[weglot_switcher]

Caças Gripen querem ganhar asas em Portugal

O caça Gripen E, produzido pelo grupo sueco Saab, é apontado como alternativa para substituir os F-16 na Força Aérea Portuguesa. Este gigante europeu do setor da defesa admite que a OGMA, com quem já assinou um memorando de entendimento, tem “muito potencial” para produzir parte dos aviões em Portugal.
6 Março 2026, 07h25

Transporta mísseis de longo e curto alcance, está equipado com radares de tecnologia avançada e pode ser rearmado e abastecido no ar em menos de 20 minutos. “É um caça incrível que pode ser atualizado sempre”, diz Daniel Boestad, vice-presidente de desenvolvimento de negócios do programa Gripen, ao Jornal Económico. O Gripen E, a mais recente geração de aviões desenvolvido pela Saab, grupo sueco de defesa e segurança, atinge uma velocidade de 2400 quilómetros por hora e precisa apenas de 400 metros de comprimento para levantar voo, o que lhe permite operar em pistas curtas ou em estradas. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já assinou uma carta de intenções para comprar até 150 aviões de combate suecos e as primeiras entregas deverão ser feitas ao longo deste ano.

Numa altura em que embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, John Arrigo, defendeu a compra dos caças americanos F-35 para substituir os F-16 em fim de vida, a Saab procura disputar o mercado. A empresa demonstrou esta capacidade com um feito notável: a integração de um agente de inteligência artificial que tornou o caça difícil de vencer em combate. “Mais ninguém consegue fazer isto”, acrescenta o responsável ao Jornal Económico.

Com um design construído para se tornarem mais difíceis de detetar, a Saab equipa estes aviões com avançados radares que garantem ao piloto uma “consciência situacional” elevada. A tecnologia permite também analisar dados em tempo real, apoiar a tomada de decisões do piloto e adaptar táticas de guerra. Um dos argumentos passa pela capacidade de introduzir rapidamente novas funções naquela que descreve como “a aeronave mais avançada do mundo”, comparando o avião com as atualizações do iPhone. “Antes demorava meses ou anos, agora é muito mais rápido. O Gripen foi desenhado para operar fora da base principal, se as bases principais são atacadas é preciso mover os alvos”, explica Daniel Boestad.

Saab em Portugal
É neste contexto que a Saab afirma estar pronta a apoiar Portugal no processo de seleção da nova plataforma de combate. E, ao integrar empresas portuguesas na cadeia global de fornecimento, o impacto económico poderá ser relevante, desde a criação de emprego ao desenvolvimento tecnológico. “Acreditamos que este Gripen E (apontados como uma das alternativas para substituir os F-16 na Força Aérea Portuguesa) é um excelente produto para Portugal se decidirem nesse sentido. É um avião muito eficiente em termos de custos. Foi desenhado assim desde o primeiro dia. E não é algo que possa ser mudado posteriormente”, afirma Daniel Boestad. Segundo o responsável, os custos ficam em cerca de um terço de alguns dos seus concorrentes mais diretos, embora não revele valores. Um F-35, por exemplo, tem um preço-base de produção de 70 milhões de euros.

O vice-presidente do negócio Gripen na Saab avança mesmo uma localização: a OGMA-Indústria Aeronáutica de Portugal, em Alverca, que poderá colaborar na produção, manutenção, reparação e revisão dos caças. “A OGMA tem muito potencial para a produção dos Gripen em Portugal”. Este modelo já foi testado no Brasil, onde o programa Gripen resultou na maior transferência tecnológica da história da Suécia, com a criação de 13 mil empregos altamente qualificados.

A aproximação do grupo sueco de defesa e segurança a Portugal não começou agora. Em setembro do ano passado, a Saab aterrou em Lisboa para assinar dois memorandos de entendimento com a OGMA e a Critical Software. Mais tarde, foi a vez do AED Cluster Portugal (cluster português para as indústrias de Aeronáutica, Espaço e Defesa) deslocar-se à Suécia para rubricar um novo acordo que aprofunda ainda mais a cooperação industrial luso-sueca. “A Saab reafirma a sua disponibilidade para cooperar com a indústria de defesa portuguesa, e a assinatura deste memorando com o AED Cluster Portugal representa mais um passo na nossa procura de parceiros locais para participar no programa Gripen”, explica Daniel Boestad.
Do lado português, José Neves, presidente do AED Cluster Portugal, sublinhou que o acordo representa “um passo fundamental para consolidar a integração da indústria portuguesa nas cadeias de valor internacionais” e abre portas a oportunidades de elevado valor acrescentado para empresas nacionais.

A empresa sueca já fornece uma ampla gama de equipamentos às forças de defesa nacional, incluindo sensores, tecnologias de camuflagem, bazucas e radares. O submarino A26, que lança drones, mergulha até ao fundo do mar e opera invisível aos radares em missões secretas da NATO, poderá ser uma das próximas apostas da marinha portuguesa.

Negócio
A Saab iniciou a sua atividade na década de 1930. Começou pela produção de aeronaves militares, passou depois para a construção de automóveis, com o Saab 92 a ser o seu primeiro carro de produção, em 1949. Os carros da Saab foram extintos em 2011 e a empresa transformou-se. Atualmente, o portefólio de produtos inclui mais de 500 sistemas e detém uma posição de liderança no mercado em alguns segmentos, incluindo aviões de combate (Gripen), sistemas de armamento avançados (Carl-Gustaf, AT4, NLAW), sensores (Giraffe, GlobalEye), sistemas de comando e controlo e sistemas subaquáticos (A26).
Ao estabelecer novas parcerias, a empresa procura expandir-se além da Suécia. Esta estratégia, aliada às aquisições nos mercados, significa que as inovações podem ser integradas de forma rápida e eficaz. Por exemplo, a aprendizagem automática e a IA generativa em sistemas de sensores e de implementação para melhorar a análise de dados e otimizar os processos de tomada de decisões.

Em 2024, a Saab gerou vendas superiores a sete biliões de euros, o que corresponde a um crescimento de 24%. Embora a Suécia e a Europa continuem entre os mercados mais importantes, o número de encomendas internacionais também está a aumentar na América do Norte, Ásia e América Latina. Para atender à procura crescente, a Saab, que conta com 27.865 funcionários, está a operar e a projetar novas instalações de produção nos Estados Unidos, Índia e Finlândia.


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.