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Bancos estão despreocupados com novas contas de investimento

Comissão Europeia recomendou aos Estados-membros no final de setembro que adotem contas de investimento de fácil acesso, com incentivos fiscais e a partir de apenas 10 euros. A que ponto terá impacto nas remunerações de poupanças tradicionais? Os bancos sinalizam ao Jornal Económico que não é uma preocupação. E aguardam decisão do Governo.
1 Novembro 2025, 17h00

Quando Maria Luís Albuquerque, comissária europeia para os Serviços Financeiros, apresentou a ideia de os Estados-membros terem contas de investimento “descomplicadas” e baratas, saltou à vista que a banca não estaria sozinha na gestão desses novos fluxos financeiros.

A iniciativa, que pode ou não ser seguida pelos Estados-membros, visa levar os europeus a colocarem o dinheiro de depósitos em produtos mais rentáveis, prevendo que haja vários prestadores de serviços financeiros autorizados, incluindo sociedades de investimento.

Estabelece ainda que as contas devem ser “simples, fiáveis e de fácil acesso para os utilizadores”; que deve haver incentivos fiscais “simples e bem dirigidos”; e que os pequenos investidores devem poder abrir várias contas, sem nunca suportarem comissões excessivas.

Medidas que, segundo Vinay Pranjivan, economista da DECO, “podem incentivar os bancos a remunerar melhor os depósitos a prazo para evitar que as pessoas saiam”. Os bancos podem ainda ser levados “a criar produtos para reter esses valores”, porque “apesar de se referir que em Portugal há um excesso de liquidez, não é do interesse dos bancos uma fuga dos depósitos”, observou Vinay Pranjivan em declarações ao Jornal Económico (JE).

Para o economista João Duque, no entanto, esse excesso de liquidez será suficiente para evitar uma reação. “Faria sentido [essa reação] se fosse em quantidade significativa e afetasse dois ou três players que começassem a ter dificuldade em cumprir rácios de liquidez”, nota o presidente do ISEG. “Mas não estou a ver isso acontecer, porque a liquidez do sistema financeiro é muito boa”.

O JE pediu, por isso, um comentário aos principais bancos nacionais. Vão ou não tentar segurar os clientes com melhores remunerações se Portugal seguir a recomendação de Maria Luís Albuquerque?

“Nós não seguramos clientes no BCP”, responde o CEO Miguel Maya. “Empenhamo-nos por conquistar e merecer a sua preferência e é isso que continuaremos a fazer”, acrescentou o líder do maior banco privado português, para quem “todos os produtos são bem-vindos”. Apesar de não responder diretamente sobre um potencial impacto nos depósitos, Miguel Maya realça que o banco vive bem com a concorrência: “É algo que nos leva a procurar inovar permanentemente para servir melhor os clientes”, sublinha o gestor.

Tal como no BCP, a reação de outros bancos é, para já, de satisfação com a medida, não havendo expectativa de que a iniciativa europeia tenha impacto nos depósitos.

“Não consideramos que exista qualquer relação que possa ser estabelecida entre este projeto da União Europeia e o nível da remuneração dos depósitos”, responde João Paixão Moreira, administrador do Novobanco com pelouro do retalho comercial. “Estes últimos dependem, fundamentalmente, do nível de taxas de juro que são praticadas, em cada momento, no mercado interbancário (Euribor, Libor). A nosso ver as contas de investimentos e os depósitos a prazo não são produtos que se substituam uns aos outros”, acrescentou.

Também a Caixa Geral de Depósitos (CGD), por via de fonte oficial, desvaloriza a questão, lembrando que “a evolução dos depósitos e da sua remuneração irá continuar a depender de diversas variáveis, designadamente da taxa de poupança e da evolução das taxas de juro de mercado”.

João Paixão Moreira acrescenta que vê “com bons olhos as políticas que levam à dinamização do mercado de capitais e à diversificação de produtos de poupança e investimento” e que, portanto, “não se deverá recear qualquer substituição de depósitos a prazo”. O Chief Commercial Officer Retail do Novobanco vai ainda mais longe, sublinhando que “esta iniciativa é extremamente importante para a captação significativa de capital para as empresas”, dinamizando o mercado de capitais europeu e “beneficiando ao mesmo tempo os pequenos aforradores”. Para João Paixão Moreira, este instrumento pode contribuir “para estancar quer o declínio económico-financeiro europeu, quer o caminho de empobrecimento dos seus cidadãos aforradores”.

Do mesmo modo, a Caixa Geral de Depósitos defende que “a promoção da poupança de longo prazo é um bom princípio e que a diversificação de opções de investimento é fundamental para mitigação do risco” de quem poupa.

Bancos aguardam decisões
Em todo o caso, apesar de Maria Luís Albuquerque prometer pressão sobre os Estados-membros, ainda não é certo que a medida seja adotada em Portugal. E a banca fica à espera de uma definição.

O banco público “aguarda as decisões do Governo relativas a estas recomendações, em particular no que respeita aos incentivos fiscais e à simplificação dos respetivos processos, reiterando o seu compromisso com a promoção da poupança de longo prazo, facilitação do acesso ao mercado de capitais e melhoria da literacia financeira dos portugueses”, refere fonte oficial do banco liderado por Paulo Macedo.

Também João Paixão Moreira constata que “a adoção destas novas soluções de investimento dependerá das regras que venham a ser estabelecidas” e realça que “podem implicar custos de adaptação por parte dos bancos”.

O Chief Commercial Officer Retail do Novobanco avisa que “um dos pilares de sucesso assenta, por exemplo, num regime fiscal favorável e comparável, pelo menos, ao regime fiscal dos produtos de aforro de prazo mais longo ou destinados à reforma”.

O Jornal Económico tentou também obter uma resposta do BPI, mas o banco prefere não comentar.

 


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