Bolsas continuam a subir em 2020, mas a um ritmo mais lento

Menor incerteza internacional deverá impulsionar os mercados acionistas, com a ajuda dos bancos centrais. Por outro lado, mercado da dívida soberana continua pouco atrativo para os investidores.

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A incerteza que marcou os mercados em 2019 está mais ténue, mas não desapareceu. Apesar dos avanços nas negociações entre os Estados Unidos e a China e do fim do impasse no Reino Unido para o Brexit, o abrandamento da economia global continuará a afetar o sentimento dos investidores este ano, com a política monetária a ter um papel preponderante no desempenho dos mercados.

Depois dos três principais índices norte-americanos terem disparado mais de 20% em 2019, a expetativa dos analistas é que em ano de presidenciais em terras do Tio Sam, a Bolsa de Nova Iorque continue a subir, mas a um ritmo mais lento.

“É nosso entendimento que as ações norte-americanas continuarão a outperformance dos últimos anos face às europeias, como por exemplo o Reino Unido”, explica ao Jornal Económico a Sixty Degrees, sociedade gestora do fundo mobiliário Sixty Degreees PPR/OICVM Flexível, criado por seis antigos ex-gestores do BPI.

A gestora de ativos antecipa que os resultados das empresas americanas possam voltar a subir este ano, impulsionadas quer pelo avanço das negociações entre os Estados Unidos e a China, quer pelos cortes de taxas de juro realizados pela Reserva Federal norte-americana (Fed) no ano passado.

Esta quarta-feira, os Estados Unidos e a China assinaram um acordo parcial depois de dois anos de guerra comercial, prometendo a segunda fase do acordo para 2021. Apesar daquele reduzir as tesões entre as duas maiores economias mundiais, ao remover algumas das sanções dos Estados Unidos à China, que se compromete a aumentar a compra de bens agrícolas e norte-americanos, os analistas mostram-se cautelosos sobre a estabilidade das relações entre as duas administrações.

“A incerteza gerada pela natureza estrutural das tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China, mas também entre os Estados Unidos e a União Europeia podem continuar a ter impacto no outlook do investimento”, explica Mathilde Lemoine, economista-chefe do grupo francês Edmond de Rothschild, no “Macroeconomic Forecasts 2020-2021”.

O grupo projeta que a China deverá crescer 6% em 2020, com o crescimento das exportações chinesas a desacelerar, enquanto a economia norte-americana deverá expandir 1,6%.

No entanto, a Sixty Degrees espera que, por outro lado, a continuação dos fluxos internacionais de capitais para a economia americana, irá traduzir-se numa valorização do dólar e do mercado acionista.

“Já na Zona Euro, antevemos que o crescimento seja lento e aquém das restantes economias avançadas. A política monetária do Banco Central Europeu (BCE), que será revista este ano, poderá evitar a recessão, mas continuará a falhar na reativação de um ritmo vigoroso de crescimento económico”, explica a gestora de ativos.

“As taxas de juro negativas não estão a funcionar como estímulo económico e a ausência de confiança no futuro deverá continuar a impedir a canalização da massa monetária criada pelo BCE para o setor privado e para o consumidor”, acrescenta.

 

Mercado da dívida soberana continua pouco atrativo
Com a ameaça de uma recessão a pairar no ano passado, os pacotes de estímulos implementados pelos bancos centrais marcaram as praças financeiras em 2019. Para este ano, não se esperam novos cortes das taxas de juro diretoras quer pela Fed, quer pelo BCE, mas o impacto da política monetária mais dovish continuará a fazer-se sentir. Por outro lado, o mercado da dívida soberana deverá manter-se pouco atrativo para os investidores.

“Em resultado das taxas de juro historicamente baixas e com retornos esperados próximos de zero, consideramos esta classe de ativos pouco atrativa”, refere a Sixty Degrees.

No final de julho do ano passado, a Fed cortou a taxa de juro diretora em 25 pontos base pela primeira vez desde 2008, marcando uma viragem na normalização da política monetária levada a cabo pelo banco central desde 2015. O desacelerar do crescimento económico mundial, o impacto da guerra comercial, a incerteza internacional e a ténue inflação levaram o banco presidido por Jerome Powell a cortar três vezes a taxa de juro diretora na totalidade do ano, com novas descidas em setembro e outubro. Apesar das pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo o dot plot – mapa de pontos que mostra as previsões das taxas de juro feitas pelos membros do FOMC – da última reunião da Fed, em dezembro, 13 dos 17 membros não veem alterações nas taxas de juro até ao final de 2020, enquanto os restantes quatro preveem apenas uma subida de 25 pontos base.

Paralelamente, também é expetável que o BCE mantenha as taxas de juro inalteradas este ano, com a entidade presidida por Christine Lagarde a sinalizar também uma ‘pausa’ nos cortes.

“Isso faz eco do nosso pedido de maior coordenação entre decisores [de política monetária] e orçamentais para lidar com a próxima desaceleração”, refere a BlackRock no outlook para este ano – apesar de não anteciparem que tal aconteça em 2020.

Neste cenário, os ganhos para os investidores continuarão residuais. “Entre os países que ainda mantêm taxas de juro positivas, os Estados Unidos, com uma taxa de juro a um ano de cerca de 1,5% e a 10 anos de cerca de 1,85%, parece-nos o mais interessante”, explica a Sixty Degrees, realçando que a inflação estável e a característica de ativo de refúgio ajudam nesta perspetiva.

“No mercado europeu, devido às taxas de juro atuais, a dívida soberana tem vindo a perder a sua atratividade como ativo de refúgio para fazer face a eventuais problemas económicos. Poderá existir um impacto negativo caso o BCE altere a sua política monetária, tornando-a menos expansiva”, acrescenta. Neste sentido, considera que a aposta nos países emergentes neste tipo de dívida poderá ter algum interesse. “Contudo, devido ao maior endividamento em “moeda forte” (USD e EUR) nos últimos anos, este investimento deverá estar associado a uma seleção muito criteriosa dos emitentes e prazos de investimento”, conclui.

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