Banca: parceira ou concorrente das empresas?

Importa avaliar o investidor já não apenas pelo que configura em termos de capitalização, mas sobretudo pela força das suas ideias de negócio.

Em abril, os nossos principais bancos – BPI, CGD, BCP, Novo Banco e Santander – assumiram o “compromisso inequívoco de apoiar a economia portuguesa” a fazer face à crise provocada pela pandemia. Mais: a banca garantia então que, para além da agilização dos apoios públicos implementados pelo Governo, iria apresentar soluções de financiamento “da sua própria iniciativa”.

Este compromisso da banca é fundamental para a recuperação económica do país. Só voltamos a ter uma economia competitiva com um sistema bancário em que as empresas possam confiar e apoiar-se. Os bancos têm de atuar como verdadeiros parceiros de negócio – partilhando riscos, recursos e know-how com empresas viáveis e que criem valor. Desta forma, a banca estará a ajudar não só a proteger empresas e emprego neste momento difícil como a relançar a economia no pós-Covid-19.

De resto, o sistema bancário tem um papel importantíssimo no pacote de medidas do Governo para a economia, em particular no crédito bonificado e nas moratórias de crédito. Sabemos já que a primeira linha de crédito para empresas (Capitalizar), de 400 milhões de euros, esgotou no final de abril e que os bancos receberam mais de 300 mil pedidos de moratórias para pagamento de créditos, o que corresponde a 25 mil milhões de euros (10% do total do crédito concedido).

Contudo, são muitas as queixas das empresas em relação à atuação dos bancos durante a crise sanitária. O tecido empresarial tem tido dificuldades em obter financiamento de forma expedita e célere, devido ao excesso de burocracia no acesso às linhas de crédito com garantia do Estado. Há, inclusivamente, empresários que se queixam de se lhes ter sido solicitada documentação não exigida pelas regras estipuladas pelo Governo para os créditos bonificados. Mas o principal obstáculo é mesmo o elevado custo dos empréstimos, que podem chegar a taxas de juro de 4% (apesar da banca se poder financiar até -0,75% junto do BCE).

A banca portuguesa é muito justamente reconhecida como uma das mais modernas da Europa, graças à qualidade dos seus serviços. Sofreu, no entanto, um forte abalo durante a crise financeira de 2008-2009. O sistema bancário entrou então num processo de desalavancagem, que motivou uma abrupta redução dos créditos às empresas e famílias. E não obstante os esforços do BCE para capitalizar a banca europeia, as instituições financeiras nacionais foram confrontadas com problemas bastante complexos: crédito malparado, necessidades de capital, instabilidade acionista, baixa rendibilidade, descrédito público…

Percebe-se por isso alguma cautela e garantismo da banca na atribuição de crédito, até porque muitas empresas mergulharam nesta crise excessivamente endividadas. Todavia, e não querendo alinhar no ataque demagógico que certos sectores ideológicos fazem à banca, espero que o sistema bancário assuma de facto as suas responsabilidades sociais e seja menos conservador no financiamento das empresas.

Perante a emergência de uma crise económica sem precedentes, exige-se da banca abertura e criatividade para encontrar soluções financeiras adequadas ao relançamento da economia no atual contexto de quebra simultânea da oferta e da procura. Os bancos não se devem limitar a financiar as operações de investimento das empresas com base, tão-somente, nos ativos das mesmas. Importa avaliar o investidor já não apenas pelo que configura em termos de capitalização, mas sobretudo pela força das suas ideias de negócio. Isto significa que a banca deve ser parceira das empresas, ao invés de competir com elas por um recurso escasso em Portugal – o capital.

Artigo publicado originalmente na edição impressa d’ O Jornal Económico de 22 de maio.

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