Bernard-Henri Lévy: “As redes sociais metem as nossas memórias num ‘offshore'”

Filósofo francês disse ao Jornal Económico que está rendido, mas não convencido, às redes sociais. Sobretudo por considerar que fazem com que todas as opiniões sejam válidas e equivalentes.

Cristina Bernardo

O filósofo Bernard-Henri Lévy, que vem a Lisboa a 6 de maio para apresentar o seu monólogo “Looking for Europe”, com a qual pretende travar o avanço das forças populistas nas eleições para o Parlamento Europeu, falou com o Jornal Económico acerca do que se passa num continente em que Portugal é um dos poucos oásis que vislumbra. Mas também de outras tendências que o preocupam.

Está presente nas redes sociais. O que pensa delas?

Estou nas redes sociais porque não posso fazer outra coisa. Existem e fazem parte do arsenal de que uma pessoa com convicções pode tirar partido.

Muitas pessoas acreditam que as redes embrutecem o discurso público.

Não necessariamente. Podemos dizer coisas inteligentes em 140 caracteres. Os japoneses praticam a arte do haiku. O problema das redes sociais é que todas as palavras têm o mesmo valor. Confundimos o direito de todos a exprimirem-se com revisionismo. Existe a ideia de que a palavra de um criminoso tem o mesmo valor da palavra de uma vítima, que a palavra de um nazi tem o mesmo valor que a palavra de um antinazi, que a palavra de alguém que passou toda a vida a refletir sobre um assunto tem o mesmo valor do que a palavra de alguém que nunca o fez. Isso é que me perturba nas redes sociais: a equivalência entre todas as palavras.

Imagina-se com 18 anos se já existissem redes sociais?

Teria menos memórias do que aquelas que tenho. Outro dos problemas das redes sociais – e explico-o em “Looking for Europe” – é que metem as nossas memórias num “offshore”. A memória é retirada da cabeça, é colocada aqui dentro e fica no bolso [enquanto o diz, retira do bolso o telemóvel], e chegará o dia em que ficaremos como aquele religioso francês São Dionísio, do século III, que foi decapitado mas continuava a subir a colina com a cabeça nos braços. Em vez de carregarmos a cabeça nos braços teremos a memórias nos bolsos. Se tivesse redes sociais aos 18 anos teria menos memórias, mas talvez soubesse mais coisas. A vantagem das redes sociais é o acesso ao conhecimento.

Muitos jovens preferem os emojis às palavras. É possível filosofar com emojis?

Não.

Trata-se de um regresso aos hieróglifos?

Os hieróglifos eram uma escrita de sábios. É, em vez disso, o regresso a uma linguagem desarticulada, simplificada ao extremo. Talvez me engane, talvez chegue o momento em que faremos frases tão complexas, tão poéticas e tão enigmáticas com emojis do que com as palavras. Mas duvido.

É preciso educar quem os utiliza?

É sobretudo preciso tentar convencê-los da maravilha que é escrever, a que ponto alguém que escreve vê o mundo de forma diferente.

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