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Banqueiros alertam empresas para serem mais flexíveis nas suas cadeias de abastecimento

No painel “Banca: e depois do ano de ouro, como se cresce?” do Fórum Banca 2026, que decorreu hoje no Hotel Ritz, Paulo Macedo, CEO da CGD; Miguel Maya, CEO do BCP; Isabel Guerreiro, CEO do Santander; João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI; Sérgio Frade, CEO do Crédito Agrícola; Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio começaram por responder ao impacto da geopolítica na atividade dos bancos e das empresas e todos foram relativamente prudentes nas análises, dizendo que a banca está preparada. Mas recomendam às empresas suas clientes para flexibilizar as cadeias de abastecimento.
10 Março 2026, 10h49

No painel “Banca: e depois do ano de ouro, como se cresce?” do Fórum Banca 2026, que decorreu hoje no Hotel Ritz, Paulo Macedo, CEO da CGD; Miguel Maya, CEO do BCP; Isabel Guerreiro, CEO do Santander; João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI; Sérgio Frade, CEO do Crédito Agrícola; Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio começaram por responder ao impacto da geopolítica na atividade dos bancos e das empresas e todos foram relativamente prudentes nas análises, dizendo que a banca está preparada. Mas recomendam às empresas suas clientes para flexibilizar as cadeias de abastecimento.

“Maiores custos de transportes, maiores preços de petróleo, são o primeiro impacto. Depois há um segundo impacto que é a subida da inflação, depois temos de ver se é momentânea ou não, e se vai ser ou não refletida no preços dos consumidores”, defendeu Paulo Macedo, lembrando que o impacto nas cadeias de abastecimento é outro efeito que tem de ser levado em conta e reforça a importância do near-shoring.

“As empresas devem rever as cadeias de abastecimento”, defendeu o banqueiro perante os recentes problemas no Estreito de Ormuz.

Paulo Macedo diz que o mercado já absorveu alguma desta incerteza. Portanto, defende: “não vejo uma situação catastrófica, vejo uma situação preocupante”, disse o banqueiro que rejeita alterar o plano estratégico da CGD.

Miguel Maya, na mesma linha falou do “novo normal a que todos temos de estar preparados”. Todos “temos de estar preparado para mais instabilidade, passámos do just in time para o just in case”. O CEO do BCP diz que os agentes económicos não podem esperar por estabilidade para tomar decisões”.

O CEO diz que a análise de risco não se altera mas os factores que ponderam a decisão altera-se e os bancos têm de trabalhar com mais capital para os múltiplos cenários. “Os ciclos já não são de 5 ou 10 anos, às vezes são dentro do mesmo ano”, disse Miguel Maya.

Isabel Guerreiro disse que o tempos que correm são “voláteis, incertos e ambíguos”. A CEO do Santander Totta alertou para, no contexto da geopolítica, é preciso separar o que é ruído do que são mesmo sinais”. Disse ainda que se o fecho do Estreito de Ormuz se mantiver por três meses haverá consequências para a economia. “Mas estamos preparados para atuar”, disse.

O CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, disse que a “o contexto que projetamos para 2026 alterou-se substancialmente”.

“Estamos a viver uma sistemática alteração das condições à nossa volta e por isso qualquer um que diga alguma coisa arrisca-se a acertar”, disse o banqueiro lembrando que o que conhecíamos como um mundo relativamente estável em termos geopolíticos alterou-se desde a guerra da Ucrânia”.

Considera que o contexto geopolítico é um “wake-up call para a Europa que ainda definiu a sua missão” e lembrou o tema da simplificação regulatória muito anunciada e pouco concretizada. “Até agora ainda não vi nada em concreto na simplificação”, disse.

Os impactos são inevitáveis, sublinhou. “Não é possível, depois do que aconteceu agora nas últimas duas semanas, que vamos ter o mesmo ano que tínhamos projetado”.

O CEO do BPI disse no entanto que é muito difícil antecipar o que está a acontecer. “Há claramente um impacto nos preços da energia, há um impacto na circulação de bens  e no turismo”, o que “até pode beneficiar Portugal”, referiu

Sérgio Frade, CEO do Crédito Agrícola, diz que “temos que estar continuamente a rever estratégia, temos de ser mais ágeis, mais resilientes para nos adaptarmos a estas mudanças e desafiamos os nossos clientes a fazerem o mesmo”. O CEO do Grupo CA defende que as empresas devem adaptar as suas cadeias de abastecimento para continuarem a funcionar e recomenda “procurarem formas, nomeadamente do setor agrícola, mas não só, serem mais resilientes, serem mais adaptáveis, terem flexibilidade nas suas cadeias de abastecimento, de forma a que, perante catástrofes, perante riscos como os que estamos a viver, em termos de geopolítica, continuarem a funcionar”. 

