A Coface, que opera em áreas como os seguros, divulgou esta sexta-feira a sua análise anual de risco político e social, e considera que 2026 deve ser um ano de “elevada volatilidade global”, com “impactos diretos” nas empresas, no comércio internacional e nas decisões de investimento.
“Conflitos prolongados, ciclos eleitorais tensos e um aumento significativo da contestação social estão a redefinir o ambiente económico mundial”, considera a empresa.
O índice Coface assinala que o risco político global atingiu 41,1%, o que representa um máximo histórico que confirma uma “tendência estrutural e não conjuntural”.
Em 2025, o índice da Coface tinha também atingido um ponto de viragem histórico, ao alcançar 41,1%.
“Longe de ser temporária, esta tendência inscreve‑se numa dinâmica estrutural, impulsionada por dois fatores principais: Aprofundamento dos conflitos armados: a guerra na Ucrânia e as tensões no Médio Oriente tornam‑se cada vez mais enraizadas; Aumento da agitação interna violenta, evidenciando protestos sociais que abalam os poderes estabelecidos”, salienta a organização. “Esta nova realidade exige que as empresas envolvidas no comércio internacional integrem o risco político como um parâmetro de longo prazo nas suas estratégias de desenvolvimento, políticas de cobertura e decisões de investimento. Neste ambiente turbulento, estes são os três riscos políticos e sociais que as empresas devem priorizar em 2026”, assinala a Coface.
A Coface identifica três riscos. O primeiro está ligado às “variações eleitorais e instabilidade política: mapear exposições por país”. Para a empresa, em 2026, esta instabilidade estrutural encontrará a sua principal expressão nas urnas.
Nos Estados Unidos a Coface coloca as eleições intercalares de novembro de 2026 como “cruciais”, salientando que a renovação completa da Câmara dos Representantes, 35 lugares no Senado e 36 Governadores poderá “redesenhar o equilíbrio de poderes”.
Relativamente à América Latina a Coface salienta que os próximos meses serão igualmente decisivos. “No Brasil, as eleições presidenciais de outubro podem representar um ponto de viragem, com a popularidade de Lula em queda enquanto procura um quarto mandato; Na Colômbia, as presidenciais de 2026 decorrerão num clima igualmente tenso, dado que o presidente cessante, Gustavo Petro, não pode recandidatar‑se; No Peru, estão previstas eleições gerais para abril de 2026, após a destituição da presidente Dina Boluarte em outubro passado”, refere a análise.
Quanto à Europa a análise de risco da Coface salienta que o continente entrará em 2026 num contexto de “realinhamento político” marcado por várias eleições decisivas que redefinirão o equilíbrio interno da União Europeia: “Na Hungria, a aproximação nas sondagens entre Viktor Orbán e a oposição liderada por Péter Magyar abre a possibilidade de uma rutura após quinze anos de continuidade política, ilustrando o enfraquecimento do centro político europeu face à ascensão de forças populistas; Em França, as eleições municipais de março funcionarão como barómetro para as presidenciais de 2027, num cenário em que o Rassemblement National (extrema‑direita) exerce forte influência no debate público; Na Suécia, as legislativas de setembro confirmarão (ou não) a posição dos Democratas Suecos como segunda força política, simbolizando o crescimento do voto de protesto na região”, salienta a empresa.
Quanto a África a Coface considera que a tendência de “declínio democrático mantém‑se”. A empresa refere que “realizar‑se‑ão eleições nacionais na Argélia, Etiópia, Marrocos, República do Congo, Uganda e Benim, este último recentemente abalado por uma tentativa de golpe de estado em dezembro de 2025 e vários países liderados por presidentes envelhecidos reeleitos em 2025, como os Camarões, poderão entrar numa fase de transição”.
Na Ásia, a Coface refere que o Bangladesh será um dos principais pontos de atenção. “Dois anos após a revolta estudantil que pôs fim a quinze anos de poder, o país realizará eleições legislativas e um referendo constitucional em fevereiro”, diz o relatório de risco.
“O risco eleitoral não se limita aos resultados, mas também à incerteza e polarização que estes geram. Mudanças de orientação política podem afetar acordos comerciais, políticas industriais e decisões orçamentais, obrigando as empresas a antecipar estes movimentos”, refere o diretor de Investigação Setorial e Análise de Risco Político da Coface, Ruben Nizard.
O risco número é intitulado ‘Quando a agitação social coloca os poderes instituídos à prova’.
