Com a Fed (a Reserva Federal, o banco central dos Estados Unidos), o Banco Central Europeu (BCE), o Banco de Inglaterra (BoE), o Banco Nacional Suíço (SNB) e o Banco do Japão (BoJ) a reunirem-se com menos de 24 horas de diferença, “os decisores políticos começarão a traçar um caminho através de uma fonte indesejada de disrupção nos seus esforços para trazer a inflação de regresso à meta de forma estávele sustentada. Em princípio, estas reuniões oferecem um grau excecionalmente elevado de poder de sinalização, mas, na prática, esperamos que os cinco bancos centrais mantenham as taxas de juro inalteradas, enfatizem a cautela na resposta e comprometam-se pouco com ações futuras”, refere um ‘research’ da responsabilidade da Allianz Global Investors.
Historicamente, um choque inesperado na oferta dos preços da energia “teria sido visto pela maioria dos bancos centrais como dando uma justificação limitada para uma mudança de política. Enquanto as expectativas de inflação fossem consideradas ancoradas, o argumento seria de que um aumento temporário da inflação não poderia ser contido pelo aumento das taxas de juro sem grandes custos económicos”. As perceções de risco são, no entanto, muito diferentes após o choque inflacionista pós-Covid, quando um aumento sustentado da inflação, inicialmente subestimado pelos bancos centrais, obrigou a um aumento tardio e prolongado das taxas de juro. É uma ‘jurisprudência’ que não deixará de estar na mente dos decisores dos bancos centrais.
“Por enquanto, todos os cinco bancos centrais precisam de avaliar a escala e a duração potencial do aumento da inflação. Os EUA enfrentam talvez a situação mais desafiante. A queda da folha de pagamentos em fevereiro mostrou que o mercado de trabalho dos Estados Unidos continua fraco, sem provas de que a melhoria do ímpeto cíclico se esteja a refletir em novas contratações. Como a Fed tem um duplo mandato (tem como meta tanto a inflação como o nível máximo de emprego disponível), está exposta a riscos em ambos os sentidos”. Consequentemente, tem uma justificação muito forte para manter a taxa de juro inalterada face aos preços mais elevados da energia, enquanto recolhe mais informação. “Os mercados de taxas de juro continuam a esperar que a Fed reduza as taxas de juro este ano, embora começando mais tarde e numa proporção inferior à anteriormente esperada” – mesmo que isso venha a colidir com a vontade do presidente Donald Trump.
Na Zona Euro, “a inflação geral tem convergido para a meta, com picos ocasionais e uma dúvida persistente sobre se a inflação dos serviços irá diminuir o suficiente para que a inflação geral esteja alinhada com a meta de forma sustentada. O BCE podia dar-se ao luxo de ser paciente num ambiente de preços dos inputs estáveis, mas um aumento sustentado dos preços da energia pode desencadear o desejo de enviar um alerta aos definidores de salários para garantir que o caminho de regresso à meta não esteja sujeito a um longo desvio”. Os mercados de taxas de juro veem este risco como material, com a possibilidade de um aumento de 25 pontos base na taxa após o verão.
No Reino Unido, a inflação parecia estar à beira de uma forte descida de regresso à meta, dadas as alterações nos preços administrados anunciadas pelo governo no Orçamento do ano passado. “O Reino Unido é altamente sensível aos preços do gás importado, o que, combinado com o seu historial de inflação acima do objetivo desde a pandemia, o torna particularmente vulnerável. A política monetária é ainda restritiva e o desemprego tem vindo a aumentar há mais de dois anos; portanto, ao contrário do BCE, a probabilidade de novos aumentos das taxas de juro parece ser baixa. No entanto, os mercados perderam a confiança nos dois cortes de juros que eram esperados para este ano”.
Os desafios do Banco Nacional Suíço (SNB) são distintos dos de todos os outros bancos centrais. “A inflação suíça tem estado perto do limite inferior da meta, enquanto o franco suíço tem apresentado tanta procura como moeda de refúgio que as preocupações com um choque inflacionista estão muito abaixo na lista de prioridades. Da mesma forma, a previsão de um aumento da inflação energética torna menos prováveis cenários políticos extremos, como o regresso a taxas de juro negativas”.
Por fim, o Banco do Japão (BoJ) era o mais próximo de aumentar as taxas de juro. “Embora um impulso na inflação possa ser visto como uma justificação maior para um aumento da taxa, o BoJ tem reagido com muita cautela perante choques, temendo que a economia real perca fôlego e, por conseguinte, comprometa o alcance da meta de inflação de forma sustentada. Pode argumentar-se que o BoJ tem menos justificações para adiar o aumento na próxima semana, mas a oposição política aos aumentos das taxas de juro – que cresceu com a enorme vitória da primeira-ministra nas eleições de há poucas semanas – é uma restrição adicional para o banco central, pelo que uma pausa também parece provável”.
A incerteza em torno do impacto final do conflito no Médio Oriente nos preços da energia e na duração da perturbação irá provavelmente estender-se para além da Páscoa. “Assim, as declarações de política monetária divulgadas na próxima semana provavelmente não indicarão imediatamente para onde as taxas de juro se dirigirão, mas revelarão como cada banco central está a avaliar os novos riscos, que confiança ainda mantêm nas suas previsões anteriores e quão dispostos estão a manter a taxa face à perturbação geopolítica. Embora não seja um antídoto, um fator reconfortante para os investidores face a esta incerteza reside no leque de choques que os mercados têm ultrapassado com sucesso nos últimos três anos”.
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