Banca, energia e academia vêem nas preocupações sustentáveis um “movimento imparável”

Num mundo crescentemente dominado pelas questões da sustentabilidade e tecnologia, a banca, setor energético e academia parecem encontrar vários pontos em comum na transição para uma realidade mais verde e de consumo equilibrado de recursos, uma tendência que a pandemia abrandou no imediato, mas colocou ainda mais na ordem do dia.

As finanças e os mercados financeiros têm de acompanhar a tendência de sustentabilidade e preocupação ambiental, sob pena de ficarem desfasados dos objetivos dos vários organismos internacionais para a próxima década e das preferências dos investidores. Esta foi uma ideia em que todos os intervenientes da conferência online “Governance 20 | 30 – O Papel das Finanças e da Tecnologia para um Mundo Mais Sustentável”, realizada esta quarta-feira no âmbito do ciclo “Sustentabilidade 20 | 30”, do Jornal de Negócios, concordaram.

“O sistema financeiro está absolutamente sensibilizado para esta realidade”, começou por assegurar Miguel Maya, presidente da comissão executiva do Millennium BCP, abordando a necessidade do apoio dos bancos à economia no processo de transição. “A banca tem um papel fundamental.”

“Temos responsabilidades acrescidas na alocação de recursos, que passa muito pelo sistema financeiro. Se este não estiver preparado para fazer uma boa triagem dos projetos e alocar o capital, que será sempre um bem escasso apesar destes milhões todos [programa de revitalização europeia], dificilmente se consegue esta transição”, continuou, referindo-se aos fundos europeus que Portugal receberá da União Europeia, cujo objetivo de neutralidade carbónica até 2050 obriga a fortes considerações sobre sustentabilidade.

“Todos os produtos financeiros que pusermos no mercado, seja capital próprio, seja dívida, sejam outros instrumentos, vão ter de, progressivamente, adotar a sustentabilidade como parte da sua identidade”, prevê Isabel Ucha, presidente executiva da Euronext Lisbon, antes de recordar a crescente preocupação dos investidores com o escrutínio e política de transparência das empresas.

“A disponibilização da informação, ou o disclosure, é muito importante”, defendeu Francisco Veloso, reitor da Imperial College Business School de Londres, salientando as diretrizes do Banco Central europeu (BCE) sobre este género de práticas, a serem divulgadas em setembro. Segundo o académico, estas permitirão ter uma noção d as implicações das emissões de dívida ao longo de toda a cadeia de valor de determinado projeto.

Também António Martins da Costa, membro do Conselho de Administração Executivo da EDP, vê na divulgação da informação um aspeto fundamental de uma cultura empresarial de sustentabilidade, como atestam os variados índices sobre a matéria dos quais faz parte a elétrica, além a sua boa performance nestes, nomeadamente o Dow Jones Sustainability Index, salienta.

“Há uma correlação muito forte entre quem leva a cabo boas práticas de ESG [Environmental, Sustainability, Governance, em português, Ambiental, Sustentabilidade, Governança] e aquilo que é o retorno e o risco das atividades em que estão envolvidas as empresas”, salientou António Martins da Costa. “Demonstra-se que quem adere a estes princípios consegue obter melhores retornos do que quem não adere”, completou.

Dívida verde veio para ficar

Um dos instrumentos financeiros que tem ganhado tração em termos de sustentabilidade é a dívida verde, as chamadas green bonds. Miguel Maya lembra que, apesar da crescente procura, o efeito nos preços poderia ser mais visível com a adequada intervenção do regulador.

“Se nos programas do BCE se compra direta, não de obrigações do Estado, mas das obrigações dos ativos privados, houver uma quota de green bonds, isso vai permitir que o preço desça. Tem de se criar os incentivos corretos para as coisas funcionarem”, sugere o presidente do BCP, que participou já com a EDP na emissão de títulos deste género.

“Já emitimos 3,7 mil milhões de euros em obrigações verdes, quer obrigações puras, quer híbridos. Tem tido uma enorme aceitação do mercado e estamos convencidos que, no longo prazo, haverá um prémio associado a estas emissões”, afirmou António Moreira da Costa.

Há ainda lugar a melhorias nos incentivos e penalizações associadas às práticas financeiras sustentáveis que devem ser afinados, defendem os conferencistas. “Quando se toma medidas não se está a ver o que vai acontecer – por isso, é preciso corrigir e afinar mecanismos”, defendeu António Moreira da Costa. Também Miguel Maya lembrou que os reguladores europeus “estão sensíveis” a estas questões, mas que tem de haver “incentivos e penalizações, mais do que deixar o espaço aos agentes para se adaptarem, porque temos em período muito curto de tempo.”

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