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“Contratar a pessoa errada é muito pior do que não contratar ninguém”

David Bizer foi o primeiro recrutador da gigante tecnológica Google na Europa. Esteve no Innov.Club para explicar a importância de uma boa cultura de empresa.
20 Outubro 2025, 13h05

Com as empresas focadas nas novas tecnologias e numa concorrência cada vez mais cerrada, que espaço resta ao desenvolvimento de uma cultura de empresa em que os trabalhadores se revejam e que os retenha? Numa altura em que Portugal revê a lei laboral, no sentido de dotar as empresas de melhores ferramentas para resolver um problema crónico de produtividade, é importante perceber como estas organizações podem definir a sua filosofia e tirar o melhor partido dos seus quadros.

David Bizer, fundador e CEO da Talent Fountain, foi o convidado do Innov.Club (promovido pela Vieira de Almeida e Beta-i). Este profissional tem uma carreira marcada pela criação de equipas de elevado desempenho e pelo desenvolvimento de uma cultura organizacional. Do velhinho Netscape à construção das primeiras equipas europeias da Google, trouxe um enquadramento prático para compreender, avaliar e moldar a cultura nas organizações.

Ao Jornal Económico, David Bizer destaca que “mais do que nunca, a cultura de empresa é um tremendo estabilizador” num mundo de “mudanças incessantes”, não só no contexto profissional como na perspetiva geopolítica. “Criem uma plataforma que tome conta dos seus trabalhadores, algo que seja verdadeiramente poderoso e que leve as pessoas a concluir que não se imagina a trabalhar noutro sítio”, afirma, desafiando diretamente as empresas.

Num contexto em que tudo parece que tem de acontecer de forma automática, o desenvolvimento de uma cultura de empresa deve ser um processo demorado e meticuloso.“Invistam o tempo necessário para garantir que todos vão remar na mesma direção”, diz.

Tudo começa na definição de “confiança”: é dado um especial ênfase a este aspeto e Bizer explica que, em alguns projetos, foram necessários três meses para definir o conceito e partir para outros pilares. E se é importante ter tempo para definir a cultura, é fulcral ser meticuloso na hora de recrutar.
Um exemplo que este especialista viveu na Google: “Precisávamos de um marketing manager e se tivéssemos que demorar 18 meses para encontrar a pessoa certa, não havia qualquer problema. Na perspectiva da Google, contratar a pessoa errada é muito pior do que não contratar ninguém”. Até porque, para uma organização, é importante ter uma mensagem para passar a quem está a ser contratado e é importante que a taxa de sucesso no recrutamento seja elevado, apesar de ainda existir com muita predominância a cultura do “recrutar por instinto”.

Sendo assim, como é possível perceber que a empresa tem uma cultura bem definida? David Bizer mede isso de duas formas: como é que as pessoas se comportam quando as chefias não estão e como é que os trabalhadores recordam essa empresa 10 anos depois de saírem. Uma coisa é certa, recorda: “Mesmo que não esteja definida uma cultura de empresa, já existe uma. Mas é arriscado que não esteja definida”. Para essa definição, é importante que haja uma coerência na forma como as lideranças tomam decisões e também como é que as chefias tratam os seus colaboradores e clientes. “Fico sempre surpreendido quando ouço os trabalhadores dizerem que não têm objetivos definidos. A minha reação é perguntar “o que é que fazes aqui?” ou “o que é suposto atingires?”, confessa.

Transportando a conversa para o contexto português, perguntamos se o contexto de empresas de cariz familiar, muitos comuns em Portugal, representa um desafio na definição de cultura de empresa. Explica David Bizer que todas as empresas têm a sua filosofia e nesse aspeto, recordou uma história profissional: “O dono de uma empresa familiar grega convidou-me para perceber o que é que estava a correr tão bem com a cultura da sua própria empresa, porque queria deixar esse legado registado aos seus descendentes”. Por fim, a Inteligência Artificial. Questionamos se faz sentido falar em cultura de empresa quando a tecnologia parece ter um papel cada vez mais dominante. David Bizer concorda que a IA é uma ameaça mas também é uma oportunidade, sobretudo para se perceber melhor os anseios dos colaboradores e ter tempo para reunir presencialmente e que a tecnologia faça o seu papel no sentido de compilar de forma automática toda a informação que levaria horas a ser trabalhada.

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