Bruno Bobone: “O BES devia ter sido nacionalizado temporariamente”

O modelo de resolução do Banco Espírito Santo foi um “erro” que custou muito caro à economia portuguesa, considera o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Bruno Bobone, defendendo que teria sido preferível que o Estado tivesse nacionalizado o BES.

As decisões tomadas em relação à situação do Banco Espírito Santo foram erradas, considera o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Bruno Bobone, defendendo que a economia portuguesa teria tido mais vantagens se este banco tivesse sido nacionalizado temporariamente.

Como avalia o processo do Banco Espírito Santo?

Discordo da forma como se enfrentou o problema do Banco Espírito Santo, que era o banco que mais apoiava as empresas no mercado português e tinha o maior conhecimento do mercado empresarial em Portugal. Devíamos ter tomado a atitude de salvar um banco daqueles – em vez de salvar outros que não serviam para nada – mas naquele caso fomos exatamente fazer uma experiência muito arriscada, porque não tivemos coragem de bater o pé à Europa, e destruímos o maior património que nós tínhamos.

Qual deveria ter sido a primeira decisão sobre este banco?

Antes tivessem excluído os acionistas que estavam no BES – por exemplo, o que se fez no Lloyds em Inglaterra, ter-se-ia aplicado ao BES com a maior das facilidades – e tínhamos pago muito menos do que continuamos a pagar e tínhamos um banco que teria ajudado as empresas de uma maneira completamente diferente. Independentemente de haver outros bancos eficientes, o BES era claramente o banco com maior conhecimento sobre as PME portuguesas. E não foi por causa das empresas que o BES correu mal. Foi porque o regulador não controlou quem comandava o banco e a forma como foi feito todo esse trabalho. Isso é dramático e criminoso para o nosso país.

É um processo muito longo, que envolve responsabilidades de muitas pessoas…

Sem dúvida. Não estou a querer culpar só uma pessoa. No dia em que isto aconteceu escrevi um artigo em que defendi exatamente o que continuo a defender hoje. Não era razoável deixarem cair o banco. Não era razoável a forma como o regulador e o Governo estavam a olhar para este problema. E a verdade é que assim destruíram uma grande parte da economia portuguesa.

Um tribunal no Luxemburgo inviabilizou a gestão controlada das principais sociedades que detinham o BES, avançando para a declaração de insolvência. Como se controlava este processo de outra forma?

…da mesma maneira que acabaram por tomar conta do património do banco, podiam ter feito o mesmo que aconteceu em Inglaterra, onde o Governo tomou conta do Lloyds Bank e depois voltou a relançar este banco quando já estava pronto para ser entregue à sua atividade no mercado. No Novo Banco destruíram toda a estrutura que o banco tinha e toda sua capacidade de intervenção.

O que implicava essa solução que defendeu para o BES?

Simples. O Governo tomava conta do BES, como fez com o BPN ou o BPP – que não interessava para coisa nenhuma.

Defende a nacionalização do BES?

Claro. Temporária. Absolutamente. Era um banco de tal importância para o país que não se podia perder. O Estado tem o papel de tomar conta do que é importante para o país.

O mesmo que foi feito com o BESCL, em 1975?

De forma errada. Porque nessa altura o BESCL não precisava de intervenção. Só foi por interesses políticos. O Novo Banco acabou por ir parar ao Estado para ser posteriormente vendido. Os gregos não fizeram isto porque não quiseram e nós fazemos, porque fazemos sempre tudo o que não devemos.

A entrada da Lone Star também foi um erro?

Não sei como foi feita a procura de investidores, nem sei como é que o banco ficou protegido. Não consigo dar uma opinião.

O dinheiro que está a ser injetado no Novo Banco podia ter sido canalizado para o desenvolvimento de outros sectores da atividade económica?

Todo o dinheiro que está a ser aplicado na recuperação do Novo Banco poderia ter sido aplicado na economia. Foi mais uma decisão errada que prejudica o país.

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