Covid-19: ‘Chef’ Vítor Sobral vai “acender uma velinha a Nossa Senhora de Fátima” para pagar salários

O Grupo Quina emprega cerca de 120 funcionários. Dois restaurantes foram encerrados, outros dois estão a funcionar em regime de ‘take away’, assim como as padarias. Vítor Sobral garante salários neste mês de março, mas não sabe como será no mês de abril.

Cristina Bernardo

O ‘chef’ Vítor Sobral já encerrou dois restaurantes do Grupo Quina devido ao surto do coronavírus. Mas manteve abertos o ‘Peixaria da Esquina’ e o ‘Tasca da Esquina’, em regime de ‘take away’, assim como as ‘Padarias da Esquina’.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Económico, um dos mais conceituados ‘chefs’ nacionais revela as suas angústias sobre as medidas para apoio às empresas do setor e sobre o impacto que a pandemia vai ter no turismo, na restauração e no futuro do seu grupo.

 

O Grupo Quina, que lidera, já decidiu encerrar dois restaurantes. Como vai o ‘chef’ reagir nas próximas semanas a esta pandemia?
A decisão de fechar os restaurantes do meu grupo não foi uma decisão minha, sozinha, foi uma decisão em equipa. O que eu penso é que, caso haja uma paralisação total do país, a pandemia vai ser realmente grave. Mas, se não tivermos meios de recuperar economicamente o país depois de superada a pandemia, os efeitos vão ser muito mais graves. No caso do meu grupo, estamos a tentar o mais possível manter os postos de trabalho, a tentar assegurar que as equipas se mantenham. Estamos a trabalhar num setor em que reconheço que a grande maioria dos restaurantes fechou. E não foi só por questões de segurança, já há várias semanas que deixámos de ter clientes. De zero a 100, passámos a 10.

No seu grupo, quais foram os resrtaurantes que encerraram e quais os que continuam a funcionar?No Grupo Quina, que emprega neste momento cerca de 120 funcionários, dos quatro restaurantes, decidimos fechar dois, o Balcão da Esquina e o Talho da Esquina, mantendo-se abertos o Peixaria da Esquina e o Tasca da Esquina, apenas para serviços de ‘take-away’. Em relação às Padarias da Esquina, estão abertas as três, a do Restelo e de Campo de Ourique para fazer vendas ao balcão e ao domicílio, e a de Alvalade para fazer vendas só ao balcão.

No seu entender, qual o impacto económico da Covid-19 no setor da restauração e no seu grupo?
O impacto da parte económica tem sido gravíssimo para nós, no setor dos restaurantes. Por isso, a maior parte de nós decidiu fechar, o que eu compreendo, porque manter os restaurantes abertos implicava correr riscos. Decidimos criar um mecanismo para manter um terço da equipa a trabalhar no segmento de ‘take-away’, para alargar alguma fonte de receitas, que neste momento é de cerca de 10% em relação à atividade normal. E existe aqui um fator essencial para quem, como eu, tentou crescer neste setor, criou postos de trabalho, endividou-se junto da banca para fazer estes investimentos, pagou impostos sobre isso tudo, e está agora em grandes dificuldades para fazer face a todos os compromissos assumidos.

Pensa que o Governo tem estado a reagir de forma adequada à pandemia?
O Governo, no meu entender, está a gerir bem esta crise, mas receio que as medidas demorem demasiado tempo para conseguirem salvar as empresas, que têm uma extrema necessidade de apoios para fazer face a esta situação agora. E mais do que isso, quando tudo terminar, é preciso perceber que somos uma peça fundamental para a recuperação económica, porque fazemos parte do turismo, que é fundamental para nós, para Portugal, para os portugueses. E já percebemos que vai demorar mais tempo a recuperar a economia, e que o desemprego vai aumentar.

Então, qual é, para si, a solução?
Regressando aos termos culinários, diria que esta situação é uma pescadinha de rabo na boca. Por isso, tudo o que se possa fazer para manter este setor, que tudo fez para melhorar a imagem do país, é fundamental. Tenho a perfeita noção de que há ferramentas que podem ajudar os que são e que foram empreendedores neste setor, como foi e é o meu caso.

Como deveriam ser essas medidas de apoio ao setor da restauração?
Defendo que essas medidas devem beneficiar as empresas que sempre tiveram as suas obrigações fiscais e os seus impostos em dia. E neste setor, beneficiar também as empresas que pagam de uma forma mais justa, como é o caso do Grupo Quina, sem apostar apenas em baixos salários. No entanto, tenho de admitir que possa haver uma demora, que tenhamos de aguardar. Mas eu já estou quase a acender uma velinha a Nossa Senhora de Fátima.

Porquê?
Este mês, vou conseguir cumprir as obrigações salariais com os meus empregados. Não despedi ninguém. Para o próximo mês, já não sei. Claro que houve a medida de adiamento de pagamentos de alguns impostos e de algumas obrigações, mas isso é apenas uma gota no oceano. E penso também que todo o apoio que os contribuintes portugueses deram à banca nos últimos anos tem de ser agora retribuído. Se a banca nos ajudar agora, essa vai ser uma excelente base para que nos próximos anos possamos aliviar toda a pressão económica que está a agora a notar-se. Eu não quero que me dêem nada, quero apenas que me deem ferramentas para poder fazer face a esta situação. Esta é a única coisa que lhe quero dizer, que é fundamental este tipo de apoios agora para que a economia não páre, para que continue a fomentar o emprego e o turismo.

Assim, neste momento de grande incerteza, como é que encara o futuro próximo?
Tudo o que estiver ao nosso alcance para manter a economia a funcionar, para haver trocas comerciais é um sinal positivo nesta situação. Se a economia parar, sem haver circulação de dinheiro, passamos a ter também uma grande pandemia na economia. Sem ser economista, sendo cozinheiro, é muito fácil perceber isso.

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