CFP é a instituição mais pessimista: Prevê contração de 11,8% da economia no cenário mais adverso

Conselho das Finanças Públicas prevê no cenário base uma recessão de 7,5% da economia portuguesa este ano e no cenário severo de 11,8%, antes da retoma em 2021. Desemprego pode disparar para entre 11% e 13,1%. “A intensidade dos seus efeitos no segundo semestre” será determinante, diz.

Este é o OE que o país precisa? – Nazaré da Costa Cabral, presidente do Conselho de Finanças Públicas | Cristina Bernardo

O Conselho das Finanças Públicas (CFP) projeta uma contração do Produto Interno Bruto (PIB) entre 7,5% e 11,8% este ano, antes de uma recuperação que se poderá ser de 3% ou 4,7%. No relatório “perspetivas económicas e orçamentais 2020-2022”, publicado esta quarta-feira, a instituição presidida por Nazaré da Costa Cabral alerta, no entanto, para a elevada incerteza decorrente da pandemia do novo coronavírus, pedindo uma “precaução adicional” na análise das projeções.

Devido à elevada incerteza apresenta dois cenários, revelando-se a instituição mais pessimista sobre a contração da economia portuguesa este ano de entre as projeções já apresentadas. No cenário base antecipa uma contração da economia em 2020 de 7,5% e no cenário severo o tombo é de 11,8%. Este cenário compara com o de Bruxelas que projeta uma queda do PIB de 6,8% e do Fundo Monetário Internacional, que prevê uma queda de 8%, enquanto as projeções do Banco de Portugal, publicadas em março, projectam uma recessão entre 3,7% (cenário base) a 5,7% (cenário adverso).

O cenário macroeconómico do CFP chega na semana antes do Governo entregar o Orçamento Suplementar no Parlamento, no qual estará a trabalhar com um cenário que prevê uma contração do PIB real de 7% e do PIB nominal de 6%, com uma redução da procura externa de 14%.

“A retoma do crescimento em 2021 (3,0% no cenário base e 4,7% no cenário severo) e em 2022 (2,6% no cenário base e 3,2% no cenário severo) é alicerçada na expectativa de que o choque na economia é transitório, sendo, contudo, elevada a incerteza quanto à rapidez de recuperação”, explica a instituição que analisa as finanças públicas, que em março havia decidido adiar a publicação do relatório sobre as perspetivas económicas e orçamentais devido à “incerteza absoluta” relativamente ao impacto da crise e ao comportamento da economia portuguesa.

O CFP diz que “volvido este período, subsistem ainda – e dada a especificidade desta crise – algumas dúvidas importantes quanto à magnitude da mesma recessão e ainda quanto à forma como se processará a recuperação económica daqui para a frente”. Alerta que “um aspeto decisivo” para saber se a situação se reconduzirá afinal mais ao cenário de base ou ao severo, apresentados no relatório, “é o de saber qual a intensidade dos seus efeitos no segundo semestre” deste ano.

“A redução do PIB em 2020 reflete, por um lado, a diminuição significativa da procura externa dirigida a Portugal com impacto nas exportações totais, em particular nas exportações de serviços, por via da quebra da procura dirigida ao sector do turismo e atividades associadas”, explica, acrescentando que por outro lado, “reflete o adiamento de investimento e de consumo por parte dos agentes económicos num cenário de elevada incerteza”.

No cenário base, prevê para este ano uma queda de 7,5% do consumo privado e no cenário adverso de 12,8%, enquanto o consumo público sobe para 2,8% ou 3,5%. Vê ainda as exportações a cair 20,6% no cenário base e 26,9% no cenário adverso, com uma recuperação para 6% (cenário base) ou 8,4% (cenário severo) em 2021.

“Ambos os cenários concentram o efeito do confinamento no segundo trimestre de 2020. Diferem na magnitude dos choques na procura global e externa, no ritmo de normalização da atividade económica, interna e externa, durante o segundo semestre de 2020 e na duração das medidas de política”, vinca.

Para o CFP a retoma do crescimento nos próximos dois anos é apoiada na “expectativa de que o choque na economia é transitório”, ainda que considere “os riscos descendentes subjacentes a este cenário muito elevados”.

“Os impactos adversos que a proliferação da Covid-19 tem no nível da produção industrial, nas cadeias logísticas internacionais, no sector do turismo a que Portugal está particularmente exposto, e no nível da confiança de empresários, consumidores e investidores à escala global podem vir a revelar-se mais fortes e prolongados no tempo do que assumido nestas projeções”, alerta.

Realça ainda que a nível interno, “o considerável nível de endividamento e a diminuição do rendimento deixaram as famílias portuguesas mais vulneráveis, na medida em que um aumento da volatilidade nos mercados financeiros poderá refletir-se num aumento das taxas de juro”.

Desemprego pode aumentar para entre 11% a 13,1% 

O CFP prevê que a taxa de desemprego suba para 11%, no cenário base, ou 13,1%, no cenário adverso, este ano, dos 6,5% registados no ano passado. Porém, a recuperação da economia poderá ajudar à diminuição nos dois anos seguintes, para 9,0% e 8,1% em 2021 e 2022, no cenário base. No cenário adverso esta queda poderá ser para 10,8% ou 9,5%, respetivamente.

“É expectável que as condições do mercado de trabalho reflitam a evolução da atividade económica em 2020-2022, ainda que a sua recuperação seja mais lenta”, explica, projetando, no cenário base, uma contração do emprego de 5% este ano, face a um aumento de 1% do emprego em 2019. “A recuperação da atividade económica a partir do final de 2020 deve levar à subsequente recuperação do crescimento do emprego para 2,2% em 2021 e para 1,0% em 2022”, adianta.

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