BCE relança compra líquida de ativos: 20 mil milhões por mês a partir de novembro

Draghi tinha acenado e cumpriu: o BCE tem novas medidas de estímulo. Além do reinício da compra de dívida, anunciou um corte de 10 pontos base na taxa de depósito para -0,50% e medidas de mitigação do impacto na banca. O ‘forward guidance’ também foi alterado para sinalizar que as taxas vão continuar baixas por mais tempo.

Bancos Centrais

O Banco Central Europeu anunciou esta quinta-feira que vai reiniciar a compra líquida de ativos em novembro, com a aquisição de dívida no valor de 20 mil milhões de euros por mês durante o período em que for necessário.

“O Conselho de Governadores espera que a compra líquida de ativos dure o tempo que for necessário para reforçar o impacto acomodatício das taxas, e termine pouco antes de uma subida das taxas”, referiu o BCE, em comunicado.

Numa sondagem conduzida pela Bloomberg na semana passada, o consenso dos analistas apontava para um programa com compra de 30 mil milhões por mês a partir de outubro e durante um ano.

O banco central liderado por Mario Draghi anunciou ainda um corte de 10 pontos base na taxa de depósito, para -0,50%.

A taxa de juro diretora na zona euro permanece em 0% e a taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez fica em 0,25%.

No entanto, o BCE alterou, conforme esperado e sinalizado, o forward guidance em relação às taxas de juro. Enquanto até agora o banco central indicava uma data específica (que na última reunião tinha sido apontada para o final da primeira metade de 2020) para assinalar até quando iria manter as taxas em níveis atuais, ou até inferiores, a partir de agora esse calendário em aberto.

“O Conselho de Governadores espera agora que as principais taxas de juro permaneçam nos níveis atuais ou mais baixas até ver o outlook da inflação a convergir de forma robusta para um nível suficientemente perto, mas abaixo de, 2% dentro do horizonte da projeção e que essa convergência seja consistentemente refletida nas dinâmicas de inflação”, explicou.

O BCE anunciou ainda que as modalidades da nova série de empréstimos baratos à banca (TLTRO III) serão alterados para preservar condições favoráveis para o financiamento bancário. A taxa de juro em cada operação será agora estabelecida ao nível da taxa média nas operações de refinanciamento do eurosistema. Para banco cujos empréstimos líquidos elegíveis excedam o benchmark, a taxa será mais baixa.

Para apoiar a transmissão da política monetária, será introduzido um sistema de dois patamares para a remuneração das reservas, no qual parte da liquidez dos bancos será isenta da taxa negativa.

Os efeitos da decisão do BCE já se estão a fazer sentir nos mercados, nomeadamente no mercado secundário de compra de dívida soberana. Às 12h40, cinco minutos antes da publicação do comunicado do banco central, as yields da dívida alemã a dez anos estavam nos 0,576%, tendo depois descido para -0,642%. A dívida portuguesa a dez anos também seguiu esta tendência, com as yields a caírem de 0,243% para 0,158%.

Os analistas do ING referiram que a decisão hoje anunciada corresponde ao último whatever it takes (tudo o que for necessário) Mario Draghi, numa alusão à célebre expressão em 2012 pelo italiano durante a crise do euro.

O ING alertou que, “apesar de toda a excitação do mercado”, permanece a questão de saber se as medidas anunciadas serão suficientes para impulsionar o crescimento económico e colocar a taxa da inflação no curso correto (próxima, mas abaixo dos 2%), pois o elefante na sala é política orçamental”.

“Sem estímulos orçamentais, o último golpe de Draghi não chegará necessariamente a bom porto”, concluiu.

Na conferência de imprensa, Mario Draghi realçou que “os governos com folga orçamental deveriam atuar de forma eficaz e atempada”. Já em relação aos governos dos países da zona euro com elevada dívida pública, o ainda presidente do BCE disse “devem seguir políticas prudentes que criem condições para os estabilizadores [económicos] atuarem livremente”.

[Atualizada às 13h40]

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