“O mundo está de facto a mudar”, sublinhou.  

Por fim, Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio, disse que perante a incerteza e a velocidade dos acontecimentos geopolíticos “a incerteza está morta”. O banqueiro defendeu o acesso à informação de qualidade, Sem informação de qualidade não é possível tomar boas decisões”.

O CEO do banco da Associação Mutualista diz que é preciso que “a agilidade [das empresas e dos bancos] se materialize”. No caso da banca referindo-se à mobilização e à capacidade de “tomarmos decisões de crédito” ou de “tomarmos decisões sobre oportunidades de funding”  com a finalidade de a banca “ser mais criteriosas e mais rigorosa”, no atual contexto.

O CEO do Banco Montepio lembrou que ontem os analistas, perante a guerra do Irão, “apontaram logo para um subida dos juros do BCE e isso enviou sinais para o mercado e para os bancos”. O que o banqueiro considerou uma reação intempestiva.

Banqueiros respondem ao Ministro da Economia

Antes o Ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, no mesmo Fórum, alertou os bancos para uma “situação anómala” no crédito às empresas e avisou que o “excesso de prudência” poderia atrasar o crescimento da economia.

Os bancos têm mais depósitos das empresas do que créditos dessas mesmas empresas, uma “situação anómala que acontece pela primeira vez em 45 anos”, critica o ministro da Economia e Coesão Territorial.

O Ministro disse mesmo que “as empresas queixam-se de uma excessiva retração do sistema financeiro nas suas análises de crédito, mesmo quando o Estado está disponível para garantir 80% do valor do empréstimo através do Banco de Fomento”.

“A garantia de Estado tem de gerar um efeito de alavancagem da atividade das empresas e não servir como um amortecedor do risco dos bancos. E muito menos pode servir para garantir créditos sem garantia do Estado para uma linha com garantia sem qualquer incremento no volume de crédito. Da mesma forma que é saudável a preocupação de continuar a reduzir percentagem de NPL, também é certo que o excesso de prudência atrasa o crescimento económico”, adiantou o Ministro.

Os banqueiros contestaram o ministro Manuel Castro Almeida dizendo que “o problema está do lado da procura” por parte das empresas.

“Há um conjunto de empresas que têm uma liquidez sem paralelo e  há um conjunto de empresas que desalavancou“, disse Paulo Macedo, CEO da CGD, para explicar porque é que as empresas têm um volume de depósitos superior ao crédito nos bancos. 

O Ministro da Economia tinha destacado o que chamou de “marca negativa” da banca nacional: “É que o valor dos depósitos das empresas nos bancos é superior ao valor dos empréstimos dos bancos às empresas. É a primeira vez que tal acontece nos últimos 45 anos e é uma situação anómala que obriga a ponderação”. Antes Castro Almeida tinha destacado a capitalização sólida dos bancos e o baixo nível de incumprimento do crédito. “A banca deixou de ser um problema” e passou a ser um ativo estratégico de Portugal, tal como também são as “contas públicas equilibradas”, o desemprego baixo e um ritmo de crescimento económico que “é superior à média europeia”.

O presidente da CGD respondeu ao Ministro lembrando que o banco tem aprovado e não contratado 45 mil milhões de euros  para as empresas (que as empresas podem usar quando quiserem) e defendeu que para o crédito crescer é preciso que a economia cresça.

“Temos 90 mil milhões disponíveis para contratar com as empresas”, disse Paulo Macedo.

Paulo Macedo lembrou ainda que “o rácio de loan-to-depósits está sistematicamente a aumentar desde que a banca limpou o malparado e teve de vender um conjunto de créditos”.

Todos os bancos têm nos planos o aumento de produção de crédito e aumentos de quota de mercado, começou por dizer Paulo Macedo que reforçou que a CGD mantém o plano estratégico que inclui crescer no crédito a empresas. “Nós crescemos a dois dígitos no setor agrícola, no setor da construção, crescemos a dois dígitos em todos os setores”.

