Assessores financeiros e advogados estão otimistas com as fusões e aquisições de 2021

Especialistas contactados pelo JE anteveem uma série de movimentos no sector da energia – sobretudo na transição energética e energias renováveis – e na banca.

O mercado português de fusões e aquisições (M&A – mergers and acquisitions) mostrou resiliência, no ano passado, acabando a crescer em valor, ainda que com menos operações. Essa tendência manteve-se nos dois primeiros meses de 2021 (ver artigo neste Especial), o que justifica o otimismo com que os advogados de negócios e assessores financeiros contactados pelo Jornal Económico (JE) encaram o resto do ano, apesar da incerteza inerente à evolução da pandemia.

Se antes existiam oportunidades que estavam a ser exploradas, a crise pandémica, pelo seu carácter assimétrico, expandiu-as – com empresas que ficaram impedidas de desenvolver a sua atividade, enquanto outras prosperaram e atingiram taxas de crescimento mais significativas do que aquelas que poderiam ambicionar numa situação de “business as usual”. Este quadro cria oportunidades de investimento de dois tipos: por um lado, empresas que, face a uma expansão rápida, têm grandes necessidades de financiamento, e, por outro, firmas que, face à quebra abrupta da atividade, terão de se submeter a processos de restruturação, como afiança João Santos, managing partner da Tradinveste.

“Os sectores que mantiveram a atividade neste período […] irão continuar muito ativos e a estes juntar-se-ão os que se retraíram durante esta inigualável crise sanitária. Fruto do encerramento de alguns sectores da economia e do final das moratórias, iremos ter também um crescimento de transações de empresas em dificuldades, que irão reforçar presença no mercado transacional”, antecipa.

Tecnologia e imobiliário, mas também energia e banca
Os sectores das tecnologias da informação e imobiliário têm dominado as fusões e aquisições em Portugal – tanto antes como durante a crise pandémica – e, apesar de não se vislumbrar uma quebra de dinamismo nestas atividades, os assessores anteveem uma série de movimentos no sector da energia – sobretudo na transição energética e energias renováveis – e na banca.

Tomás Vaz Pinto, sócio da Morais Leitão, garante que há sinais concretos do interesse por parte dos investidores. “Basta ver o recente processo de aumento de capital da EDP Renováveis através de um processo de accelerated bookbuilding [ABB]. É verdade que o ano de 2020 foi muito forte e por isso replicar um ano desses seria sempre difícil, em qualquer contexto, ainda assim, existem já algumas operações interessantes em progresso que, porventura, só daqui a alguns meses poderão estar concluídas e comunicadas”, diz ao JE. O coordenador do departamento de M&A da MLGTS admite que o confinamento não ajuda no desenrolar das operações, mas, como o teletrabalho é uma realidade à qual a sociedade se habituou, “os negócios não param”.

“Existem sinais encorajadores para a saída da crise pandémica e, por isso, esperamos que no segundo semestre as coisas se aproximem da normalidade, baixando significativamente o grau de incerteza que tanto afeta este mercado”, sublinha.

Catarina Tavares Loureiro, sócia da Uría Menéndez – Proença de Carvalho, também considera que há motivos para antever que em 2021 o mercado estará ativo, pois existe disponibilidade financeira e “os investidores institucionais, sobretudo fundos, continuam ativamente à procura de oportunidades de investimento”. A advogada espera que este ano cheguem ao mercado distressed assets [ativos com preço abaixo do valor geral de mercado], “que representarão boas oportunidades de negócio”.

“O M&A deverá ser mais uma vez um instrumento aos serviços dos investidores e das empresas para lidar com os desafios desta crise, ajudando-os a redirecionar estratégias e a promover as políticas de investimento ou desinvestimento mais adequadas a lidar com o novo contexto económico”, afirma, recordando que algumas das maiores operações dos últimos anos foram concluídas em 2020, nomeadamente no sector das infraestruturas e da energia.

Igual perspetiva tem Luís Vasconcelos, responsável pela Área de M&A do Haitong Bank, que destaca a “atratividade associada à estabilidade política e regulatória” que se verifica em Portugal como um fator determinante na captação “de players internacionais que veem em Portugal uma oportunidade competitiva para a aquisição de competências e potencial prestação de serviços em formato nearshore [fornecimento externo, no estrangeiro, mas geograficamente perto do cliente], pelo facto de Portugal ter recursos humanos altamente qualificados a preços competitivos”, acrescenta.

A qualidade do capital humano especializado português é também refletida no elevado número de startups presentes no país, que reúnem interesse de investidores de risco que veem em Portugal um novo oásis de inovação.

Este país é para ‘startups’
“O mercado de private equity em Portugal, tanto na componente privada como pública, tem historicamente apresentado bastante dinamismo no apoio a startups nacionais. Sendo certo que a pool de capital disponível para apoiar os novos projetos pode, por vezes, não ser suficiente para acudir na sua totalidade às necessidades das startups nacionais, tem sido uma alavanca fundamental para o apoio nas fases iniciais de desenvolvimento dos projetos”, destaca Marco Lourenço, diretor coordenador de M&A e Mercado de Capitais do CaixaBI. Esta é, portanto, uma vertente do tecido empresarial nacional que, em simbiose com o mercado de private equity e de capital de risco, vai crescendo e dotando Portugal de conhecidos casos de sucesso.

Finalmente, a tendência de digitalização será um motivo para muitas empresas optarem por operações deste tipo, num esforço para se adaptarem a uma realidade cada vez mais desmaterializada e tecnológica. Isso mesmo refere João Nuno Palma, vice-presidente da comissão executiva do Millennium BCP e responsável pela área de Banca de Investimento, que relembra os casos passados em que “estas transações serviram de veículo transformacional para empresas com uma longa história” nos mais variados sectores.

“É natural que, na senda do que se tem observado a nível internacional, empresas nacionais já estabelecidas nos mais diversos setores de atividade acelerem a sua transição digital com a aquisição de competências através de M&A, em alternativa a desenvolverem-nas organicamente”, conclui.

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