[weglot_switcher]

Coletivo de palestinianos e israelitas na corrida ao Óscar de Melhor Documentário

‘No Other Land’ retrata a ocupação e destruição de Masafer Yatta, na Cisjordânia. Após vários prémios, nomeadamente o de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Berlim, poderá estar um Óscar a caminho.
19 Fevereiro 2025, 11h35

No Other Land, galardoado com vários prémios e na corrida ao Óscar na categoria de Melhor Documentário, estreia este mês em Lisboa e no Porto.

Em outubro de 2021, Basel Adra escrevia num artigo: “Querem que pare de documentar? Parem a ocupação.” No Other Land é um documentário que relata, de forma corajosa, as desigualdades entre palestinianos e israelitas. Realizado por um coletivo de ativistas e cineastas – os palestinianos Basel Adra e Hamdan Ballal e os israelitas Rachel Szor e Yuval Abraham – mostram no grande ecrã o resultado de cinco anos de filmagens, documentando a destruição das aldeias de Masafer Yatta, no extremo sul da Cisjordânia, às mãos dos soldados israelitas.

O palestiniano Basel Adra, corealizador do documentário, tem lutado contra a expulsão em massa da sua comunidade desde que tem memória. E a memória recua até aos cinco anos de idade, quando, perante vídeos e fotografias da sua infância, recorda o momento em que prenderam o pai. Na família, contava-se o trauma vivido em 1999, ano em que o exército israelita ordenou a todos os palestinianos de Masafer Yatta que abandonassem as suas casas para usarem aquela zona como campo de treino militar. Tinha três anos quando isso aconteceu.

A primeira vez que participou numa manifestação contra a ocupação israelita foi aos sete anos de idade. “Lembro-me de, em criança, dormir com os sapatos calçados para o caso de os soldados invadirem a nossa casa. Depressa percebi que não tínhamos escolha: se não lutássemos, seríamos expulsos da nossa terra e perderíamos a nossa comunidade”, diz Adra. Masafer Yatta é um conjunto de 19 aldeias palestinianas, localizadas na província de Hebron, no sul da Cisjordânia. Após décadas de luta, em 2022, o Supremo Tribunal deu luz verde à expulsão dos palestinianos desta região fronteiriça, tornando-se o maior ato de deslocação forçada desde que a Cisjordânia foi ocupada em 1967.

O filme já recebeu vários prémios e reconhecimentos, incluindo o Prémio de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Berlim e outros galardões em eventos como o Festival de Documentários de Amesterdão, Visions du Réel ou o Sheffield DocFest. No Other Land venceu também o prémio de melhor documentário no recente European Film Awards, onde os realizadores apelaram a um ‘cessar-fogo’ e ao fim deste ‘genocídio’ contra o povo palestiniano, que está a ser ‘sistematicamente visado e morto’.

O documentário surge depois dos dois cineastas palestinianos – Basel Adra e Hamdan Ballal – conhecerem os jornalistas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor numa visita que estes fizeram a Masafer Yatta. “Partilhamos os mesmos valores, explica Abraham, partilhamos a mesma oposição à ocupação, acreditamos num futuro em que os palestinianos tenham liberdade, em que palestinianos e israelitas tenham direitos iguais e segurança”, realça Yuval em comunicado.

Em No Other Land, o quarteto de cineastas mostra “a diferença abismal entre a existência deles e a minha [Yval]. Ambos vivemos sob o controlo do Estado israelita, mas com dois sistemas legislativos diferentes. Mostramos o que é viver em condições de apartheid. Os soldados podem entrar na casa de Basel e prendê-lo sempre que quiserem. Eu posso votar, Basel não. Eu posso ir ao aeroporto, mas Basel, tal como milhões de palestinianos, não pode. No filme perguntamos se a co-resistência é possível”, explica Yuval Abraham.

Basel e Hamdan passaram a maior parte das suas vidas a documentar as políticas violentas que têm sido aplicadas na sua região. “Comecei a filmar há mais de uma década. De facto, os meus pais e as gerações anteriores também filmaram, por isso temos uma enorme quantidade de imagens de arquivo histórico. Com o grupo, filmámos cerca de 2.000 horas, passámos semanas na linha da frente a seguir os bulldozers”, conta Basel, que, num artigo publicado este mês, em reação à nomeação aos Óscares, disse: “O nosso filme vai para os Óscares. Mas aqui, em Masafer Yatta, ainda estamos a ser apagados”.

Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.