Carlos Monjardino: “Stanley Ho foi determinante na minha vida”

Carlos Monjardino conheceu Stanley Ho em 1967 quando lhe foi pedido para mostrar ao empresário a Quinta da Marinha, em Cascais, com o objetivo de encontrar um terreno. Depois voltaram a encontrar-se em Macau, quando a STDM negociava com o Governo de Macau, de que o presidente da Fundação Oriente fez parte. Em 1988, partiu de Stanley Ho a iniciativa de criar a Fundação Oriente.

O presidente da Fundação Oriente, Carlos Monjardino, que foi também membro do Governo de Macau na década de 1980, relatou ao Jornal Económico, o papel que o empresário nascido em Hong Kong e com negócios em Macau, Stanley Ho, teve na sua vida.

A propósito do anúncio da morte do magnata chinês de 98 anos, Carlos Monjardino relata os cerca de 34 anos de relacionamento com Stanley Ho. “Era uma pessoa por quem desenvolvi uma grande amizade”, isto independentemente das relações profissionais, devido a negócios e interesses que Stanley Ho tinha em Portugal, e da relação profissional que ambos tiveram em Macau, quando o atual presidente da Fundação Oriente era  secretário-adjunto em Macau com responsabilidades na área da Economia.

“Falávamos das nossas famílias”, lembra Carlos Monjardino que realça que, para um chinês, é sinal de enorme intimidade. “Um dia perguntei-lhe porque me falava sempre da família e ele respondeu que, para ele, eu era como se fosse um irmão”, relata.

Nos anos de 1960, conquista com a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), o monopólio de exploração do jogo, que manteve por mais 40 anos, até à liberalização, que trouxe a concorrência dos norte-americanos.

Carlos Monjardino lembra também que em Macau, chegaram a ter reuniões duras por causa das concessões do jogo, porque o empresário “puxava sempre a brasa à sua sardinha”.

Mas não se pense que Carlos Monjardino o conheceu quando estava em Macau. Foi muito antes. Decorria o ano de 1967 quando o atual presidente da Fundação Oriente foi requisitado para ajudar Stanley Ho a procurar um terreno na Quinta da Marinha, em Cascais (onde o gestor português já tinha casa).

A relação entre Carlos Monjardino e Stanley Ho foi sobretudo uma relação de amizade. Mas os laços estreitaram-se quando o dono da STDM decidiu por iniciativa espontânea propor a criação de um fundo em Lisboa, naquilo que veio a ser depois a Fundação Oriente. Portanto nasce da iniciativa de Stanley Ho a instituição que acabou por ser a vida profissional de Carlos Monjardino desde 1988. “Stanley Ho foi determinante na minha vida”, diz o presidente da Fundação Oriente.

Com a ajuda de Mário Soares nasceu a Fundação Oriente em 1988, com o propósito de apoiar as relações culturais entre Macau e Portugal. De acordo com os estatutos, a Fundação promove, de modo especial em Macau, todas as ações que visem a valorização do seu património cultural e artístico.

A Fundação foi instituída pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), como uma das contrapartidas impostas pela Administração de Macau à concessão em regime de exclusivo da exploração do jogo naquele território até 31 de Dezembro de 2001. Inicialmente parte das receitas do jogo eram concessionadas à Fundação, mas em 20 de Junho de 1997, após consultas de ambas as partes, e com a anuência da Fundação Oriente, foi entendido pelo Grupo de Ligação Luso-Chinês, tutelado pelos Ministérios dos Negócios Estrangeiros de Portugal e da República Popular da China, que, com efeitos a partir de Janeiro de 1996, os rendimentos regulares previstos no contrato para a concessão do exclusivo da exploração do jogo no Território de Macau deixavam de ser atribuídos à Fundação Oriente e passariam a ser entregues a uma nova fundação, a constituir em Macau. Quebrou-se deste modo o elo que, desde 1988, unia a Fundação Oriente ao contrato do jogo em Macau.

A Fundação tem sede em Lisboa e delegações na Região Administrativa Especial de Macau, na Índia e em Timor-Leste.

Stanley Ho, que em Portugal é dono, por exemplo, do Casino Estoril, foi considerado um empresário marcante e fundamental para transformar a economia de Macau numa verdadeira indústria ligada ao jogo e ao turismo.

Nascido em 25 de novembro de 1921 em Hong Kong, Stanley Ho fugiu à ocupação japonesa para se radicar na então portuguesa Macau, onde fez fortuna ao lado da mulher macaense, oriunda de uma das mais influentes famílias da altura, Clementina Ângela de Melo Leitão, conta a Lusa.

A agência relata ainda que Stanley Ho marcou a transformação e modernização do território, com a dragagem dos canais de navegação – imposta pelo contrato de concessão de jogos –, à construção do Centro Cultural de Macau, do Aeroporto Internacional ou à constituição da companhia aérea Air Macau.

Stanley Ho, era conhecido como “Rei do Jogo”, e a jornalista Inês Serra Lopes, que o entrevistou, diz que, paradoxalmente, o empresário dos casinos nunca jogou.

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