Balanço da noite eleitoral com três vencedores e três derrotados

O PS de António Costa fica apenas ligeiramente acima do “poucochinho” de António José Seguro em 2014, mas não deixa de ser o claro vencedor das eleições europeias. O BE duplica e o PAN quase triplica o resultado anterior. O PSD tem um grave problema em Lisboa. A CDU vai ter que refletir sobre a “geringonça”. E o CDS-PP volta a ser assombrado pelo espectro do “partido do táxi”.

Vencedores

Partido Socialista (PS): É o claro vencedor das eleições para o Parlamento Europeu, com 33,39% dos votos e previsão de nove mandatos atribuídos (não está ainda confirmado porque faltam apurar os resultados de nove consulados). Não tanto pela percentagem ou número total de votos, mas sobretudo pela distância em relação ao segundo classificado, o PSD, que obteve apenas 21,94% dos votos e previsão de seis mandatos (ainda assim, juntando os 6,19% do CDS-PP que, em 2014, concorreu em coligação com o PSD, ficam com 28,13%, acima dos 27,71% que obtiveram em 2014 e quase à mesma distância do PS).

Em 2014, António Costa derrubou António José Seguro da liderança do PS (a cerca de 16 meses das eleições legislativas) por causa de uma vitória nas eleições europeias que classificou como “poucochinho”: 31,46% dos votos (1.033.158 no total) e oito mandatos. Desta vez aumentou a percentagem em pouco menos de dois pontos percentuais e conquistou apenas cerca de 72 mil votos adicionais (1.105.894 no total). Mesmo a distância em relação ao PSD e ao CDS-PP em conjunto (apesar dos resultados historicamente baixos de ambos) não aumentou quase nada entre 2014 e 2019. Contudo, não deixa de ser uma vitória para o PS e, evidentemente, para Costa que praticamente assumiu o lugar de cabeça-de-lista, perante as notórias dificuldades de Pedro Marques na campanha.

Bloco de Esquerda (BE): Mais do dobro dos votos, o dobro dos mandatos e descolagem para a terceira posição, a considerável distância da CDU e do CDS-PP, com os quais costuma estar quase sempre empatado nas sondagens. O BE é um dos grandes vencedores da noite eleitoral, com 9,82% dos votos e dois mandatos, superando claramente o resultado de 2014 que tinha sido fraco (4,56% dos votos e um mandato). Dá um salto de cerca de 150 mil para mais de 325 mil votos, elegendo Marisa Matias e José Gusmão (e o número três da lista, Sérgio Aires, não ficou muito distante de também ser eleito). A cabeça-de-lista teve o mérito de fazer uma campanha pela positiva (sobretudo nos debates) e de grande proximidade empática com os eleitores, quase replicando o excelente resultado que já conquistara nas eleições presidenciais de 2016 (terceira posição com 10,12% dos votos, cerca de 469 mil no total).

Pessoas-Animais-Natureza (PAN): Foi a grande surpresa da noite eleitoral. As sondagens durante a campanha eleitoral indicavam um máximo de 3% de intenções de voto no PAN, mas as primeiras projeções de sondagens à boca das urnas apontaram para o dobro e abriam mesmo a possibilidade de ultrapassar o CDS-PP, algo que acabaria por não se concretizar. Com 5,08% dos votos (total de cerca de 168 mil), o “EuroPAN” (como gritaram os militantes do partido, enquanto o líder, André Silva, proferia o discurso de vitória) quase triplicou o resultado obtido em 2014 (saltou de 1,72% para 5,08%, ou de um total de cerca de 56 mil votos para mais de 168 mil) e elegeu pela primeira vez um eurodeputado, o cabeça-de-lista Francisco Guerreiro.

Derrotados

Partido Social Democrata (PSD): A verdade é que não ficou muito distante do resultado das eleições europeias de 2014, como já explicámos anteriormente (o mesmo número de mandatos e, em conjunto com o CDS-PP, uma percentagem superior e mais votos no total). Mas o problema é que esse resultado de 2014 já era historicamente baixo e o facto é que, com 21,94% dos votos em 2019, consuma-se o pior resultado de sempre do PSD em eleições nacionais, concorrendo sozinho. A liderança de Rui Rio não está em causa, neste momento, mas a sobrevivência pós-legislativas parece ser cada vez mais uma miragem.

Ou seja, mais do que uma grande vitória do PS, estamos perante uma grande derrota do PSD, com sinais muito preocupantes para as próximas eleições legislativas: um partido que obtém 16,44% dos votos (cerca de 126 mil no total) no distrito de Lisboa não pode ter ambições de voltar ao poder no curto ou médio prazo. Esse problema específico, aliás, já tinha ficado patente nas eleições autárquicas de 2017 (resultados muito baixos, quase humilhantes, em Lisboa e no Porto), desembocando no término da liderança de Pedro Passos Coelho. E não parece ser algo momentâneo, ou conjuntural, mas um problema estrutural de erosão do eleitorado do PSD que vai muito além do mérito (ou demérito) de um qualquer líder ou cabeça-de-lista.

Coligação Democrática Unitária (CDU): É uma derrota dolorosa. Com 6,88% dos votos (cerca de 228 mil no total), a CDU cai para quase metade do resultado que conquistara em 2014, com 12,68% dos votos (cerca de 416 mil no total). Passa de três para apenas dois mandatos. Se as perdas nas eleições autárquicas de 2017 já tinham sido acentuadas para os comunistas, esta hecatombe nas europeias não pode deixar de fazer soar as campainhas de alarme na sede da rua Soeiro Pereira Gomes, dando início a um processo de reflexão sobre as vantagens (e desvantagens) do acordo de incidência parlamentar com o Governo do PS.

Partido do Centro Democrático Social – Partido Popular (CDS-PP): O CDS-PP desta vez concorreu sozinho e obteve 6,19% dos votos (cerca de 205 mil no total), mantendo apenas um eurodeputado. Na última vez em que tinha concorrido sozinho a eleições europeias, em 2009, conquistara 8,37% dos votos (cerca de 298 mil no total) e dois mandatos. Outra base de comparação poderá ser o resultado das eleições legislativas de 2011, quando alcançou 11,70% dos votos (cerca de 654 mil no total) e 24 deputados. A conclusão é incontornável: o CDS-PP acaba de sofrer uma pesada derrota.

Com a agravante de essa derrota se verificar numa altura em que o PSD tem o seu pior resultado de sempre em eleições nacionais, ao passo que novos concorrentes de centro-direita como o Aliança não chegaram sequer a 2% dos votos. A líder Assunção Cristas não esconde a ambição de catapultar o CDS-PP para o nível alcançado nas eleições autárquicas de Lisboa em 2017 (segunda posição, à frente do PSD, com 20,59% dos votos, cerca de 52 mil no total), mas com este resultado parece ter voltado à estaca zero. Ainda a tempo, talvez, de reformular a estratégia até outubro.

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