“O que eu vejo é uma concorrência enorme, não só com o crédito à habitação, como no crédito a empresas”, frisou o banqueiro adiantando que “todos os bancos que estão aqui presentes têm perspectivas de aumento de produção do crédito”, referiu o CEO da Caixa.

“A banca está muito bem capitalizada e com muita liquidez, mas tem de haver maior ambição de crescimento económico que tem de ser traduzido em políticas de apoio ao desenvolvimento empresarial”, disse, por sua vez, Miguel Maya, CEO do BCP, que lembrou ainda que o banco tem um rácio de transformação abaixo de 70%. “Onde eu gostaria de estar era nos 90% a 95%. O que dá dinheiro à conta de exploração do banco é dar crédito. O incentivo é conceder crédito mesmo assumindo algum risco”, disse o CEO do BCP.

Com tanta liquidez o normal é haver tentação da banca para assumir risco, frisou o banqueiro.

“O problema está do lado da procura. Porque é que não há investimento? Porque é que as empresas estão seis meses à espera de um licenciamento para uma fábrica?”, referiu Miguel Maya que defende que em Portugal tem de “haver maior ambição de crescimento económico” e “pede políticas de apoio ao desenvolvimento empresarial”.

O banqueiro disse mesmo “se estamos a pensar que com uma garantia a 80% não há risco estamos a cometer um erro e a dar um mau conselho ao cliente. Se vamos emprestar a quem não tem capacidade de pagar estamos a adiar um problema para a empresa e a importar um problema para o banco”.

Isabel Guerreiro realçou que, ao contrário dos outros banco, o rácio de transformação no Santander Totta é superior a 100%, ou seja dão mais crédito do que recebem de depósitos. Lembrou que em Portugal o crédito a empresas tem dos spreads mais baixo na comparação europeia.

“O tema é o incentivo há procura. Essa procura não acontece com a intensidade que todos gostaríamos que acontecesse. Algumas empresas não sentem essa necessidade”, sublinhou.

“Por mais que os bancos tenham linhas de crédito aprovadas por mais que haja liquidez, se as próprias empresas, e se a economia não crescer não vale a pena ter mais liquidez, tem de haver maior taxa de crescimento económico”, disse Sérgio Frade.

João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, na resposta à intervenção do Ministro da Economia, Manuel Castro Almeida lembrou o papel dos bancos no Covid, nomeadamente nas moratórias, que voltaram agora a ser chamadas para os concelhos afetados pelas tempestades. “Fico sempre um bocado preocupado quando se começa a apontar para uma área onde é fácil bater”, disse o CEO do BPI.

“Os bancos não emprestam o seu dinheiro. O dinheiro é dos depositantes”, disse. 

Em resposta ao Ministro, o CEO do BPI disse, que “proporcionámos que os portugueses tenham casa. Não foram construídas mais casas quando elas deviam ter sido construídas. Não existe o mercado de arrendamento. Não é fácil obter licenças para a construção. Os impostos são pesados. Há muita coisa para fazer”.

“O Banco de Fomento tem claramente ajudado”, defendeu o presidente do BPI. No entanto acrescentou que “eu tenho a expetativa que nós todos tenhamos aprovado bem o dinheiro que o Estado está a dar de garantia às empresas.  Se não vamos pagar todos a grande operacionalidade do Banco de Fomento com juros e com tudo o que a gente não gosta”, disse o CEO do BPI.

A análise de risco é nossa”, frisou o banqueiro questionado sobre os empréstimos dados com garantia operacionalizada pelo Banco de Fomento. “Nós temos uma grande responsabilidade, não só perante os nossos depositantes como também em relação à forma como estamos a fazer esses créditos com garantia, para garantir que os créditos sejam aprovados para boas empresas, com projetos, com planos”.

“Tendo em conta a desalavancagem de famílias e empresas, é natural que os balanços dos bancos reflitam toda a economia, o Crédito Agrícola tem um rácio de transformação de 57%. Todos gostaríamos de conceder mais crédito“, disse Sérgio Frade que revelou ainda que atualmente apenas 10% do credito é à agricultura. O Grupo CA revela dois terços  do crédito são a empresas.

Por seu turno, Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio refutou “completamente a questão dos bancos não estarem disponíveis para conceder crédito”.

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