A época natalícia é muito propicia a um consumo excessivo, que muitas vezes é impulsionado pelas elevadas campanhas de publicidade que decorrem durante esta altura.
Este consumo em excesso pode levar muitas vezes ao endividamento das famílias, uma vez que muitas tendem a optar pelo consumo imediato e que escolhem aderir a campanhas como a de pagar em 12 vezes sem juros, entre outras.
Na opinião da professora de Direito Bancário da Universidade Portucalense, Maria Emília Teixeira, a culpa deste consumo excessivo não é do natal, mas sim da vida acelerada que levamos e que por vezes não nos deixa estar presentes. “No natal o que existe é um consumo emocional. As pessoas para compensar uma certa ausência durante o ano, em vez de no natal aproveitarem para estar presente com a família, acabam por compensar essa ausência ao longo do ano com ofertas de bens materiais”, salientou.
As campanhas publicitárias dão um grande incentivo ao consumo imediato, pois ajudam a trazer um “bem-estar automático, mas adia-nos um problema”.
Todas as facilidades que costumam estar disponíveis nesta altura podem contribuir para um endividamento das famílias, maioritariamente porque há falta de literacia financeira da parte das famílias.
“Do ponto de vista governamental deveriam ser implementadas políticas de começar a ensinar literacia financeira aos nossos jovens”, sublinhou.
Esta literacia iria melhorar os pedidos de crédito, que em outubro subiram para um total de 157.367 novos contratos, o que representa um aumento de mais de 13 mil contratos face ao mês anterior. Já o valor destes créditos subiu 71 milhões de euros, para 855 milhões, segundo as estatísticas do Banco de Portugal (BdP).
Este aumento acontece numa altura em que a economia portuguesa foi escolhida pelo “The Economist” como a “economia do ano” com uma combinação de um forte crescimento do PIB, uma inflação baixa e um mercado bolsista em alta.
O crédito também contribuiu para este melhoramento, uma vez que a economia só cresce se houver moeda. “Portugal não tem capacidade para produzir assim tanto, portanto, a maior parte do crescimento é apoiado em crédito”, revelou.
Na opinião da professora “o crédito é uma boa forma das pessoas conseguirem o que querem antecipadamente, desde que seja uma decisão racional”.
“O grande problema é que a maior parte das famílias, como não tem literacia financeira, não faz o planeamento e confunde liquidez imediata com sustentabilidade financeira”, revelou.
O crédito ao consumo divide-se em três tipos, automóvel, pessoal e renovável. Os dados do BdP mostram que a grande maioria, 58%, dos novos créditos correspondem a crédito renovável. Esta é uma modalidade de crédito onde é estabelecido um limite máximo de crédito, modalidade onde entram os cartões de crédito.
Por normas as taxas associadas a estes créditos são elevadas, o que leva a que as taxas de incumprimento também o sejam. “Quando as pessoas pedem um empréstimo não se apercebem que não e só o juro que têm de pagar, mas também as comissões, as despesas e em caso de incumprimento, uma penalização”, referiu.
“As pessoas não têm a mínima ideia do que significa contrair um crédito”, sublinhou. A professora deixa o alerta para que as pessoas estejam atentas à TAEG (taxa anual de encargos efetiva global), “é a taxa vital para saber qual é o custo total do crédito”. Para além desta taxa, a professora sublinha outra importante, o MTIC (montante total imputado ao consumidor).
Enquanto antigamente o endividamento das famílias portuguesas era em crédito à habitação ou automóvel, hoje em dia existe muito “endividamento nos cartões de crédito, ou seja, no crédito fácil, naquele crédito que vem nos ter a casa”, referiu.
A professora salienta ainda que este endividamento é particularmente preocupante na faixa etária dos 40 para cima. “Os nossos jovens têm acedido a cartões de crédito, mas têm mais ou menos a noção do que podem ou não fazer. Agora na faixa etária dos 40 para cima, é preocupante”, sublinhou.
Para a professora a legislação em Portugal e na União Europeia está “feita para proteger o consumidor”, com “leis muito avançadas”, contudo a nossa população não as conhece nem entende.
Estes endividamentos podem ser combatidos com literacia financeira e também com planeamento. “Como as pessoas não planeiam antecipadamente, não fazem um teto máximo de um orçamento do qual não podem extrapolar, não põem de parte ao longo do ano para nesta altura poderem fazer face a estas despesas extraordinárias, o que adia um problema para os meses subsequentes”, explicou.
Mas sendo uma prática tão comum, a de pedir créditos, como é que as pessoas ainda não sabem tudo o que envolve? Na opinião da professora deve-se às pessoas precisarem de ter uma “sensação de imediato” e à falta de literacia. “Não só o governo não tem políticas necessárias para informar, como a sociedade não reclama essas políticas, temos de ser mais audíveis”, referiu.
Para a professora a nova geração tem “imenso potencial” para combater esta falta de literacia financeira, e considera que é da “responsabilidade governamental” explorar este potencial. “Os nosso governos estão muito distraídos com outro tipo de políticas, com outro tipo de discursos e narrativas sensacionalistas, e estão a perder o foco”, afirmou.
A própria União Europeia (UE) disponibiliza linhas de apoio para projetos de literacia financeira, contudo do “ponto de vista burocrático é muito difícil de conseguir colocar o projeto num conteúdo programático numa escola”, revelou.
Maria Emília Teixeira defende que deveria existir “aconselhamento preventivo gratuito” assim como uma “maior transparência por parte das instituições no que toca aos produtos de crédito” para combater este endividamento.
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