Brasil, vontade e capacidade de reformar

O sentimento positivo deverá conservar-se até ao Carnaval, época em que começa, na prática, a aprovação de nova legislação em áreas críticas.

Os mercados financeiros torceram pela derrota de Fernando Haddad e das suas políticas despesistas, contra reformistas e antiprivatizações, mas não estiveram a favor de Bolsonaro, quer pelo seu histórico de posições contra reformistas e antiprivatizações, quer pelo radicalismo do seu discurso. No entanto, o ‘mal menor’ de ter Bolsonaro como presidente acabou por gerar algum otimismo entre os investidores.

Para esta mudança de sentimento terá contribuído a escolha do ultraliberal Paulo Guedes para conselheiro (agora ministro), o que amenizou alguns receios sobre as posições económicas de Bolsonaro, embora a conversão ao livre mercado não esteja totalmente clara face às divergências internas que persistem, com vários elementos relevantes do elenco presidencial contra as privatizações e contra a desesperadamente necessária reforma do sistema de pensões.

Lembre-se que a dívida pública de 84% face ao PIB (excessiva nos padrões emergentes) posiciona-se como o grande problema económico do Brasil, e este número tende a aumentar, com o FMI a projetar uma dívida bruta de 95,6% em cinco anos. Reduzir despesas de salários, simplificar o código tributário (em particular reduzir isenções) e enfrentar o problema das chamadas despesas obrigatórias torna-se, pois, essencial. E a grande maioria do orçamento é canalizada para o sistema de segurança social, em particular para as pensões.

O aumento dos custos com as pensões agudizou-se no governo Dilma, tornando esta fatia similar à dos países europeus (apesar dos rendimentos incomparavelmente mais baixos e de uma demografia muito mais penalizadora), pelo que o FMI colocou já em cima da mesa o aumento da idade de reforma, o desfasamento entre pensão mínima e salário mínimo e uma menor benevolência na função pública (que consome 80% do pagamento de pensões).

Otimismo duradouro?

Se o otimismo dos mercados com a vitória de Bolsonaro em muito se deveu à sua suposta conversão ao liberalismo de mercado, a duração deste otimismo depende da sua vontade e capacidade de levar a cabo estas reformas cruciais.

No curto prazo, parece que o otimismo pode até transformar-se em euforia, apoiado pelo acréscimo da confiança empresarial, que disparou vinda de níveis muito baixos no início do ano, e pelo interesse despertado pelos bons desempenhos de alguns ativos num ano particularmente negativo para a maioria dos emergentes.

Assumindo que, neste início de legislatura, não há decisões críticas por parte de Bolsonaro e que o Presidente consegue rodear-se de uma equipa com experiência legislativa (contrabalançando a que lhe falta) e manter a estabilidade (sem escândalos nem afastamentos que podem estar prementes), o sentimento positivo deverá conservar-se até ao Carnaval, época em que começa, na prática, a aprovação de nova legislação em áreas críticas. Nessa altura, investidores e mercados farão uma primeira avaliação que será crucial para o futuro.

Até lá, o alívio de evitar um governo comunista deve ajudar a concretizar investimentos que estavam suspensos, o que a par com um reforço do valor da moeda deve atenuar os receios sobre a inflação e as taxas de juro, assim como apoiar uma aceleração no ritmo do crescimento económico.

 

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