Assédio sexual: o fim da carreira política do democrata Andrew Cuomo (com áudio)

O democrata que capitalizou politicamente os seus desentendimentos constantes com o ex-Presidente Donald Trump deixou de ter a confiança do seu partido. A sua carreira política acabou desde que o atual presidente, Joe Biden, sugeriu que devia deixar o cargo.

Poucos analistas norte-americanos duvidam que a carreira política do democrata Andrew Cuomo, o 56º governador de Nova Iorque, chegou ao fim a partir do instante em que o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, lhe pediu que renuncie ao cargo depois de uma investigação judicial ter concluído que assediou sexualmente várias mulheres, a maioria funcionárias e ex-funcionárias, entre 2013 e 2020.

De pouco serve que Cuomo se tenha multiplicado em negar todas as acusações: a sugestão de Biden, igualmente um democrata, demonstra que o partido deixou de o apoiar – pelo menos de forma explícita – no caso das acusações de assédio sexual. Cuomo vê assim esfumar-se de um segundo para o outro todas as suas aspirações políticas. Será de recordar que o governador de Nova Iorque acabou por tornar-se numa das mais importantes figuras dos democratas ao lingo do extenso período de pandemia – durante o qual passou a ser uma das vozes mais autorizadas na recusa em obedecer às políticas oriundas da Casa Branca na altura em que o republicano Donald Trump a ocupava. Foi um ano de confrontação entre os dois políticos, que granjeou para Cuomo um capital político que, ninguém duvidava, iria ser usado na altura certa.

E a altura certa, diziam alguns analistas, podia perfeitamente ser a candidatura à corrida presidencial. Não está ainda seguro, mas a idade de Joe Biden indica que o atual presidente não se irá recandidatar a um segundo mandato. E se a sua vice-presidente, Kamala Harris, será uma espécie de sucessora natural, alguns democratas de topo, Cuomo incluído (até agora) podia estar interessado em testar as suas próprias capacidades dentro do partido – mesmo que fosse com vista apenas às eleições presidenciais de 2028. Mas tudo isso parece ter acabado.

“Acho que Cuomo devia renunciar”, disse Biden numa conferência de imprensa.”Entendo que a legislatura estadual pode decidir pelo ‘impeachment‘. Mas não tenho a certeza disso”, acrescentou, citado por vários jornais norte-americanos.

O chefe de Estado junta-se assim ao coro de apelos à demissão do governador de Nova Iorque, que surgiram logo após o anúncio das conclusões sobre o inquérito a eventual assédio sexual. O líder dos democratas na câmara baixa do Estado de Nova Iorque, Carl Heastie, já tinha criticado o governador sobre o caso – o que implica que os democratas já optaram por deixar cair Cuomo.

O relatório das investigações, de 169 páginas, foi concluído após cinco meses de investigação conduzida por dois advogados externos que entrevistaram 179 pessoas, reviram dezenas de milhares de documentos, textos e fotografias e que declararam que a administração Cuomo era um “ambiente de trabalho hostil”, que estava “repleta de medo e intimidação”.

“As entrevistas e evidências revelaram um quadro profundamente perturbador, mas claro: o governador Cuomo assediou sexualmente várias mulheres, incluindo funcionárias e ex-funcionárias estaduais, violando legislação federal e estadual”, disse a procuradora-geral, estadual Letitia James, durante a apresentação do relatório.

O governador e os membros da sua equipa terão também adotado “medidas de represálias dirigidas a pelo menos uma funcionária por ter testemunhado”.

Como seria de esperar, Andrew Cuomo negou todas as conclusões. “Antes de tudo, quero que saibam (…) que nunca toquei em ninguém de forma inapropriada ou fiz avanços sexuais inapropriados”, reagiu o governador democrata, citado pela comunicação social norte-americana. O governador mantém o tom de defesa desde março passado, altura em que foram divulgadas as primeiras acusações.

Recorde-se que, em fevereiro passado, num longo artigo publicado no The New York Times, a ex-assessora Charlotte Bennett, de 25 anos, contou como Cuomo lhe fez perguntas sobre a sua vida sexual, se ela era monógama nas relações e se alguma vez tinha tido sexo com um homem mais velho. Antes dela também a ex-assessora Lindsey Boylan acusou o governador de a ter beijado nos lábios e de lhe ter pedido que jogasse “strip poker” quando ambos se encontravam num jato privado.

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