Comércio digital cresce mesmo sem tecnologia futurista

Os empresários contactados pelo Jornal Económico, que desenvolvem plataformas de comércio eletrónico, vendem ‘online’ ou estão ligados à indústria logística, defendem que os novos sistemas de pagamento têm facilitado a evolução deste mercado.

1 O consumidor português confia a 100% nas apps  e sites quando faz compras?

2 Que tecnologia de ponta está a ser mais utilizada nas empresas de e-commerce?

3 Como é que as empresas de comércio online com alguma maturidade se posicionam perante a concorrência de novas plataformas?

Luís Carlos Silva, Manager de Electronic Shipping Solutions da DHL Express Portugal

1 – O consumidor português começa a procurar cada vez mais as plataformas digitais na hora de fazer compras/encomendas. Os principais fatores estão relacionados com o baixo custo, exclusividade e possibilidade de personalização de determinada tipologia de produtos.

2 – Na DHL Express estamos conscientes de que tanto a experiência na utilização das plataformas digitais como o feedback dos consumidores são fundamentais para a aquisição de novos clientes. Além disso, antes de efetuar a compra, o consumidor português tende a procurar feedback de outros clientes e respetiva experiência de utilização nas plataformas digitais. As questões relacionadas com a política de devoluções, custo de envio, taxas alfandegárias e os tempos de trânsito são as principais premissas na sua pesquisa. Verificamos que a maior parte dos clientes opta por soluções completas para gestão de produtos, inventário, vendas, marketing e ordens de compra. As principais plataformas que dominam o mercado, como a Shopify, Magento, Woocommerce e Prestashop, possibilitam aos clientes criar de forma rápida e integrada uma loja online. Os clientes tendem também a utilizar marketplaces direcionados para uma vasta categoria de produtos (Amazon, eBay, Alibaba) e os que são direcionados para a sua área de negócio.

3 –  As empresas que estão presentes nos canais tradicionais/offline começam a perceber as mais-valias da presença online, nos principais marketplaces, redes sociais ou até em loja própria. Alinhar os canais offline e online torna-se um desafio para as principais empresas que já se encontram no mercado, nomeadamente no que diz respeito à utilização de ferramentas que analisem os hábitos de consumo, preferências e tendências de mercado.

Reinaldo Costa Moreira, Cofundador e general manager da Springkode

1 –  O consumidor português ainda não confia 100% nas plataformas digitais na hora de fazer compras. Este facto é mais evidente na escolha do meio de pagamento, com a opção mais recorrente a ser a referência Multibanco, um sistema ao qual os portugueses estão acostumados e que, pese embora seja mais moroso de executar, lhes proporciona uma maior sensação de segurança no ato da compra. Por outro lado, a penetração do comércio online em Portugal está ainda muito atrás da média europeia, com vários fatores socioeconómicos e demográficos a contribuírem para isso. Seguramente que nos próximos três a cinco anos se gerará um maior momentum para o comércio online e rapidamente Portugal se poderá equiparar aos países que estão na dianteira da adoção às compras nas plataformas digitais.

2 – O recurso à inteligência artificial, que permite uma rápida segmentação e customização de experiência de compra é definitivamente uma tendência. O uso de métodos de pagamento como o MB Way e o Paypal são hoje considerados indispensáveis na facilitação do processo de compra.

3 – A disrupção e a inovação com que as novas plataformas se apresentam ao mercado, obrigam as empresas de comércio online com mais maturidade a optar por uma estratégia de investimento e desenvolvimento constantes ou de aquisição das startups com maior potencial de valor acrescentado para os seus negócios.

Vanessa Caldas, Fundadora do E-Commerce Experience Portugal e Brasil

1 –  O consumidor confia nas plataformas, principalmente se for uma marca que já conhece. É importante ressaltar que as empresas devem se preocupar em deixar as informações explícitas: Formas de pagamento, prazo de entrega e devolução, informações sobre a empresa, canais de atendimento etc. O país é pequeno mas o acesso a outros mercados faz com que os consumidores portugueses possam comprar de vários outros países. Infelizmente, às vezes é até mais barato comprar de Espanha ou Alemanha do que daqui. De todas as compras online feitas em Portugal, a maioria é de fora.

