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Choque de oferta energético pressiona custos de produção e risco de pressões inflacionistas

“Se há apenas uma semana se admitia que este choque poderia traduzir-se num adiamento do ciclo de flexibilização monetária do BCE, hoje os mercados já incorporam um cenário mais restritivo”, destaca o economista António José Duarte ao JE.
Traders work on the floor of the New York Stock Exchange (NYSE) shortly after the opening bell in New York, U.S., August 30, 2016. REUTERS/Lucas Jackson
9 Março 2026, 09h47

O choque de oferta energético deverá pressionar os custos de produção da indústria europeia e aumentar o risco de pressões inflacionistas num contexto de abrandamento económico. A perspetiva é do economista António José Duarte em entrevista ao JE.

Os preços do petróleo já aumentaram mais de 53% desde o início do conflito entre os EUA e o Irão, uma guerra que aumentou a pressão inflacionista no valor do ouro negro. Os cálculos são da corretora XTB que reagiu esta segunda-feira à escalada dos preços.

O barril de petróleo West Texas Intermediate (WTI), referência nos Estados Unidos, ultrapassou esta segunda-feira os 100 dólares, pela primeira vez desde julho de 2022. Esta manhã, o petróleo Brent, referência para a Europa atingia 108,04 dólares por barril, uma subida de 16,56%.

“A semana que agora se inicia deverá ficar marcada por níveis elevados de volatilidade nos mercados financeiros, num contexto em que o termo “stagflation” surgirá cada vez com maior frequência”, destaca este especialista.

O economista recorda que “o preço do crude subiu cerca de 50% (de 70 para 107 dólares por barril), enquanto o dólar se valorizou cerca de 3% face ao euro numa semana. Em paralelo, o gás natural na Europa aumentou quase 65% (de 32 para 52 euros/MWh)”.

“Este movimento configura um choque de oferta energético, pressionando os custos de produção da indústria europeia e aumentando o risco de pressões inflacionistas persistentes num contexto de abrandamento económico”, sublinha.

António José Duarte dá nota de que “se há apenas uma semana se admitia que este choque poderia traduzir-se num adiamento do ciclo de flexibilização monetária do BCE, hoje os mercados já incorporam um cenário mais restritivo. Os derivados de taxa passam a descontar duas subidas de 25 pontos base em 2026 — a primeira já em junho”.

Assim, e caso esta trajetória se confirme, o resultado será, no entender deste economista, “um agravamento das condições financeiras, com impacto no custo de financiamento de empresas, famílias e também das dívidas soberanas, refletido numa pressão acrescida sobre as yields ao longo da curva europeia”.

E este fator acaba por ser “particularmente relevante num contexto em que economias centrais como França e Alemanha terão de refinanciar perto de 900 mil milhões de euros de dívida que vence em 2026, tornando o custo de roll-over da dívida um elemento crítico para a sustentabilidade orçamental e para a estabilidade dos mercados obrigacionistas europeus”.

Já no mercado obrigacionista, e caso os preços da energia permaneçam elevados, os investidores “tenderão a exigir um maior prémio de risco inflacionário, pressionando sobretudo as maturidades mais longas (no caso da Alemanha, as yields a 10 anos subiram cerca de 30 pontos base numa semana)”.

Nos mercados acionistas, os índices “deverão permanecer voláteis, refletindo o aumento da aversão ao risco, enquanto os investidores reforçam a exposição a ativos tradicionalmente associados a funções de refúgio, como ouro e dívida soberana de elevada qualidade, bem como a setores potencialmente beneficiários do atual enquadramento energético, como o setor da energia”.

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