O choque de oferta energético deverá pressionar os custos de produção da indústria europeia e aumentar o risco de pressões inflacionistas num contexto de abrandamento económico. A perspetiva é do economista António José Duarte em entrevista ao JE.
Os preços do petróleo já aumentaram mais de 53% desde o início do conflito entre os EUA e o Irão, uma guerra que aumentou a pressão inflacionista no valor do ouro negro. Os cálculos são da corretora XTB que reagiu esta segunda-feira à escalada dos preços.
O barril de petróleo West Texas Intermediate (WTI), referência nos Estados Unidos, ultrapassou esta segunda-feira os 100 dólares, pela primeira vez desde julho de 2022. Esta manhã, o petróleo Brent, referência para a Europa atingia 108,04 dólares por barril, uma subida de 16,56%.
“A semana que agora se inicia deverá ficar marcada por níveis elevados de volatilidade nos mercados financeiros, num contexto em que o termo “stagflation” surgirá cada vez com maior frequência”, destaca este especialista.
O economista recorda que “o preço do crude subiu cerca de 50% (de 70 para 107 dólares por barril), enquanto o dólar se valorizou cerca de 3% face ao euro numa semana. Em paralelo, o gás natural na Europa aumentou quase 65% (de 32 para 52 euros/MWh)”.
“Este movimento configura um choque de oferta energético, pressionando os custos de produção da indústria europeia e aumentando o risco de pressões inflacionistas persistentes num contexto de abrandamento económico”, sublinha.
António José Duarte dá nota de que “se há apenas uma semana se admitia que este choque poderia traduzir-se num adiamento do ciclo de flexibilização monetária do BCE, hoje os mercados já incorporam um cenário mais restritivo. Os derivados de taxa passam a descontar duas subidas de 25 pontos base em 2026 — a primeira já em junho”.
Assim, e caso esta trajetória se confirme, o resultado será, no entender deste economista, “um agravamento das condições financeiras, com impacto no custo de financiamento de empresas, famílias e também das dívidas soberanas, refletido numa pressão acrescida sobre as yields ao longo da curva europeia”.
E este fator acaba por ser “particularmente relevante num contexto em que economias centrais como França e Alemanha terão de refinanciar perto de 900 mil milhões de euros de dívida que vence em 2026, tornando o custo de roll-over da dívida um elemento crítico para a sustentabilidade orçamental e para a estabilidade dos mercados obrigacionistas europeus”.
Já no mercado obrigacionista, e caso os preços da energia permaneçam elevados, os investidores “tenderão a exigir um maior prémio de risco inflacionário, pressionando sobretudo as maturidades mais longas (no caso da Alemanha, as yields a 10 anos subiram cerca de 30 pontos base numa semana)”.
Nos mercados acionistas, os índices “deverão permanecer voláteis, refletindo o aumento da aversão ao risco, enquanto os investidores reforçam a exposição a ativos tradicionalmente associados a funções de refúgio, como ouro e dívida soberana de elevada qualidade, bem como a setores potencialmente beneficiários do atual enquadramento energético, como o setor da energia”.
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