2 –Há muitas maneiras de vender pela internet e não é necessário usar tecnologia de ponta para ter sucesso. Costumo dizer que a tecnologia precisa ser definida de acordo com o budget, conhecimento e necessidade de cada empresa. Implementar uma tecnologia de ponta numa empresa que vende só 40 pedidos por dia não faz sentido, mas certamente é importante para uma empresa que já ganhou escala. As plataformas de e-commerce estão cada dia mais robustas mas sozinhas não são suficientes. Uma boa operação de e-commerce tem em média 26 integrações, entre elas meio de pagamento, ERP, logística, serviço de envio de email marketing, vitrines personalizadas e por aí vai.

3 –Todas as empresas precisam de estar online. As empresas maduras que ainda não entenderam essa necessidade, infelizmente, estão com o prazo de vida contado. As empresas que já deram esse passo, certamente, estarão à frente. O movimento da indústria para a ponta da cadeia tem sido cada vez mais comum, dessa forma, a indústria consegue conhecer o cliente diretamente, sem que haja um intermediário. É importante ressaltar que o cliente não “está” digital, ele “é” digital e já espera essa integração de canais. As marcas precisam de estar preparadas para comunicarem com ele onde quer que esteja.

Serafim Costa, Head of Ecommerce Projects da Redicom

1 – Não. Nem o consumidor português nem nenhum. Porém, à medida que as plataformas evoluem, também evoluiu a segurança e a confiança dos consumidores. Todos os anos observamos os nossos clientes a quase dobrarem as suas vendas online. Notoriamente, existe cada vez mais adesão às plataformas digitais, que se deve fundamentalmente ao conforto, simplicidade e aumento da oferta que resulta essencialmente das redes sociais e do facto das pessoas passarem cada vez mais tempo com os seus telemóveis. E é precisamente nos dispositivos móveis que hoje se fazem a maior parte das compras online.

2 – Em Portugal estão a ser adotadas as plataformas cloud. As empresas que já operam há alguns anos tendem a abandonar as plataformas open source e a adotarem plataformas comerciais, especialmente, quando pretendem alcançar o mercado internacional. Nestas plataformas tecnológicas cloud mais sofisticadas encontram todo um conjunto de soluções, tais como aplicações omnicanal para as lojas físicas, inteligência artificial, personalização um para um, funcionalidades multimercado, integrações com marketplaces e, o mais importante, expansibilidade.

3 – Precisamente na tecnologia. Trocam as plataformas open source por tecnologia comercial comprovada que lhes garanta expansibilidade e performance. Procuram tecnologia que lhes assegure estabilidade em momentos como a Black Friday, que integre com os seus sistemas internos e, mais importante, procuram parceiros tecnológicos experientes que possam ajudar as empresas a atingir os seus objetivos, ou seja, parceiros que possam dizer “been there, done that”.

Aurélio Duarte, Chief Marketing Officer na Dominios.PT

1 – Ainda existe alguma desconfiança nas plataformas digitais, no entanto, temos cada vez mais portugueses a fazerem compras online. Em 2017, cerca de 3,5 milhões de portugueses realizaram compras online, este valor irá duplicar em 2025. Para termos uma ideia, os bens mais vendidos online são o vestuário e acessórios de moda, que representam 57%, 52% nos equipamentos de telecomunicações móveis e acessórios, o alojamento também cresceu significativamente e representa hoje 58% das transacções, os transportes de longo curso (47%) e os bilhetes de espetáculos são os serviços mais populares e as aplicações móveis (21%), os jogos digitais (19%) e a música (17%) os conteúdos mais descarregados.

2 –  As empresas optam cada vez mais por soluções chave na mão. São poucas as que querem ter uma solução à medida, pois implica ter know-how interno para o desenvolvimento contínuo da aplicação bem como a preocupação constante com a segurança. Hoje em dia é possível criar uma loja online em minutos. O comerciante pode facilmente criar produtos, gerir stocks, disponibilizar vários métodos de pagamento, como o Multibanco, MB Way, cartão de crédito ou PayPal. As empresas procuram também, publicar os seus produtos em vários canais online sem complicações, com apenas um clique é possível criar um produto na loja online, no Facebook Store, eBay ou Amazon. Isto faz com que o espectro de venda seja mais alargado. Como qualquer outro negócio online, o tráfego é importante. Felizmente, vemos cada vez mais empresas preocupadas em investir na divulgação do seu negócio através de anúncios pagos nos motores de busca, divulgação nas redes sociais e nas plataformas de retargeting.

3 – Apesar de a percentagem de empresas com presença online continuar a crescer, os números permanecem muito aquém do desejável. A inovação, diferenciação e presença multicanal são factores de grande importância para a continuidade das empresas. A transformação digital é a chave para o sucesso das brick and mortar, em que a passagem do meio físico para o digital é crítico para a sobrevivência do negócio. É também de realçar que os clientes se sentem mais seguros em comprar em sites cuja empresa tem uma loja física.

