São duas rotas cruciais para o comércio internacional. E 500 anos depois de os portugueses terem lá andado, o estreito de Ormuz e o Cabo da Boa Esperança voltam agora a ganhar protagonismo perante um novo máximo na tensão geopolítica.
Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas em 1488, abrindo caminho para Vasco da Gama descobrir a rota marítima para as Índias. Já Afonso de Albuquerque e o seu exército combateram ferozmente no estreito de Ormuz há 500 anos, tendo conquistado a ilha de Ormuz, perdido-a após uma traição dos seus homens, para voltar a conquistá-la anos mais tarde.
Agora, outros portugueses navegam por estas águas. É o caso da Galp que vai desviar a rota de parte dos seus petroleiros que circulam naquela área perante a tensão no Médio Oriente. Apesar da petrolífera produzir unicamente no Brasil, algum do crude negociado por si vai passar a transitar pelo sul de África.
“Parte do nosso equity crude vamos começar a desviá-lo do estreito de Ormuz e estamos a enviar através do Cabo da Boa Esperança”, disse ao JE a co-CEO da Galp Maria João Carioca, em referência a crude negociado pela companhia, pois atualmente só produz no Brasil.
“Funcionamos muito em regime de bacia Atlântica. Portanto, não temos o grau de dependência do estreito de Ormuz, que se calhar outros players têm”, segundo a gestora.
O barril de petróleo sobe hoje quase 7% para mais de 77 dólares, enquanto que os contratos de gás para entrega na Europa em abril dispararam mais de 35% para mais de 43 euros/MWh.
A rota à volta de África é mais longa e tem custos acrescidos, podendo acrescentar mais 15 dias de duração a uma viagem.
O estreito de Ormuz é um ponto crucial para a energia global, por onde passa diariamente um quinto do petróleo transportado pelo mar, e 20% do gás líquidos. Resumindo, é por onde grande produtores de combustíveis fósseis como a Arábia Saudita, Irão, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos ou Qatar escoam a sua produção para o resto do mundo.
“As equipas estão a acompanhar, já vinham a acompanhar a pressão naquela zona e já tínhamos uma série de opções operacionais preparadas e de cenários futuros montados. No longo prazo, as equipas estão a olhar para cenários para perceber outros efeitos que vão-nos afetar seguramente, embora de forma mais indireta: os custos de shipping, de seguros”, explicou.
“Toda a instabilidade que isto gera sobre a procura. Já são segundas derivadas no curto prazo”, defendendo “calma, muita análise e muito trabalho operacional para encontrar alternativas no médio prazo”.
A gestora destaca o “balanço super sólido” da companhia, apesar de “obviamente” não conseguir controlar os impactos derivados de mudanças no “contexto macroeconómico”.
Os analistas do banco alemão Berenberg colocaram a Eni e a BP entre as petrolíferas europeias mais sensíveis à subida dos preços do crude devido à tensão no Médio Oriente, seguidas pela Shell e a Equinor.
Já a Galp, Repsol e OMV são as menos expostas a mudanças nos preços do petróleo, segundo uma nota hoje divulgada.
Uma subida de 10 dólares por barril vai resultar numa subida em 8% em média do cash flow das petrolíferas analisadas, segundo o Berenberg.
O banco estima que os preços podem ultrapassar os 100 dólares por barril no pior cenário, ficando nos 70-85 dólares no cenário intermédio, e entre os 60-70 dólares no cenário mais conservador. “O cenário base permanece que os ataques vão abrir caminho a novas negociações com a nova liderança iraniana em algum ponto nos próximos dias/semanas”.
Já o JP Morgan prevê mesmo que o petróleo possa vir a atingir os 120 dólares se o conflito durar mais de três semanas.
Outros analistas também preveem o barril nos 100 dólares. “Esperamos que os preços abram mais perto dos 100 dólares por barril e talvez superem esse nível se virmos uma paragem prolongada do estreito”, segundo o analista Ajay Parmar do ICIS.
Galp atinge lucro recorde em 2025
A Galp anunciou hoje que atingiu um lucro recorde em 2025. Foi uma subida de 20% para 1.150 milhões de euros.
A contribuir para este resultado histórico esteve o aumento da produção de petróleo e gás no Brasil e o aprovisionamento&trading de gás natural.
Durante este período, o EBTIDA recuou 8% para mais de três mil milhões com a queda do barril de petróleo para 69 dólares em 2025.
E o EBITDA do 4º trimestre recuou 10% à boleia da paragem para manutenção na refinaria de Sines.
Ao mesmo tempo, o dólar desvalorizou 4% em 2025.
“Num contexto internacional adverso e volátil, assegurámos uma performance operacional forte e transversal a todas as áreas de negócio, o que reflete bem a qualidade e resiliência dos nossos ativos. Ao mesmo tempo, prosseguimos a execução disciplinada dos nossos projetos estruturantes e a nossa estratégia de crescimento assente em parcerias, que posicionam a Galp para um futuro de criação de valor sustentável”, disse Maria João Carioca, co-CEO da Galp.
A petrolífera destaca que mais de 80% do seu EBITDA teve origem nas atividades internacionais com mais de metade a ser proveniente da produção de petróleo e gás natural no Brasil
No segmento Upstream, a entrada em produção de um novo campo no 4º trimestre permitiu que a produção média de petróleo e gás natural subisse de 109 mil barris diários para 113 mil.
No Industrial & Midstream, a companhia destaca que o acesso a cargas de GNL dos EUA da Venture Global permitiu aumentar em mais de 40% a venda de gás natural, contribuindo para mitigar o impacto negativo da paragem da refinaria.
A Comercial obteve um resultado recorde com a melhoria das condições no mercado espanhol.
As Renováveis operaram mais uma vez num “cenário de preços da energia solar pressionados, prosseguindo a sua estratégia de otimização das atividades de geração, através da limitação voluntária da produção, e de fontes de receitas adicionais provenientes da prestação de serviços de sistema de rede”.
A Galp vai propor aos acionistas um aumento de 4% do dividendo para 0,64 euros por ação, a par de um novo programa de recompra de ações no valor de 250 milhões de euros que arranca em março.
Em termos de investimento, este recuou em 200 milhões para 1,1 mil milhões de euros, com menos capital a ser necessário investir nos projetos petrolíferos no Brasil, após a entrega do projeto Bacalhau.
Em Portugal o investimento subiu de 370 milhões para 420 milhões, com a “aceleração do investimento nos projetos industriais – pioneiros a nível Europeu – de produção de combustíveis de baixo carbono (SAF e HVO) e de hidrogénio verde em Sines impulsionou o Capex do Industrial & Midstream em mais de 50%”.
As vendas em Angola e Moçambique geraram um investimento líquido de 95 milhões, com 170 milhões investidos nas renováveis.
A geração de caixa subiu 2% para 2,2 mil milhões de euros, apesar da queda no preço do Brent.
Com o endividamento líquido a atingir 1,3 mil milhões, com um rácio de dívida líquida sobre o EBITDA de 0,5 vezes, “uma posição financeira sólida face à média da indústria”.
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