se que foi Trump quem tomou a iniciativa – Draghi contra-atacou passivamente. “Não visámos as taxas de câmbio”, respondeu o presidente do BCE, numa alusão à desvalorização do Euro face ao Dólar abordada por Trump. ”

“O nosso mandato é a estabilidade de preço, definida como uma taxa de inflação abaixo, ou próxima, dos 2%, no médio prazo. Eu acabei de dizer há momentos que estamos preparados para utilizar todos os instrumentos que serão necessários para cumprir com o nosso mandato, e não visámos as taxas de câmbio. Obrigado”.

Além da troca de palavras entre os dois representantes de grandes colossos económicos, as palavras de Mario Draghi tiveram repercussões em diversos setores da atividade económica. A começar pela queda das yields das obrigações de países da zona euro, como Portugal, Alemanha e até Itália, ainda que a possibilidade de mais cortes nas taxas de juro impulsionara os mercados bolsistas europeus.

“Embora os investidores esperassem que Mario Draghi se debruçasse sobre a forma como o BCE poderia agir perante uma conjuntura tão incerta e mesmo adversa, poucos pensaram que fosse tão explícito”, explicam os analistas do CaixaBank/BPI Research. “As declarações de Mario Draghi, em consonância com a expectativa da Fed cortar em breve as taxas nos Estados Unidos, gerou uma forte propensão ao risco nos investidores globais”, explicaram.

Sobre o futuro da União Económica e Monetária, Mario Draghi abordou ligeiramente a necessidade de se concluir com alguma rapidez a união bancária e a união dos mercados de capitais.

Num contexto de uma cada vez maior integração das economias da zona euro, “a lógica manda que mais rapidamente se deveria concluir a união bancária e a união dos mercados de capitais”, referiu o presidente cessante do BCE”.

Mas não só. A base para o desenvolvimento do rumo da política monetária também se deve alterar. Com a integração das economias europeias, “depressa deverá operar-se a transição das políticas orçamentais, baseadas num sistema de regras, para um sistema institucional com competência orçamental”, defendeu Mario Draghi.

Stanley Fischer fez duas previsões: se Trump for reeleito, a Fed terá novo presidente e os EUA serão do “terceiro mundo”

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