Isabel Eufrásio, Sócia e Technology Evengelist da HighValue

1 – É um facto que o consumidor português confia cada vez mais nas plataformas digitais, sendo o seu nível de confiança a 100% na hora de encomendar e comprar produtos online. A existência de sites eletrónicos internacionais com prazos de entrega cada mais curtos e com uma ampla montra de produtos veio agilizar e tornar apetecíveis a utilização de plataformas digitais, tal como as campanhas agressivas que os mesmos fazem, quer através de “Black Fridays” ou “Cyber Mondays”. A utilização de compras online permite aos consumidores uma ampla escolha de produtos ou serviços de forma rápida que através do mercado tradicional físico não teriam ou, caso tivessem o custo seria mais caro e com uma periodicidade mais alargada.

2 – À data, é o Analytics, estando neste momento a entrar a inteligência artificial (IA). A utilização de análises de comportamento aliadas à IA permite focar no consumidor e nos seus gostos. Ao conseguirem aferir com confiança os gostos e necessidades dos consumidores as plataformas e-commerce, conseguem, não só guiar os consumidores nos sites para os produtos mais vendáveis, mas criar campanhas mais rentáveis de acordo com a informação que conseguem alimentar com as visitas dos consumidores. A tecnologia utilizada pelas plataformas digitais não se fecha no processo da venda, entrando pelo processo de logística de modo a conseguirem a entrega dos seus produtos nas casas dos consumidores de forma mais rápida e mais económica, dando a visibilidade ao consumidor do tracking dos seus pedidos.

3 – Esta é uma temática com uma vertente algo complexa para as empresas com forte aposta em plataformas e-commerce. Com a evolução tecnológica dos últimos quatro ou cinco anos, facilmente plataformas com mais de cinco anos se tornam pouco atrativas à exigência do nosso consumidor. Não há outro caminho: as empresas têm que se posicionar, convertendo de forma gradual as suas aplicações à realidade tecnológica atual, permitindo manterem-se ativas no mercado, caso contrário serão certamente preteridas. As plataformas visualmente confusas, com baixa facilidade nas procuras e com poucos meios de pagamento estão destinadas a morrer.

Jorge Alcobia, CEO da Multicert

1 –  A maioria dos consumidores portugueses que faz compras nas plataformas digitais confia nestas plataformas online, mas na maior parte das vezes sem conhecer os riscos que corre. Muitos dos consumidores clicam em links ou entram em sites sem verificar a segurança dos mesmos e colocam os seus dados pessoais e os dados dos seus meios de pagamento em sites não seguros. Hoje em dia, é possível a utilização de soluções que reduzem muito a possibilidade de sofrerem algum tipo de fraude, utilizando por exemplo meios de pagamento que geram números de cartões virtuais que só podem ser utilizados uma vez em compras online, como por exemplo a solução portuguesa da SIBS (MB Net/MB Way). Desta forma, mesmo que o site ou a transação não sejam seguros, a sua informação financeira não circula de forma indevida pela net. Adicionalmente, há cuidados básicos e muito simples que devem ter em qualquer que seja a plataforma online, por exemplo, ter em atenção se o site é seguro, isto é, se o URL ou endereço do site tem que começar por https:// e não entrar em sites que sejam «http://» (o “s” é precisamente de seguro/secure) especialmente se são sites onde fazem transações (compras, pagamentos) ou consulta de informação sensível (dados pessoais, informação financeira…).  Outra precaução é entrar diretamente no endereço do site, escrevendo o endereço do mesmo na barra de endereços ou entrando através do motor de pesquisa e não entrar em sites através de links que recebe por emails ou campanhas online. Isto aumenta a probabilidade de estar a entrar no site seguro e de não estar a ser direccionado para um site falso que tenha como objetivo o roubo dos seus dados pessoais e financeiros. Passos simples como estes são importantes para podermos evoluir de uma situação atual em que os consumidores utilizam as plataformas online de forma pouco segura, o que acaba por reduzir o volume de consumidores e de transações possível. Para uma situação em que temos consumidores portugueses que aderem à simplicidade e utilidade das compras online mas de forma informada e sem correr riscos desnecessários. A tecnologia está à nossa disposição para nos facilitar a vida, só temos que saber utilizá-la da melhor forma.

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