Candidato a doutoramento pede 25 mil euros para substituir bolsas da FCT supostamente “adiadas”, mas concurso ainda não terminou

O jovem lançou uma campanha de crowdfunding sob o pretexto de um adiamento na atribuição das bolsas da FCT. A fundação desmente e diz que o processo decorre com toda a normalidade, com os resultados a serem conhecidos em novembro. A iniciativa gerou mal-estar desde o ministério até ás redes sociais

António Rolo Duarte começou uma campanha de angariação de fundos para financiar o seu doutoramento. A campanha de crowdfunding tem como objetivo a angariação de 25 mil euros e surge, diz o seu responsável, depois do suposto adiamento das bolsas da Fundação de Ciência e Tecnologia, que deixariam o candidato a doutorando sem fundos. No entanto, as bolsas não estão atrasadas, diz o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCES).

“A questão é a seguinte. Eu sou estudante de doutoramento. E na semana passada, o governo português pregou-me uma partida. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior adiou a atribuição das bolsas de doutoramento. Estas bolsas são a minha única fonte de financiamento. Então fiquei sem dinheiro para continuar a estudar”, pode-se ler na página da iniciativa.

O problema é que, não só não é o MCES que gere as bolsas, como a entidade responsável por tal, a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) já fez saber, através de declarações do seu coordenador de comunicação, Luís Ferreira, à MAGG, que “não há qualquer adiamento programado na atribuição de bolsas de doutoramento referente ao concurso de 2020”.

“O único adiamento que ocorreu neste processo até à data foi a prorrogação do período de candidaturas em um mês, que terminou a 28 de abril em consequência dos desenvolvimentos relacionados com a pandemia”, explicou Luís Ferreira. “A FCT procurou, desta forma, responder às solicitações enviadas pelos candidatos, que nas suas exposições manifestaram constrangimentos para a concretização dos processos, nomeadamente ao nível de tempo e de acesso à documentação necessária para submeterem as candidaturas”, continuou o representante da fundação em declarações à MAGG.

Além disso, explica a FCT, o prazo legal para a publicação definitiva dos resultados de atribuição de bolsas é 3 de novembro, pelo que o processo está a decorrer dentro da normalidade. Ou seja, mesmo com o anúncio dos resultados provisórios em agosto, nada garantiria a Rolo Duarte que receberia efetivamente a bolsa até à publicação oficial dos resultados.

O jovem justificou-se com um telefonema para a FCT, no qual pediu informações sobre a data em que seriam conhecidos os resultados. “O representante da FCT com quem falei ao telefone disse-me que não tinham uma data definida sobre quando isso iria acontecer, mas que não iria acontecer antes de novembro”, disse ao Público. O gabinete de comunicação da fundação diz, segundo a mesma publicação, estar a tentar apurar o que se passou para ser transmitida esta informação.

A campanha do jovem de 24 anos, filho do jornalista Pedro Rolo Duarte já falecido, caiu mal junto do MCES, de bolseiros e investigadores, e até do público geral, como mostram as redes sociais, rápidas a relembrar a intervenção do mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Cambridge na RTP, em que se referiu às universidades portuguesas como uma “anedota” e uma “tragédia”.

O doutoramento que Rolo Duarte se propõe a completar focar-se-á no “Portugal no pós-25 de Abril: as narrativas de identidade nacional desenvolvidas em resposta à revolução”. O jovem compromete-se a “honrar a bandeira de Portugal na histórica Universidade de Cambridge”, trazer “a História de Portugal para o centro nevrálgico da produção intelectual europeia” e ainda publicar atualizações diárias na sua página de Instagram, para que quem contribuiu possa ver o que está a fazer com o dinheiro.

À data desta publicação, a campanha de crowdfunding tinha angariado já 4.747 euros, vindos de 222 contribuidores.

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