“Em 2026, jovens e populações desgastadas por crises sucessivas poderão voltar a ser o motor da mobilização social”, refere a empresa. Os dados do índice Coface de risco político e social revelam um “aumento da fragilidade” em países onde os jovens desempenham um papel central nos protestos. “Nos países asiáticos, os protestos estão a intensificar‑se: No Nepal, bastaram dois dias para forçar a demissão do primeiro‑ministro; Na Indonésia e nas Filipinas, os jovens mobilizaram‑se contra reformas consideradas impopulares e contra uma classe política vista como corrupta”.
Quanto a África a Coface salienta: “O coletivo GenZ212, em Marrocos, tornou‑se um ator-chave nos protestos contra a deterioração dos serviços públicos, revelando frustrações socioeconómicas profundas; Em Madagáscar, várias semanas de protestos culminaram num golpe militar, ilustrando a volatilidade política persistente em certas regiões”, salienta a empresa.
“No Irão, a nova vaga de protestos desde o início de 2026 confirma a crescente pressão sobre um regime fragilizado. A repressão continua severa, mas já não consegue conter um movimento de contestação enraizado em crises económicas, sociais e políticas. O país foi repetidamente abalado por manifestações de grande escala — desde protestos contra o custo de vida, às mobilizações de 2019, até ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade” de 2022‑2023 — revelando um fenómeno estrutural, não cíclico”, assinala a empresa.
“O indicador Coface classifica o Irão como o segundo país mais frágil política e socialmente em 2025 (86%, atrás do Sudão), refletindo a acumulação de tensões internas e a incapacidade do regime de responder às expectativas de uma população jovem, precária e cada vez mais mobilizada”, dia a economista da Coface, Anna Farrugia.
Já nos países avançados o relatório da Coface refere que a agitação social também “está a ganhar força, com o acordo de comércio livre UE‑Mercosul a gerar tensões significativas”.
O documento da Coface refere: “Em França, a oposição dos agricultores desencadeou protestos contra o que consideram concorrência desleal e distorções associadas a normas ambientais e sanitárias. A agitação social, já evidente no movimento “Bloquons tout” (“Bloqueemos tudo”) em setembro de 2025, afetou a confiança e o investimento; A Bulgária foi abalada pela mobilização da Geração Z contra a corrupção, que levou à demissão do governo de Rossen Jeliazkov, num momento em que o país se aproximava da entrada no euro. A Itália também não ficou imune: no final de 2025, os sindicatos convocaram uma greve nacional contra a proposta orçamental do governo Meloni para 2026. No Reino Unido, debates sobre imigração e manifestações pró‑Palestina mantêm um clima social frágil; Nos Estados Unidos, a política tarifária pesa fortemente no mercado interno, com 80% da fatura aduaneira a ser suportada por entidades americanas (empresas ou consumidores), um fator suscetível de alimentar o descontentamento”.
Ruben Nizard, da Coface, refere que um “fio condutor tem emergido nos últimos anos, tanto em economias avançadas como emergentes: frustração crescente com condições económicas e sociais percebidas como em deterioração, e um profundo desencanto da população com as classes políticas no poder”.
O risco número 3 é intitulado ‘Entre desafios à hegemonia americana, rivalidades de poder e conflitos persistentes’.
“A captura de Nicolás Maduro no início de janeiro demonstrou, caso fosse necessário, que o ano começa alinhado com a volatilidade geopolítica que se tornou norma nos últimos anos. Esta posição americana surge num contexto de instabilidade global que está a redesenhar equilíbrios geopolíticos e comerciais. As tarifas anunciadas por Washington em abril elevaram a incerteza comercial a níveis inéditos. O desafio para 2026 será tanto jurídico como político: o Supremo Tribunal dos EUA deverá pronunciar‑se sobre a legalidade e o alcance dos poderes tarifários do executivo”, assinala a análise de risco da Coface.
A empresa adianta que a isto “somam‑se conflitos prolongados”. A Coface refere que “a guerra Rússia‑Ucrânia entra agora no seu quarto ano, sem perspetivas reais de resolução, apesar dos esforços diplomáticos europeus e americanos. No Médio Oriente, a situação permanece igualmente precária: a região continua marcada por fragilidade significativa, apesar do cessar‑fogo acordado entre Israel e o Hamas”.
A análise de risco considera que para as empresas envolvidas no comércio internacional, este contexto exige uma “abordagem proativa e medidas específicas”, entre as quais: “reforço da monitorização política, diversificação geográfica das operações, flexibilidade das cadeias de abastecimento, integração do risco‑país nas decisões estratégicas”.
A economista da Coface, Anna Farrugia, diz que o “ano de 2025 terminou num estado intermédio, com planos de resolução em circulação mas sem produzir paz real e duradoura. 2026 começa num mundo em que a geopolítica deixou de ser ruído de fundo para se tornar um fator estruturante das estratégias empresariais”.
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