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Bolsa da Alemanha pujante numa economia que se encontra anémica

A vertente internacional das empresas que compõem o DAX tem permitido ao índice alemão ‘desligar-se’ daquilo que vai acontecendo com a economia do país. A política monetária e os múltiplos muito mais baixos apresentados pela bolsa da Alemanha face aos norte-americanos são outros fatores que explicam a sua boa performance, face à economia alemã, referem os especialistas consultados pelo JE.
2 Fevereiro 2026, 07h00

A maior economia europeia tem apresentado desde que rebentou a pandemia da Covid-19, em 2020, um desempenho anémico. Contudo o seu mercado bolsista tem estado em grande alta. Este contraste de desempenhos deve-se a vários fatores como explicam os especialistas consultados pelo Jornal Económico (JE).

Entre os principais motivos encontra-se a natureza das empresas que compõem o DAX, que permite ao mercado bolsista ‘desligar-se’ daquilo que vai acontecendo com a economia do país, face à sua forte vertente internacional. A política monetária e os múltiplos muito mais baixos apresentados pelo DAX face aos índices norte-americanos justificam a boa saúde da bolsa alemã.

O contraste entre a economia alemã e o desempenho do seu índice bolsista entre 2020 e 2025 traduz-se nos seguintes números:

Performance Economia da Alemanha Índice Bolsista (DAX)
2020 -5% +3,5%
2021 +2,7% +15,8%
2022 +1,9% -12,3%
2023 -0,3% +20,3%
2024 -0,2% +18%
2025 +0,2% +23%

“O desempenho da bolsa alemã desde a pré-pandemia contrasta fortemente com a realidade económica interna, que tem estado praticamente estagnada. Esta divergência não é fruto da força doméstica, mas da natureza global das empresas que compõem o índice DAX40. Apenas aproximadamente 20% das receitas destas cotadas provêm da Alemanha, enquanto a maior parte é gerada em mercados internacionais: 25% no resto da Europa, 25% na América do Norte, 16% na Ásia-Pacífico e o restante em regiões emergentes. Esta diversificação geográfica permitiu que as empresas beneficiassem do crescimento global, mesmo quando a economia alemã enfrentava maiores dificuldades”, explica o head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz.

O analista da ActivTrades, Henrique Valente, salienta que o DAX é composto por grandes empresas multinacionais, cuja maior parte das receitas é gerada fora da Alemanha. “Assim, o desempenho do índice está muito mais ligado ao crescimento global, do que à evolução do PIB alemão”, refere o analista.

A divergência entre a bolsa alemã e a economia germânica também se deve à performance extraordinária de setores específicos, explica João Queiroz.

“Empresas ligadas à defesa, como a Rheinmetall, e à transição energética, como a Siemens Energy, registaram valorizações impressionantes impulsionadas por fatores geopolíticos e pela procura por soluções energéticas sustentáveis. Adicionalmente, os Bancos, como Commerzbank e Deutsche Bank, aproveitaram a normalização monetária e a subida das taxas de juro quando a inflação ainda constituía um desafio, reforçando os seus resultados e atraindo os investidores”, detalha o head of trading do Banco Carregosa.

O mesmo é assinalado por Henrique Valente. “Nos últimos anos, a valorização do índice tem sido sustentada sobretudo pelos setores da tecnologia e da defesa, bem como pelo setor automóvel, com destaque para os segmentos premium e para a transição para a mobilidade elétrica, que têm beneficiado de tendências estruturais globais e de uma procura internacional resiliente”, adianta o analista da ActivTrades.

Outro fator que tem beneficiado o mercado bolsista alemão está ligado à política monetária internacional. João Queiroz refere que este fator tem tido “um papel crucial” na performance do DAX. “As expectativas de cortes agressivos nas taxas de juros da FED norte-americana e a possibilidade de suspensão das vendas de ativos criaram um ambiente favorável para ativos de risco”, explica o head of trading do Banco Carregosa.

“As políticas monetárias expansionistas adotadas durante a pandemia inundaram os mercados de liquidez, estimulando a procura por ativos escassos, como ações, commodities e imobiliário”, acrescenta Henrique Valente.

A isto juntam-se mais dois fatores. João Queiroz refere que as yields das obrigações alemãs (exemplo: Bund a 10 anos com YTM de 2,85%) “mantiveram-se pouco atrativos” face ao dividend yield do DAX40 no final de 2025 (2,3%), o que permitiu “incentivar e estimular” a alocação em ações.

O outro fator que favoreceu o mercado bolsista alemã esteve ligado aos seus múltiplos.

João Queiroz salienta que a valorização da bolsa germânica é também explicada pelos “múltiplos ainda razoáveis (P/E de 17,5x vs. 25 X’s do S&P500)” e também por fluxos globais direcionados para ações europeias, num contexto de procura por “diversificação e exposição” a setores industriais robustos.

“A ligeira melhoria nas expectativas industriais e de exportação, sinalizada pelo Bundesbank, reforçou a confiança dos investidores, alimentando a narrativa de recuperação futura. O rally do DAX40 não reflete única e exclusivamente a força da economia alemã, mas antes a combinação de globalização das receitas, ganhos setoriais extraordinários, condições financeiras favoráveis e expectativas moderadas de crescimento”, acrescenta o head of trading do Banco Carregosa.


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