AstraZeneca responde a Bruxelas. CEO relembra que Reino Unido fechou acordo três meses antes da UE

“Não estou à procura de desculpas, honestamente. Estamos a dar o nosso melhor”, afirmou Pascal Soriot, garantindo que é totalmente falso sugerir que a AstraZeneca pudesse estar a “tirar vacinas aos europeus para vender a outros, com lucro”.

DR Pablo Martinez Monsivais

O conselho de administração da AstraZenenca e os representantes da Comissão Europeia deverão reunir-se, esta quarta-feira, para negociar os atrasos na entrega das vacinas contra a Covid-19. Inicialmente, este encontro tinha sido cancelado, com os responsáveis em Bruxelas a decidirem que não haveria condições para esta reunião, de acordo com uma notícia avançada pelo “Politico”. Porém, um porta-voz da farmacêutica garantiu hoje à “Bloomberg” que a AstraZeneca comparecerá à reunião.

A reunião surge depois de uma entrevista ao presidente-executivo da AstraZeneca para o jornal italiano “La Repubblica”, onde Pascal Soriot garante que não assumiu compromissos com a União Europeia, mas sim “os melhores esforços”. Se na Europa os problemas – que diz “acreditar que estão solucionados” – surgem na fase da produção da substância da vacina, Pascal Soriot lembra que no Reino Unido houve problemas relacionados com a cadeia de distribuição.

“Não nos comprometemos com a União Europeia, já agora. Não temos nenhum compromisso com a Europa. Dissemos que íamos fazer os melhores esforços. A razão por que digo isto é porque na altura, a Europa queria mais ou menos as mesmas quantidades de vacinas que o Reino Unido, embora o contrato tenha sido assinado três meses mais tarde [junho]. Nós dissemos “ok, vamos fazer o nosso melhor, vamos tentar, mas não nos podemos comprometer contratualmente porque estão três meses atrasados em relação ao Reino Unido”, explicou o responsável.

A resposta chega depois da presidente da Comissão Europeia ter alertado que as farmacêuticas “devem hornar os seus compromissos” na entrega das vacinas, uma vez que o processo de vacinação na Europa arrancou a 27 de dezembro e que o atraso na segunda toma pode comprometer a imunização da população contra a Covid-19.

Embora o bloco europeu não vá receber o primeiro lote de vacinas contra a Covid-19 ainda este mês, como estava previsto, Soriot garante que assim que receber a aprovação da Agência Europeia do Medicamento (EMA, sigla em inglês) – algo que poderá esta sexta-feira – a farmacêutica irá enviar três milhões de doses para Bruxelas e o mesmo se sucederá nas semanas que se seguem durante o mês de fevereiro.

“O objetivo é entregar 17 milhões de doses até fevereiro. Isso significaria, três milhões de doses para a Alemanha, provavelmente 2,5 milhões para Itália e cerca de dois milhões para Espanha”, adiantou o responsável. “Não é tão bom quanto antecipávamos, mas não é nada mau”.

“A nossa capacidade total agora é de cerca de 100 milhões de doses por mês. De fevereiro adiante, podemos fazer 100 milhões de doses por mês, o que não é pouco. A maioria das vacinas tem 100 milhões de doses por ano, o que já nos leva a um ritmo de 1,2 mil milhões por ano”, analisou o CEO.

“É claro que estamos a aumentar a produção e a Europa vai obter 17% dessa produção global em fevereiro para uma população que é 5% da população mundial. A Europa disse que a vacina é um bem comum e todos precisam ter acesso ao mesmo tempo em todo o mundo. É isso que estamos a fazer. A Europa vai ficar com 17% do nosso fornecimento global durante um mês para 5% da população mundial. O problema é: 100 milhões de doses é muito, mas temos 7,5 bilhões de pessoas no mundo ”.

Questionado sobre se a resposta da Comissão Europeia ao atraso na entrega das vacinas foi “agressivo”, Pascal Soriot pede um pouco mais de compreensão num processo “inédito na História” que seria impossível correr sem sobressaltos.

“Os governos estão sob pressão, toda a gente está a ficar um pouco…digamos… aborrecida e emotiva em relação a este tema”, diz Pascal Soriot, garantindo que é totalmente falso sugerir que a AstraZeneca pudesse estar a “tirar vacinas aos europeus para vender a outros, com lucro”.

Esta terça-feira, a Comissão Europeia anunciou que estava a equacionar um  mecanismo de transparência das exportações. Trata-se de um sistema de notificação e de alerta sempre que as farmacêuticas queiram exportar vacinas para outros países, e não de uma proibição de exportação, mas os detalhes e a forma como vai funcionar terão ainda de ser trabalhados pelo executivo comunitário e pelos 27.

O responsável recusa fazer “juízos de valor” sobre se a UE perdeu tempo na assinatura do contrato (e agora está a ser penalizada por isso): “só vos posso transmitir factos e os factos são que basicamente assinámos um acordo com o Reino Unido três meses antes de o termos feito com a Europa”. É certo que o facto de ter havido a colaboração com a universidade de Oxford deu algum “avanço” na interação com o governo britânico, mas Pascal Soriot recusa qualquer favorecimento – “eu sou europeu, tenho a Europa no meu coração. O nosso presidente do conselho de administração é sueco, o nosso administrador financeiro é europeu… Queremos tratar a Europa da melhor forma que podemos… Estamos a fazer isto sem lucro, lembra-se?”

“Não estou à procura de desculpas, honestamente. Nós assumimos a responsabilidade. Queremos ser mais produtivos e estamos a trabalhar noite e dia. As nossas pessoas na indústria, temos centenas de pessoas agora. Muitas delas nem tiraram férias de Natal. Não estou a pedir-vos para terem pena de nós, mas é só para saberem que estamos a dar o nosso melhor. Mas é um processo muito complicado, com uma escala enorme”.

Pascal Soriot sublinha que “a sugestão de que estaríamos a vender a outros países para fazer mais dinheiro porque não fazemos lucro em lado nenhum. Essa foi a abordagem que escolhemos desde o início. É esse o acordo que temos com a universidade de Oxford. Temos preços ligeiramente diferentes entre geografias mas isso é apenas para refletir custos diferentes. Estamos a trabalhar para o bem da Humanidade”.

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